A vida não precisa ser tão sofrida!

“Quem tem medo das palavras?”[1].

Essa frase me fez lembrar de uma série de fragmentos que pude escutar na clínica e no meu dia a dia.

Fragmentos que falam da dor de existir, da dificuldade de algumas pessoas em re-lembrar alguns momentos de sua vida.

Para elas, falar de um fato do “passado” é sinônimo de dor e sofrimento: “Não quero falar disso, já passou, vou piorar as coisas![2]”.

Não querem, não podem ou não suportam dizer. Temem vivenciar, novamente, toda a dor e o sofrimento que, segundo elas, um dia passaram: “Falar de sofrimento é sofrer duas vezes”.

Mal sabem elas que, o que não é dito, retorna. Muitas vezes, em forma de sintomas. No próprio Corpo ou até mesmo nos Sonhos. Sintomas que podem ser transmitidos às gerações seguintes.

Seja pela via do alcoolismo, da drogadição ou da medicação, entre outras, querem “se livrar” e/ou “anestesiar” toda e qualquer dor de existir.

Certo dia, durante um atendimento clínico, pude escutar de um menino de nove anos de idade, que brincava com blocos de montar: “Que girafa sofrida!”.

Essa criança estava falando não só da sua própria sintomática mas, também, da sintomática de sua família.

Entre outras coisas, a história dessa família é perpassada por um luto não realizado, do irmão da mãe dessa criança, que foi cruelmente assassinado. A família diz não saber o que motivou o crime.

A mãe desse menino, ainda hoje, não consegue falar sobre a morte do irmão. Ela sempre chora muito. E sempre que se aproxima do assunto, recua, me dizendo: “Não quero falar sobre isso”. Como é possível perceber, trata-se de uma “ferida” aberta, que ainda dói e sangra.

Consequentemente,  os membros dessa família adoecem com freqüência: resfriados, crises de asma, otites, rinites, gargantas inflamadas, constantes internações, dores na coluna, entre outros, são alguns de seus sintomas.

Interessante:  em um de nossos primeiros encontros, essa mesma mãe me diz: “gosto de você, pois você põe o dedo na ferida!”. Pouco tempo depois, “por o dedo na ferida”, é justamente o que seu filho vem fazendo em casa. Vez e outra, seu filho cutuca, literalmente, as casquinhas dos machucados, até sangrar, se ferindo ainda mais.

Uma vez perguntei a ela: “que ferida é essa que vez e outra sangra?”.

“Adoecemos do que não conseguimos falar”. Do que não é dito:

As vivências na clínica demonstram as sequelas do que deveria ter sido falado e não foi. (…) Sem a verbalização, as chances de elaborar diminuem ou faltam por completo; então, é bem provável que o não-dito retorne, gerando inibições, sintomas ou angústia. Vale lembrar: as histórias que não são contadas, as palavras censuradas, as verdades caladas, [os segredos de família], estas e outras espécies de não-dito acarretam consequências, nunca saudáveis e quase sempre patológicas (Rosa, 2009).

Há algum tempo, atendi uma jovem que dizia não se relacionar com os homens por medo de sofrer. Entretanto, não estabelecer um laço amoroso com um homem a fazia sofrer. Ela se sentia sozinha. Certa vez, me disse: “É como se eu tivesse tentando”…”Fugir do sofrimento, sofrendo”.

Uma outra paciente, até então, por não conseguir falar sobre o que a “torturava”, chegou até a mim, relatando fortes dores.  Segundo ela, sua dor era uma mistura de três dores: “dor de dente (“bem doída”), dor de parto e dor de cálculo renal”. Ela vinha se submetendo a uma série de procedimentos médicos e medicações (algumas de tarja preta) para “tratar” os insistentes males que vinha sentindo na região abdominal e pélvica.

O que não estava conseguindo ser dito pela boca, por meio da palavra, estava sendo dito pelo seu corpo.

Hoje, após meses de análise, vez e outra ela relata sentir-se “aliviada”. Diz que a “tortura” está menor. Mas, que ainda sente muita “dor”. Segundo ela, “uma dor que não tem origem”…”que vai ter que aprender a viver com ela…”.
Será que é a dor de existir?

“É preciso ultrapassar o Sofrimento!”

A palavra é o nosso melhor recurso para lidar com a dor de existir. Por isso, não tenham medo das palavras. “Falar de si e escutar o que dizemos para além do que intencionamos, não há bem maior nessa vida!”[3].

Uma psicanálise nos possibilita re-vermos a nossa história. Re-significá-la! Por isso uma análise é tão importante. Uma análise nos permite ultrapassar algumas dores e sofrimentos. Cicatrizar feridas. Construir outros caminhos.

É como descascar uma cebola, pouco a pouco, vamos retirando suas camadas. E não é sem choro.

Tudo pode mudar a partir do momento que pudermos escutar, às vezes, de um psicanalista, que “a vida não precisa ser tão sofrida!”.

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Referências Bibliográficas

Rosa, M. D. (2009). Historias que não se contam: o não-dito na psicanálise com crianças e adolescentes. 2 ed. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Notas de Rodapé

[1] Darlene Tronquoy, psicanalista, professora e colunista do Jornal A Tribuna, Vitória, ES.

[2] Darlene Tronquoy, psicanalista, professora e colunista do Jornal A Tribuna, Vitória, ES.

[3] Darlene Tronquoy, psicanalista, professora e colunista do Jornal A Tribuna, Vitória, ES.

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André Nascimento
Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular: Praia do Suá, Vitória, Espírito Santo (ES). Autor, editor e idealizador do Blog Eu Tava Aqui Pensando e Escritos Psicanalíticos. Contato: (27) 999617815 (Vivo). Correio Eletrônico: dreebn@gmail.com ou dreebn@yahoo.com.br



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