A culpa que não assumimos no fim do relacionamento

Por Leonardo Filomeno

“…Trocando em miúdos, pode guardar

As sobras de tudo que chamam lar

As sombras de tudo que fomos nós

As marcas de amor nos nossos lençóis

As nossas melhores lembranças

Aquela esperança de tudo se ajeitar

Pode esquecer Aquela aliança, você pode empenhar

Ou derreter…”

Na minha opinião, não teria melhor plano de fundo para um fim de relacionamento como essa estrofe da música Trocando em Miúdos, de Chico Buarque. Seria a fúnebre trilha sonora a acompanhar aquela visita meio sem jeito naquela casa onde antes você reinava.

A tocar enquanto, embargado pelo choro contido e orgulho ferido, você embala os livros, os itens de decoração de cada viagem, o resto dos tênis, a primeira camisa do seu clube de coração que você guarda até hoje…

Esse cenário me leva a pensar em outro produto do rompimento: as máscaras caem e a real verdade aparece na separação. Fico impressionado em ver como as pessoas se transformam ao término de uma vida a dois. Por mais que você conheça, conviva e passe anos ao lado de alguém que julga especial (com filhos, cachorros e periquitos), basta os sonhos não concretizarem, o ‘happy end’ deixar de existir e a mesma pessoa que meses antes fazia juras de amor, matava, morria, transforma-se por completo no seu pior vilão.

Tudo isso porque você ou ela optou por não remar juntos no mesmo barco. Mas, algo que me deixa extremamente curioso é como enxergamos as falhas e os erros que o outro passa a ter logo após o rompimento. As conversas sempre caminham para o “Eu dei o meu melhor”; “Ela nunca reconheceu os meus valores”; “Ela me sufocava o tempo todo”; “Ela usava aqueles joguinhos idiotas para conseguir o que quer”. Neste momento, fico pensando na farsa que representou aquele tempo todo em que estiveram juntos, as juras de amor em público, promessas, compromissos. Será que ele estava cego de amor e só com o término foi possível enxergar o quão bosta foi a relação? Será que realmente nunca foi feliz ao lado dela? Amigos e amigas logo aparecerão para confortar e para enfatizar esta ideia. “Ela nunca mereceu você!”; “Ela sempre botava você para baixo!”; “Você logo vai encontrar outra muito mais gostosa e que te ame realmente!”.

Sei que términos são traumáticos. Sei também que logo depois de perder aquilo que seria a outra metade da sua laranja, precisamos de uma injeção de ânimo para juntas os cacos, levantar e continuar tocando a vida. Mas, será que não é um momento bom também para reconhecer as suas cagadas durante a relação? A falta de comprometimento que você teve nos primeiros anos, as escapadinhas e mentiras sem justificativas, as vezes em que você não foi parceiro quando ela precisava, aqueles momentos em que você foi um Grandessíssimo Fiho da Puta. Não estou falando aqui para virar o jogo, endeusar a outra pessoa e colocar a culpa do fracasso do relacionamento somente em você. Peço aqui para fazer um pequeno exame de consciência: você curtiria se relacionar com aquela figura que você interpretou quando conviveu com ela?

Você amou com toda as forças? Você foi sincero todas as vezes? Você não foi egoísta? Você sempre deu o braço a torcer? Você deixou que ela tivesse uma vida social e não vivesse só para o relacionamento e suas vontades? Eu acho que este exame de consciência é mais do que necessário depois de um fim de relacionamento. É com ele que você vai descobrir as pequenas coisas que acabaram minando o dia-a-dia da vida do casal. Aprender a evitar as cagadas nos próximos envolvimentos, valorizar mais a si e a outra pessoa que estiver ao seu lado. Por isso, um conselho que dou é: seja menos egocêntrico e mais reflexivo. Tente ver os prós e contras da sua participação no envolvimento. Aprenda com seus erros e tente enxergar no que ela vacilou. Talvez, você esteja muito mais para o companheiro cafajeste de Com Açúcar e Com Afeto, só ainda não tenha se tocado…

FONTEManual do Homem Moderno
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