“A bruxa” e a parte obscura de nós mesmos.

“Tudo leva a crer, escreve André Breton, que existe um certo ponto do espirito de onde a vida e a morte, o real e o imaginário, o passado e o futuro, o comunicável e o incomunicável deixa de ser percebidos contraditoriamente”, “Há uma luz na escuridão que surgirá das sombras”. Robert Eggers. Quem realmente é o mal do mundo? Um estudo sobre a frágil condição humana.

A bruxa é um filme que provoca o espectador. As pessoas procuram um formato quadradinho de terror, mas acham que encontram um drama familiar. Entretanto a classificação de terror partindo de um entendimento segundo Stephen King nos diz que terror é um sofrimento antecipado, uma ansiedade, um sentimento de que “tem algo lá” e não sabemos o que é, mas você está vendo, incitando o medo psicológico e a paranoia no espectador.

Já o horror é entendido por ter “algo” repulsivo, nesse filme não há uma preocupação de provocar sustos nas salas de cinema e tão pouco aparece no filme espíritos malignos ou zumbis que são nojentos e assustadores. Mas as cenas não deixam de ser assustadoras por apresentarem algo a mais que não sabemos bem do que se trata.

É um filme para questionarmos onde está o terror. Poderíamos pensar em um terror dos filmes dos anos 60, mas o que acontece é de uma sutileza, na qual nos leva aos poucos a um clima de tensão constante. É através de cada personagem que a escuridão desses indivíduos vem à tona. Isso sim é assustador.
Esclarecendo isso passamos para o filme.

Esse filme tem roteiro e direção de Robert Eggers e um de seus produtores é o brasileiro Rodrigo Teixeira. Com atuações esplêndidas de atores com narrativa primitiva e vários diálogos, simbolismos, os quais foram transcritos com relatos reais registrados pelo folclore da Nova Inglaterra do século 17.

A família é formada por cinco membros: o patriarca William (Ralph Ineson) e a esposa Katherine (Kate Dickie) e seus cinco filhos: a filha adolescente Thomasin (Anya Taylor-Joy), o pré-adolescente Caleb (Harvey Scrimshaw) os gêmeos e o recém-nascido, retratando a má condição de vida e o incomodo real de sobrevivência nesse século, um cotidiano pesado, sem nenhuma higiene e sem recursos em caso de doença. Por essas atribuições ao filme mais a trilha eficiente de Mark Korven e o som nos dá a nítida impressão de causar no espectador insegurança e incertezas.

Logo no começo do filme não sabemos bem porque a família é expulsa da pequena vila onde vive, talvez pelo fanatismo religioso do pai. A cena projetada é de um tribunal religioso onde são feitos questionamentos sobre a bíblia para William e ao interpretar de maneira radical conflita com as práticas da igreja em resposta ao fundamentalismo religioso daquela região, por isso partem a procura de um novo lar e vão morar em uma cabana numa imensa floresta ao mesmo tempo bela faz um paradoxo com o inferno onde se pode ver o bem podemos perceber a consciência do mal, pois ao chegarem à floresta, há certa ameaça que ronda a família e sutilmente aparece um mal invisível que dá a impressão que pode invadir a qualquer momento a cabana. Há um mistério, impenetrável, interdito que diviniza aquilo cujo acesso proíbe. É lá que se escondem todos os pesadelos.

Dessa forma isolados de todos, com o passar dos dias as colheitas fracassam e a família desgastada, passa fome e o isolamento provoca neles efeitos psicológicos. O ambiente é de hostilidade e tudo piora quando o bebe desaparece misteriosamente aos cuidados de Thomasin.

Com a ameaça invisível que vem da floresta se torna evidente o terror, como disse há algo que está lá de sinistro e sobrenatural, mas não sabemos o que é assim estabelece aos poucos um clima de paranoia, onde a filha Thomasin é injustiçada e hostilizada por todos pela suspeita de bruxaria, por estar na fase de transformação física e por ignorância acaba sendo responsabilizada e demonizada por se desenvolver e por provocar os homens da família e também na sua mãe, supersticiosa e influenciada pela religião que encara a sexualidade como fonte de pecado e a sua incapacidade de aceitar a filha de ser mulher por isso a recrimina e a ataca incapaz de aceitar a sua feminilidade. É uma representação fiel ao século onde as mulheres são oprimidas e agredidas remetendo aos julgamentos da inquisição e também reportamos ao fator de instabilidade de danação e queda, visto pelo pensamento judaico-cristão.

Com tudo isso ainda tem a moralidade exacerbada, uma hipermoral que torna cada integrante da família com um “chicote nas mãos batendo nas costas”. Willian em uma das cenas em conversa com o filho e diz que todos são filhos do pecado original, de adão e eva, por isso são culpados e condenados ao inferno, por essa razão precisam ser conformados com as leis de Divinas. Uma maneira puritana e conformista tornando a vida uma penitencia buscando o perdão de Deus.

O filme à série de infortúnios, a pressão de reprimir o que se deseja porque a religião não permite, assim como qualquer instituição sendo ela social ou não, mas sempre tem o “bode expiatório”, alguém que deve ser o culpado por ser o traidor.

Aqui em uma reflexão aprofundada nesse filme é bom lembrar Freud quando diz que o que é reprimido, tende a retornar sempre.

Assim o conflito de todo o filme fica entre a consciência e o desejo, entre o corpo e seus impulsos e a fé, a religião que barra o desejo, tudo é interpretado como sinal, pecado, castigo ou de algo que pode acontecer, ou seja, as superstições cercam a família que está diante de algo incompreensível, uma força descontrolada e que os rege os levando a um caminho sem volta.

Podemos levar em conta o imaginário popular da época, uma mistura de crenças e fantasias sobre bruxaria na idade média e moderna que flutuam nos sabbaths com relatos fiéis a manifestação do mal sobrenatural tratado no simbolismo carregado de sentido erótico-religioso tendo o imenso bode preto, o corvo, a lebre e claro a bruxa, são símbolos perturbadores, manipulando tudo e a todos para levar ao objetivo final considerando a combinação da crendice e da ignorância despertada por dogmas religiosos por se tratarem de animais “diabólicos”.

Assim a própria floresta sombria não passa de uma projeção da crescente paranoia e ansiedades religiosas daquela família.

Quem na verdade é a bruxa? Podemos recorrer à figura mítica como um desesperado recurso para manter a homeostase da família, ou seja, manter o equilíbrio quando todos estão à beira da autodestruição revelando as mentiras e hipocrisias da família puritana. Acabam que se tornam igual a tudo aquilo que mais eles temiam a própria bruxa.

A dúvida permanece entre o que é real e imaginário, aliás, as bruxas são reais ou delírios de puritanos atormentados pela culpa e pecado?

De forma gradual a família se torna o centro do seu horror, aonde os laços vão se desfazendo, mas eles não sabem impedir que acontecesse o pior porque o horror está dentro de nós e de como projetamos nos outros como um “bode expiatório”, uma expiação do mal, onde instituições como família e religião criam e que levam a sua autodestruição.

O final faz todo sentido do que é construído ao longo do filme e fica o questionamento a respeito da natureza humana e como ela pode ser cruel. Uma antítese do bem x mal e o que Thomasin em sua experiencia revela a sua transformação de menina para mulher racional para mulher natural que luta para sobreviver na floresta sendo a representação da “natureza humana”, sem ser necessariamente natureza entendida com verde, plantas e animais. Sobrevive a partir da sua natureza primitiva, como a única saída, onde não há definição de certo e errado e encontra a liberdade ao renegar a sua condição humana. No mundo mais próximo do indizível, o da transgressão, traduzindo uma liberação total da tensão moral e ao rigor que sufocavam a família.

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Maria Fernanda Carvalho
Psicóloga Clínica. CRP: 05/49129 Ênfase: Existencialismo. Participou de seminários, congressos, apresentou projeto de cunho científico sobre a relação terapêutica e apresentou a clínica como obra de arte uma metáfora baseada nos temas da filosofia de Nietzsche, uma contribuição para a clínica.



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