A Felicidade e a Criatividade

Dentre as 24 Forças do Caráter propostas pela Psicologia Positiva, há seis que dizem respeito ao grupo das virtudes humanas associado ao Saber. Na visão de Martin Seligman, essas forças pessoais podem ser compreendidas como caminhos que nos conduzem à demonstração do saber e ao seu ferramental basilar o conhecimento. Este post discorre sobre a força pessoal Criatividade.  As outras 5 forças do grupo saber são a Curiosidade, o Gosto Pela Aprendizagem, o Critério, a Inteligência Emocional e a Perspectiva.

Poderíamos definir a Criatividade como um grupo de processos mentais por meio dos quais procuramos novas e inéditas formas de ver, entender e fazer as coisas. O cérebro, por exemplo, pode fazer isso buscando padrões que provoquem novas identificações perceptuais. Dito de outra forma, o cérebro pode modificar a maneira como percebemos algo – seja um objeto, emoção, pensamento, situação, etc. – identificando modos de associação entre partes inéditas e/ou já conhecidas de um mesmo processo. Ou seja, Criatividade é a obtenção de novos arranjos de idéias e conceitos já existentes. Quando isso ocorre, estabelecem-se novos sentimentos, novas visões e novas práticas que vão promover a alteração das estruturas anteriormente conhecidas. É por isso que ao sermos criativos conseguimos resolver os problemas de forma incomum, às vezes para nós mesmos apenas quando “criamos” algo que já existe mas não conhecemos; ás vezes para o conjunto da sociedade quando criamos algo que é considerado novo por todo mundo.

A Criatividade, por seu caráter inovador, pode também fazer aparecer resultados de valor estético que se distinguem dos modelos tradicionais. Razão pela qual, a Arte e a Ciência têm sido espaços privilegiados de expressão da criatividade. Por tendermos a identificar a Criatividade com os campos científico e artístico, tem-se a impressão de que a capacidade para criar é uma particularidade de poucos privilegiados. É óbvio que ser um indivíduo criativo em tempo integral depende de fatores inerentes à personalidade do sujeito. Mas a capacidade para elaborar soluções criativas é parte fundamental da organização mental de qualquer pessoa. Uma criança, por exemplo, que ao começar a andar descobre que os móveis podem servir-lhe de apoio para facilitar o deslocamento, realiza um ato criativo. Como a criança que começa a vivenciar o mundo, todos os dias, todos nós, temos a chance de sermos criativos. Se isso não acontece com freqüência é porque as condições para exercer o potencial criativo não estão sendo adequadamente vivenciadas. Se assim é, quais seriam as condições favoráveis à Criatividade?

O psicólogo norte-americano Mihaly Csikszentmihalyi estuda a criatividade há mais de 40 anos. Desde que começou os seus estudos, em 1962, quando defendeu uma tese de doutorado sobre o tema, ele tem se dedicado a responder questões como a que propuz acima e muitas outras. Por conta desse seu envolvimento com uma das Forças do Caráter, a Criatividade, Mihalyi tem sido um dos grandes colaboradores da Psicologia Positiva. A grande contribuição desse psicólogo para os estudos sobre a Felicidade se dá no campo da investigação da experiência de Fluxo(Flow) e da Personalidade Autotélica. Um dos resultados mais interessantes das pesquisas de Mihalyi no campo da criatividade é sobre o perfil das pessoas criativas.

Csikszentmihalyi utiliza três categorias para definir a expressão da criatividade no âmbito pessoal:

1– a pessoa brilhante: é iluminada e expressa pensamentos inusitados, interessantes e estimulantes;

2– a personalidade criativa: refere-se às pessoas de percepção tranqüila e cheias de insight;

3– as pessoas criativas: são aquelas cujos trabalhos têm definição pública. Ou seja, cujas realizações causam  impacto social e transformam os parâmetros culturais.

Assim, na visão do psicólogo, a criatividade é o resultado de relações sistêmicas entre três fatores: o domínio, a área, a pessoa. A combinação desses três fatores origina o processo criativo.  Dependendo do grau de energia mobilizada em cada um dos fatores podemos ter uma pessoa brilhante, uma personalidade criativa ou uma pessoa criativa. A criatividade surge quando a pessoa usa os símbolos de um domínio – a letra, o número, a nota musical, a forma, o conceito, etc. – e tem uma nova idéia que se torna reconhecida pela área apropriada. Logo, a criatividade é a interação entre domínio, área e pessoa. Para que ela se efetive é necessário que ocorra uma conjugação de elementos, tais como oportunidade e perseverança. Existem traços facilitadores no processo criativo:

1 – Predisposição genética. É muito difícil que alguém que não tenha talento musical consiga ser criativo fazendo música. A tendência é que quanto menor o talento maior a propensão para a mera reprodução daquilo que já existe.

2 – Interesse no domínio. Curiosidade e Gosto Pela Aprendizagem são essenciais para o desenvolvimento da Criatividade. Por maior que seja a vocação de alguém para a costura, por exemplo, se não houver a construção de um conhecimento prévio sobre a área, corre-se o risco de “inventar” o drapeado apenas por não saber que ele já foi criado.

3 – Acesso ao domínio. De pouco adiantará ser um gênio matemático se você nasceu e cresceu numa tribo esquimó, sem acesso à escola, a livros ou a qualquer fonte de informação sobre a ciência dos números.

De acordo com os estudos da área, as pessoas criativas parecem ser capazes de expressar todos os atributos do repertório humano, seja do ponto de vista emocional e cognitivo. Ou seja, uma mente criativa não se guia pelo princípio de que alguns atributos humanos são bons e outros maus.  Por exemplo, se você pensa que dedicar-se integralmente ao conhecimento fará de você uma pessoas mais criativa, desista! Sorrir, brincar, não fazer nada…são tão importantes para a criatividade quanto estudar, trabalhar, etc. Cultivar a criatividade exige a capacidade para exercitar os pólos contrários de qualquer experiência humana – nesse aspecto, as descobertas da Psicologia Positiva se aproximam muito da Teoria Junguiana dos opostos.

Ás vezes, o exercício de um desses pólos pode ser dificultado por circunstâncias externas tais como tempo, dinheiro, saúde, etc. Nesse caso, é fundamental estabelecer prioridades, definir o que realmente é necessário e desejado num determinado momento da vida. Se você pensa que trabalhar e ganhar dinheiro é a coisa mais importante da sua vida e, por isso, negligencia o lazer e as relações pessoais. Pare e Pense: o quanto de prazer e satisfação você tem obtido com o trabalho? Provavelmente não tanto quanto você gostaria, e investir todo o seu tempo nele só vai aumentar o seu desgaste físico e emocional, gerar mais frustração…fica difícil ser criativo assim, não?

Em outros momentos, a vivência da diversidade de emoções, sensações e pensamentos que uma experiência pode suscitar pode não ser vivida porque, embora tenhamos consciência de que a experiência é complexa, tendemos a negar nossos sentimentos e desejos contraditórios. Por exemplo, uma mãe que acredita que só será “boa mãe” se abandonar tudo para cuidar dos filhos pode, em muitos momentos, se sentir usurpada, abusada, exaurida, irritada, etc., só por perceber-se limitada em sua expressão  integral como ser humano. Mas como ela acredita que a “boa mãe” é, antes de tudo, uma abnegada, ela provavelmente ocultará para si mesma esses sentimentos negativos. Resultado: com o tempo, ser mãe parecerá a tarefa mais limitadora do mundo e qualquer rasgo de motivação, interesse e gosto pela função se perderá na mesmice e na monotonia…Adeus criatividade!…

Em função disso, dessa observância da alteridade como fator inerente ao processo criativo, é que Csikszentmihalyi propõe dez dimensões da complexidade humana que estariam associadas à criatividade. Se você quer começar a exercitar sua capacidade de criação, preste atenção nessas dez dimensões.

1- Os indivíduos criativos possuem grande quantidade de energia psíquica, mas eles buscam também a tranqüilidade. Eles trabalham longas horas em estado de concentração, mas sabem que as atividades seguidas por preguiça, ócio ou reflexão são importantes para o sucesso do trabalho.

2- Os indivíduos criativos são simultaneamente inteligentes e simples. Ser intelectualmente brilhante pode afetar a criatividade porque a pessoa torna-se defensiva e perde a curiosidade necessária à criação. Brilhantismo intelectual e arrogância tendem a andar juntos, quando em excesso essa combinação pode transformar a pessoa num obtuso, incapaz de abrir-se para novas possibilidades.

3- As pessoas criativas combinam brincadeira e disciplina, responsabilidade e irresponsabilidade. O espírito brincalhão é típico de indivíduos criativos. Mas a brincadeira não vai muito longe sem a sua antítese, a perseverança. Disciplina em excesso cansa a mente, torna as tarefas e as experiências rígidas e anestesia nossa capacidade de fluir com as variações emocionais geradas pela interação com o meio, e que são tão necessárias à criatividade.

4- Os indivíduos criativos alternam entre imaginação e fantasia, pois ambas são necessárias para sentir o presente sem perder o toque do passado. Imaginar é simular possibilidades baseando-se em dados da realidade concreta. Fantasiar é extrapolar o real, é perder-se no campo do impossível. Visualizar uma viagem a outro país, com todos os detalhes, cores, cheiros, etc., é imaginar. Visualizar uma viagem a Saturno, é fantasiar!

5- As pessoas criativas apresentam traços simultâneos de introversão e extroversão. Aqui o conceito criado por Carl Jung para definir traços de personalidade surge como ferramenta comportamental das pessoas criativas, capacitando-as a usar o Critério, por exemplo, nas relações sociais. Ou seja, disponibilizar-se para o contato com outros pode ser muito bom para a troca de idéias e a renovação das emoções. Mas há momentos em que o recolhimento e a solidão são essenciais para o amadurecimento das idéias e a organização das emoções.

6- Os indivíduos criativos são humildes e arrogantes, ambiciosos e altruístas, competitivos e cooperadores. Geralmente eles abnegam do conforto pessoal em prol do sucesso do projeto. Quem não aprende a defender o seu espaço, e a valorizar as próprias competências e habilidades, dificilmente terá a oportunidade para criar ou mesmo para mostrar o seu trabalho. Da mesma forma, quem não sabe reconhecer os talentos alheios, e não se dispõe a compartilhar conquistas coletivas, não encontra respaldo ou suporte para as próprias iniciativas.

7- Os indivíduos criativos geralmente fogem do papel de gênero estereotipado: ou que é visto como sendo próprio do homem ou da mulher. Eles apresentam direção andrógina, ou seja, têm a habilidade de ser ao mesmo tempo agressivos e cuidadosos, sensíveis e rígidos, dominantes e submissos. Equilibrar corpo e mente, razão e emoção, é fundamental para se vivenciar os processos criativos. O mais lógico dos biólogos precisa ter sensibilidade bastante para se emocionar com a visão de uma célula. Similarmente, o mais sensível dos bailarinos precisa ter a força muscular desenvolvida o suficiente para sustentá-lo num belo e elegante sissone.

8- Geralmente as pessoas criativas são rebeldes e independentes. Sem rebeldia não há criação! As grandes conquistas humanas, as inovações e os saltos criativos, dependem daqueles que se recusam a fazer tudo como sempre foi feito e que, além disso, acreditam que podem fazer diferente, mesmo que os outros não concordem ou aceitem. Isso é independência! Se o mundo fosse feito apenas de pessoas dependentes e obedientes, estaríamos todos morando em cavernas e comendo somente raízes até hoje.

9- Muitas pessoas criativas são passionais e objetivas em relação aos seus trabalhos. Sem a paixão logo se perde o interesse, sem ser objetivo  o trabalho perde a credibilidade. Alternar entre a paixão e a objetividade é condição essencial ao processo criativo. A paixão pura e simples tende a produzir dispersão, que é a conseqüência natural do excesso de entusiasmo, já que a percepção fica tomada pelo objeto de interesse e toda a experiência é filtrada por ele. No domínio da paixão não há foco na situação, não há controle sobre o que realmente importa ou não. É a objetividade, o uso doCritério,  que nos ajuda a separar o joio do trigo e assim não disperdiçamos energia à toa.

10- É comum às pessoas criativas a liberdade e a sensibilidade. Assim como experienciar a angústia e  o sofrimento seguidos de grande quantidade de prazer e divertimento.  Esse é um dos pontos essenciais de contato entre a Criatividade e a Felicidade. Apesar do que muitos acreditam, a felicidade não é a ausência de sentimentos negativos. Ser feliz é, antes de tudo, aprender a valorizar os sentimentos e as experiências positivas independentemente dos momentos ruins. Quem consegue fazer isso aprende a ver as muitas nuances da experiência, aprende a ver possibilidades… aprende que as coisas boas precisam ser vivenciadas intensamente quando ocorrem porque elas não são perenes, assim como as coisas ruins também não são.

Não há como negar que a Criatividade promove felicidade, e a felicidade propicia a criatividade. Pois as pessoas criativas desenvolvem um sentido de momento presente, não se lamentam pelo passado, aproveitam a experiência atual e imaginam o futuro a partir das inúmeras possibilidades que existem para criá-lo.

As pessoas felizes não esperam que a felicidade caía do céu, muito menos acreditam que ela já está pronta. As pessoas felizes entendem que a felicidade é a obra de uma vida, construída paulatinamente, dia após dia. Como não está acabada, a felicidade é um projeto pessoal que pode ser refeito, modificado, adaptado, recriado…um processo criativo!

Imagem: “Voando nos Telhados” por Jennifer, em 1x.com

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Angelita Corrêa Scardua
Psicóloga, Mestre e Doutoranda pela USP (SP). Especializada em Desenvolvimento de adultos, na experiência de Felicidade e nos estudos da Psicologia Social.



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