A falta que nos move

Por Liane Alves

Numa entrevista recente, a atriz Isis Valverde desabafou: “Tenho um buraco enorme dentro de mim, uma falta que não consigo explicar ou preencher, e que está sempre presente em tudo o que faço”.

Como um pano de fundo, esse sentimento a acompanha em suas conquistas, projetos, relacionamentos. Às vezes fica encoberto, mas se há um pouco de silêncio interior, ele pode se manifestar claramente. E isso não acontece só com ela. O que Isis descreveu tão bem é algo que habita o coração de todos.

Essa quase indefinível sensação de necessidade e carência foi descrita pela filosofia, pela psicologia, pela literatura. Para alguns ela é intensa, para outros se apresenta menos profundamente e com mais raridade. Porém, uma vez ou outra na vida, nos encontramos com esse sentimento inequívoco de falta de algo que nem conseguimos definir direito o que é. “Na mitologia grega, a mãe de Eros, o desejo, é a Penúria, a falta. Sabiamente, os gregos colocavam a carência como a origem de tudo que desejamos na vida. Para eles, esse gosto de escassez, de insuficiência, de insatisfação é a grande faísca que dá partida às nossas ações, planos e sonhos”, diz a professora de mitologia Helenice Hartmann.

Saber disso gera alívio. Muita gente não consegue identificar esse aperto no peito que nos angustia, e mal percebe que ele está ali presente, ou que sequer existe. Ao dar um nome para esse sentimento difuso, mas insistente, a vida pode se reorganizar de uma maneira diferente. Podemos reconhecer o que nos incomoda e, mais que isso, observar como essa falta primordial é capaz de conduzir, nem sempre de uma maneira mais sábia, a maioria dos nossos movimentos existenciais. Com base nessa nova consciência, é possível, então, uma regulação mais equilibrada de nossos desejos: já sabemos o que os origina, e assim podemos administrá-los melhor.

Se admitimos que essa falta jamais será preenchida com as ilusões do universo material, ou mesmo emocional, vamos abrandar a fome com que nos atiramos às pessoas e às coisas. Dessa maneira, é possível nos contentarmos mais com a vida, e até nos alegrarmos e nos sentirmos gratos com o que já temos, pois atendemos a essa necessidade de outra forma. “Não se trata de suprimir o desejo, mas de transformá- lo: de desejar um pouco menos aquilo que nos falta e um pouco mais aquilo que temos; de desejar um pouco menos o que não depende de nós e um pouco mais aquilo que de fato depende”, sugere o filósofo francês contemporâneo André Comte-Sponville. Sem dúvida, isso já é um ótimo começo.

A descoberta da falta

Saber que existe esse vazio interno pode se tornar uma descoberta fascinante. Tanto que ela é capaz de tocar vários autores. A diretora carioca Christiane Jatahy fez uma peça teatral e, depois, um filme (A Falta Que nos Move) que fala dessa necessidade primordial do ser. Para realizá-los, uma de suas fontes de inspiração foi o filósofo alemão do século 19 Arthur Schopenhauer. Segundo ele, o sentimento de ausência é o movimento precursor da busca que o ser humano empreende em sua vida: a procura pela realização pessoal, pelo relacionamento com o outro e pela tão fugidia felicidade. “Todo desejo nasce de uma falta, de um estado ou condição que não nos satisfazem: portanto, enquanto não for satisfeito, ele é sofrimento”, escreveu o pensador.

Outro que se aprofundou nesse tema no século 20, e que também influenciou a diretora Christiane Jatahy, foi o psicanalista francês Jacques Lacan. Ele afirmava que esse vazio primordial alimenta a procura do homem por sua própria verdade. Portanto, para Lacan, a falta não é, em si, negativa ou indesejável, mas o poderoso estopim de uma busca interna que pode se tornar reveladora. Para exemplificá-la, Christiane colocou em seu filme quatro atores que procuram tocar o sentimento de falta que mobiliza cada um deles. Como os personagens da peça teatral Esperando Godot, do irlandês Samuel Beckett, eles aguardam um convidado que nunca chega para jantar. A espera desnuda o vazio em que eles vivem, e a sensação de falta que modula suas esperanças e ilusões. Mas, se ela é bastante perceptível para quem assiste ao filme, os quatro parecem inconscientes dela a maior parte do tempo. Mais ou menos como acontece com todos nós.

Amar um pouco mais

A lógica é simples: se espero conseguir algo, é porque me falta alguma coisa, certo? Portanto, a esperança primordial, aquela que alicerça todas as outras esperanças que habitam nosso coração, é nossa vontade de conseguir preencher esse vazio que nos consome. Por isso mesmo, os estoicos desconfiavam muito dela. “Esperar um pouco menos, amar um pouco mais”, propunha essa antiga corrente de filosofia da Grécia. Em outras palavras, mais ação e menos expectativas.

Porque ao colocar o desejo de satisfação no futuro, nos deslocamos do presente e aumentamos nossa angústia. Para evitar isso, os estoicos adotavam uma medida prática: satisfaziam-se com o que tinham. Para eles, desejar mais do que o momento proporciona era garantia de infelicidade. Contrariando o senso comum, que diz que “não se pode viver sem esperança”, eles a consideravam a maior das adversidades. “Porque ela é, por natureza, da mesma ordem da falta, da tensão insaciada. Vivemos continuamente na dimensão do projeto, correndo atrás de objetos colocados num futuro mais ou menos distante, e pensamos, ilusão suprema, que nossa felicidade depende da realização concreta de fins medíocres, ou grandiosos, pouco importa, que estabelecemos para nós mesmos”, escreveu com sabedoria o educador e pensador francês Luc Ferry no livro Aprendendo a Viver.

E há outro bom motivo para não se depender da esperança da satisfação de um desejo: assim que o realizamos, outro buraco se forma, outra falta, que exigirá o seu preenchimento. “Assim que um objetivo é alcançado, temos quase sempre a experiência dolorosa da indiferença, ou mesmo da decepção”, continua Luc Ferry. “Como crianças que se desinteressam do brinquedo no dia seguinte ao Natal, a posse de bens tão desejados não nos torna nem melhores nem mais felizes do que antes”. Nada se modifica e enquanto se espera viver, a vida passa.

“Nenhuma satisfação é duradoura: ao contrário, ela é ponto de partida para novos desejos. Em todo lugar vemos desejos sendo frustrados e impedidos de se realizar, de diversas maneiras; por toda a parte vemos pessoas lutando por eles, e assim eles sempre aparecem como sofrimento. Não há término para o esforço, não há medida e não há fim para o sofrimento”, afirmava Schopenhauer. “I can get no satisfaction”, portanto, não é apenas o grito de Mick Jagger, mas o de todos nós.

Viver entre a esperança de ter, ou ser, e o medo de não ter, ou de não ser, pode se tornar outra forma de tortura. “O medo é a face complementar da esperança. Temos esperança porque, no fundo, temos medo de não ter nosso desejo satisfeito. Esperamos que ele se realize, mas temos medo de que ele não se realize”, diz indo direto ao ponto a monja budista americana Pema Chödron. Em resumo, para não sofrer tanto com as expectativas, é necessário aceitar a vida como ela é, e reconciliar-e consigo mesmo. “É possível fazer planos, é claro, mas não depender disso para ser feliz. A felicidade está dentro de nós, e não fora, no outro, no futuro ou em outras circunstâncias”, diz Pema. Ao constatar isso, já fica mais fácil nos livrarmos de outra forma de sofrimento ocasionado pela falta: a inveja.

Quem, eu?

Você e seu namorado não estão muito bem e sua melhor amiga intervém e… dá em cima dele. De uma parte, você já sabe o motivo por que aconteceu isso: inveja. Afinal, você falou para ela o quanto vocês cuidavam um do outro, os encontros apaixonados… Quem não iria espichar o olho? Além disso, ela não tinha uma relação satisfatória há tempos. Se você for um menino, pode adaptar o exemplo para o caso de um colega que está a fim do seu cargo, por exemplo, aquele que você treinou e a quem deu todas indicações para ocupar seu posto. Como, nos dois casos, a pessoa teve a coragem de trair sua confiança?

Simples. Ela se comparou a você e achou que tinha condições de ter o que você tinha. Além de inveja, a cobiça. O que você talvez ainda não saiba é que a inveja, a avareza, a luxúria, o orgulho, enfim, todos os pecados capitais, se ancoram no sentimento de falta. O raciocínio é esse: ou eu acho que tenho mais do que outro (orgulho e vaidade), ou não quero perder o que eu penso ter (avareza), ou desejo ter o que o outro tem e que eu não tenho (inveja, cobiça). E há uma razão para essa comparação. No caso da inveja, a sensação de incapacidade e de insatisfação gerada pela falta nos reduz a um tamanho interno bem pequeno. Julgamos não ter nada, não ser nada. E justamente por causa disso estamos sempre nos comparando (e competindo) com o próximo.

É uma triste condição. E ninguém está imune a ela. Toda vez que nos comparamos a alguém que admiramos e que nos sentimos insuficientes ou incapazes de ser ou ter o que essa pessoa é ou tem, entramos para o indesejável círculo dos 99. Você já ouviu falar? Vale a pena conhecer. Dizem que um rei triste contratou um bobo da corte muito feliz para alegrá-lo. Porém, mais do que rir, ele queria saber o que tornava o bobo tão feliz. Ele consultou os sábios da corte, que concluíram: o bobo era assim porque estava fora do círculo dos 99. Para exemplificar sua teoria, sugeriram que o rei deixasse na porta do bobo um saco com 99 moedas de ouro e o observasse escondido. Além disso, o monarca deveria deixar o seguinte bilhete: “Estas 100 moedas de ouro são suas. O tesouro é um prêmio por você ser um homem bom e feliz. Desfrute-o e não conte a ninguém onde o encontrou”. O rei aceitou o desafio.

O bobo achou o presente e, sem acreditar no que via, começou a contar as moedas: 97, 98… 99! Faltava uma! Inconformado, contou de novo. “Que droga! Como assim?!?”, perguntava a si mesmo. O rei via que, em vez de ficar contente por ter recebido as moedas, ele estava com uma expressão angustiada e tensa. Depois de recontar o dinheiro, o bobo começou a fazer planos de como conseguiria a última moeda, tarefa que iria consumir alguns anos e que o manteria insatisfeito e infeliz até realizá-la. Abismado, o rei presenciava como o menestrel acabava de entrar para o círculo dos 99, e assim iniciava sua vida de homem infeliz.

Toda vez que sentimos inveja, também entramos no círculo dos 99. Olhamos para o que achamos que nos falta, em vez de olhar para nossa completude. De novo o budismo pode nos ajudar a compreender essa questão. Segundo essa filosofia, já somos naturalmente seres iluminados, felizes e cheios de amor e compaixão. Porém, essa realidade está encoberta pela sensação de falta e pelos desejos que surgem por querer suprimi-la. “Nossa consciência é pura e boa. O único problema é que ficamos tão envolvidos com os altos e baixos da vida que não encontramos tempo para fazer uma pausa e observar o que já temos”, diz o monge Mingyur Rinpoche em sua carta de despedida, antes de partir para um retiro de três anos nas montanhas do Nepal. “Não se esqueça de abrir espaço em sua vida para reconhecer sua natureza básica, para ver a pureza do seu ser e deixar que suas qualidades inatas de amor, compaixão e sabedoria possam surgir naturalmente”, escreveu. É como se essa natureza primordial fosse uma pequena planta que, nutrida por práticas como a meditação ou a contemplação, se tornasse forte e florescesse, trazendo mais felicidade e satisfação para nossa vida.

Aqui começamos a vislumbrar a saída do problema: para preencher esse buraco existencial, não é preciso preenchê-lo, mas transcendê-lo. Seja com uma abordagem espiritual, seja com base no encontro com o outro. É o que vamos ver a seguir.

Superação da circunferência

Ao traçar num papel o círculo que representa um buraco, vemos que ele tem limite: a própria circunferência. O que nos separa da integração com um todo é justamente essa fronteira. “Nas antigas civilizações, como as do Oriente, o indivíduo sentia-se mais integrado a sua cultura, a seu universo. A noção de falta era menos presente e sentida porque toda uma estrutura o amparava em suas decisões, comportamentos e objetivos. Mas hoje, na modernidade, essa integralidade não mais existe. Vivemos uma cultura fragmentária e individualista”, diz a psicanalista paulista Andrea Naccache, de formação lacaniana. “Por isso recorremos tanto ao Oriente: para tentar resgatar esse sentimento de integração de corpo, mente e espírito com o universo”, diz ela. Mas o caminho também pode ser outro. “O que nos leva a ultrapassar a circunferência e transcendê-la é o outro. É ele que nos estimula a ultrapassar nossos limites e a fazer essa passagem. É dessa maneira que podemos ir além de tudo o que achamos que somos, ou do que acreditamos que podemos”, diz a psicóloga.

Isso mesmo: a falta nos guia em direção a quem está em nossa volta. Porque é justamente entre as pessoas que está aquela que nos vai impulsionar. Seja um amigo (ou um inimigo…), seja o ser amado, um mestre, um livro escrito por alguém. “Assisti a um filme ontem, Homens de Honra, que conta a historia do primeiro mergulhador negro do Exército americano. Ele teve que superar limites fortes para conseguir fazer isso. E quem o estimulou a vencer essa luta foi o pai”, conta Andrea. “Freud falou da falta como a perda de um objeto de amor primordial. Ele se concentrou na dinâmica do desejo, e em sua possível frustração. Hoje, a psicanálise se orienta para analisar formas de satisfação presentes. E o encontro com o outro nessa dinâmica é fundamental”, diz ela. Não é à toa que num dos poemas mais intensos de Fernando Pessoa (“A Tabacaria”), o simples aceno do dono de uma loja consegue tirar do autor o sofrimento diante do vazio da vida. A salvação é motivada pela ação do outro.

Na metafísica, a resposta é semelhante. É a união com o Divino, ou com o estado primordial de amor e compaixão, que nos vai fazer superar a falta. É isso o que nos diz, por exemplo, Meister Eckhart, o grande místico medieval alemão: “Vede! Este homem permanece numa única e mesma luz com Deus: é por isso que não há nele nem sofrimento nem sucessão, mas uma igual eternidade (…) Ele permanece num agora que, em todo o tempo e sem cessar, é novo”. Para Eckhart, nossa falta primordial é ontológica: é o desejo da alma de se unir a Deus, que, nesse caso, é um outro divino. “Essa semente (na alma) pode estar encoberta ou oculta, mas jamais aniquilada ou extinta. Ela é ardente, brilha, ilumina e queima, e tende sem cessar para Deus.”

Assim, não precisamos de mais nada. Pois a falta primordial deixa de existir. “O sábio não tem mais nada a esperar ou a exigir”, diz o filósofo André Comte-Sponville. “Como não precisa de nada, é inteiramente feliz.” E o escritor francês Matthieu Ricard, em seu livro Felicidade (Editora Palas Athena), complementa a ideia: “Somos responsáveis pela escassez que nos aflige. Não nascemos sábios, nos tornamos”. É a sabedoria, portanto, que nos ajuda a encontrar o bom caminho para transcender aquilo que nos falta.

FONTEAmigos de Freud
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