A felicidade e a meia-idade

A meia-idade é uma fase do ciclo vital que se estende, aproximadamente, dos 40 aos 60 anos. A princípio, a meia-idade é um período caracterizado por um movimento interno da pessoa para resumir e reavaliar a própria vida. Mesmo que esses “movimentos” não conduzam a qualquer mudança efetiva. Essa auto-avaliação não se refere apenas à busca por metas, mas também às satisfações interiores. Considerações em torno do que a pessoa conseguiu,e se essas conquistas estão de acordo com os sonhos e as idéias anteriormente  alimentadas tornam-se, então, ponto principal nessa etapa da vida.

As décadas que constituem a meia-idade podem vir a confirmar, ou não, os progressos profissionais, a estabilização das relações afetivas de modo geral e especialmente a conjugal.  Similarmente,  o indivíduo é levado a fazer considerações a respeito das conquistas impetradas na esfera cívica e socioeconômica da vida. Por tudo isso é que pode-se dizer que:

A maturidade é o resultado final da progressão da dependência dos pais (infância), e dos pares (adolescência), para um nível de autonomia relativa (interdependência), com o estabelecimento de relações interdependentes na família, nos diversos grupos sociais e com o cônjuge.

Ou seja, o propósito da meia-idade, como etapa do desenvolvimento psicológico, é o estabelecimento de relações nas quais há influência mútua sem perda da identidade; é a conquista do sentimento de ser uma pessoa individualizada por seus próprios desejos, anseios, valores, ambições e objetivos. Essas, são relações nas quais é clara a idéia de si mesmo e dos outros. Uma clara noção de si mesmo, em contraponto a noção do(s) outro(s), é o que possibilita que na meia idade reconheça-se a relevância do acúmulo de experiências vividas, cujo valor tende a se maximizar quando associada ao auge da capacidade cognitiva característica dessa fase. Todos esses fatores tornam a pessoa mais seletiva, levando-a a escolher cada vez mais as experiências e, progressivamente, a tomar parte nas mais diversas situações motivada por gosto ou interesse pessoal e específico e não por necessidade de aceitação ou afirmação de status.

Para que todo o processo de desenvolvimento adulto, típico da meia-idade, se realize de forma integral e saudável, é necessário que alguns mecanismos psicológicos adaptativos sejam devidamente estruturados. O psiquiatra norte-americano George Vaillant, estudioso do desenvolvimento adulto, alega que esses mecanismos adaptativos – também chamados de mecanismos de defesa –, são indispensáveis para um amadurecimento psicológico saudável.

Segundo Vaillant, os mecanismos adaptativos são comuns aos adultos mentalmente saudáveis, e se tornam mais expressivos com a maturidade. Além disso, a maturidade dos mecanismos de defesa é essencial para uma saúde mental positiva, pois atua como redutor do conflito e da dissonância cognitiva durante mudanças súbitas na realidade interna ou externa das pessoas durante essa fase da vida. Vaillant destaca a relevância de 5 mecanismos de defesa que promovem a adaptabilidade no desenvolvimento adulto, são eles:

Altruísmo: envolve prazer em oferecer aos outros aquilo que se deseja obter.

Sublimação: permite uma resolução indireta de conflitos sem conseqüências adversas ou perdas significativas de prazer, promovendo a capacidade de integrar conteúdos não muito agradáveis por meios criativos.

Supressão: envolve a decisão semiconsciente de postergar a atenção devida a um impulso ou conflito, mantendo-o em mente mas sob controle. Assim, a supressão caracteriza um movimento de assimilação do conflito pelo sujeito, que lhe permite conviver com algo que não pode ser excluído ou solucionado naquele momento, sem que isso o impeça de seguir em frente.

Antecipação: seu uso é sempre voluntário e independente da resolução do conflito, caracterizando a capacidade de manter uma resposta afetiva adequada ao enfrentamento de uma possibilidade desagradável de futuro.

Humor: permite a expressão da emoção sem desconforto individual e sem efeitos desagradáveis para outros, facilitando encarar aquilo que pode ser doloroso ou desagradável.

Aqui Vaillant agrega uma outra dimensão a idéia dos mecanismos de defesa ao trabalhar com a premissa de que: a capacidade em lidar de forma lúdica com algo que é desagradável pode indicar uma atitude madura e saudável diante da vida. Pode-se dizer que essa é, sem dúvida, a contribuição mais positiva da concepção de Vaillant aos mecanismos de defesa. É a partir dessa premissa positiva do desenvolvimento adulto que os estudos de George Vaillant têm contribuido para a investigação da felicidade.

A velha idéia – presente não só no senso comum mas na Medicina e na Psicologia também –, de que não podemos mudar nossas características de personalidade com o passar do tempo vem, cada vez mais, caindo por terra. Nos últimos anos descobertas fundamentais no campo da biologia e das neurosciências estão provando que:

tanto o cérebro como a mente humana podem se rearranjar de maneira extrema. As pessoas podem se reinventar em qualquer estágio da vida.

À luz da Psicologia Positiva, traços negativos de personalidade são, relativamente, fáceis de mudar em qualquer idade. Características como a timidez, a teimosia, a dificuldade de concentração e de relacionamento, o temperamento explosivo, a impaciência, a frieza emotiva e o pessimismo podem, com algum treinamento e aprendizado, ser atenuadas e até vencidas totalmente. E a idade não é um fator inibidor de mudanças mas, essencialmente, um estímulo para ela.

As pesquisas recentes sobre o Desenvolvimento Adulto mostram que grande parte das potencialidades humanas só se manifestam em sua plenitude quando as pessoas atingem um estado de equilíbrio e saúde mental. Estado esse que se efetiva no decorrer do processo transformador da meia-idade. Em inúmeras pesquisas sobre desenvolvimento humano há evidências claras de que, às vezes, basta dar tempo ao tempo para que muitos dos entraves emocionais da juventude e do começo da idade adulta cedam e abram espaço para a capacidade criativa.

Portanto, ao contrário do que temos visto ser exaltado na cultura contemporânea, que cultua a juventude acima de todas as coisas, as pesquisas sobre desenvolvimento da personalidade estão mostrando que, em grande parte, a plena realização da vida humana se dá quando a mocidade cede lugar à maturidade.

Compartilhar
Angelita Corrêa Scardua
Psicóloga, Mestre e Doutoranda pela USP (SP). Especializada em Desenvolvimento de adultos, na experiência de Felicidade e nos estudos da Psicologia Social.



COMENTÁRIOS