A felicidade e o critério

Dentre as 24 Forças do Caráter propostas pela Psicologia Positiva, há seis que, segundo Martin Seligman, dizem respeito ao grupo das virtudes humanas associado ao Saber. Essas seis forças pessoais podem ser compreendidas como caminhos que nos conduzem à demonstração do saber e ao seu ferramental basilar, o conhecimento. Este post especificamente discorre sobre a força pessoal Critério. As outras 5 forças do grupo saber são a Curiosidade, o Gosto Pela Aprendizagem, a Criatividade, a Inteligência Emocional e a Perspectiva

A força Critério está diretamente associada ao desenvolvimento da capacidade de, em qualquer condição, avaliar as informações disponíveis para fazer escolhas. Os estudos sobre felicidade indicam que, dentre os vários fatores importantes para que um indivíduo avalie positivamente a própria vida, o nível de satisfação demonstrado em relação às escolhas que se fez e se faz é essencial.

Nesse sentido, o Critério como “Força do Caráter” assume papel decisivo não apenas na construção do saber e do conhecimento que nos habilitam a fazer escolhas, mas fundamentalmente no favorecimento de uma vida mais feliz. A felicidade advinda do desenvolvimento do Critério como força pessoal, portanto, está diretamente relacionada à capacidade de analisar as questões examinando-as por todos os lados. Psicologicamente falando, tal capacidade seria um aspecto inerente ao fortalecimento do bom caráter, já que conduz a uma postura questionadora frente à tomada de decisões. Isto porque o uso do Critério requer o desenvolvimento do Pensamento Crítico, ou seja, da capacidade de avaliar as situações por prismas diferentes. Esse recurso cognitivo evita conclusões apressadas que, em geral, são fruto de pré-conceitos e estereotipias que nos impedem de considerar pontos de vista distintos dos nossos.

Assim, Critério pode ser entendido como sinônimo de discernimento, pois incorpora a orientação para a realidade objetiva, para a busca de entendimento dos fatos. Essa postura tende a promover uma atitude contrária a que é gerada pelo pensamento maniqueísta, uma vez que este define a priori o que é bom ou mau, certo ou errado. Quando somos criteriosos usamos a Lucidez, um traço saudável tanto do ponto de vista cognitivo quanto emocional, porque nos ajuda a não confundir demasiadamente os próprios desejos e necessidades com os eventos vividos. Distanciar-se da própria perspectiva exige o acolhimento de informações e evidências concretas, sem julgamentos prévios. É isso que caracteriza o Critério, a força que nos permite compreender melhor a dinâmica das motivações que nos levam a agir, sentir e pensar de uma forma ou de outra.

Mas como o Critério poderia ajudar a promover a vivência de Felicidade? Favorecendo a motivação necessária para as mudanças requeridas ao longo da vida. A Lucidez e o Pensamento Crítico característicos da força Critério são as molas propulsoras para a o reconhecimento dos problemas e das oportunidades e, consequentemente, para o acolhimento da necessidade de mudar.  A pessoa que avalia e que analisa – que se baseia nos fatos e não nas inferências e suposições –, abre-se para a possibilidade de reconhecimento do próprio erro, do autoengano e da dúvida. Somente quando somos capazes de reconhecer nossas próprias limitações é que aprendemos a ver também nossas potencialidades. Como a limitação só é percebida em comparação à potencialidade, enxergar àquilo que não está funcionando, seja em nós, nos outros ou no ambiente, favorece a predisposição para a mudança.

Ao mesmo tempo, o Critério nos ajuda a reconhecer as qualidades positivas inerentes a cada situação que vivemos. Usando o pensamento crítico e a lucidez, conseguimos divisar o quanto de ganhos físicos, cognitivos e emocionais obtém-se com as práticas e com os recursos de que dispomos. Isso é possível porque ao sermos criteriosos nos damos conta do que podemos realizar com o que temos e do que precisamos desenvolver para melhorar. Para algumas pessoas, o Critério é uma força inerente à própria personalidade, é comum percebermos que há indivíduos mais criteriosos do que outros. Essa diferença entre pessoas quanto ao uso ou não do Critério pode ter origens diversas: culturais, familiares e até mesmo associadas a fatores genéticos. O fato, contudo, é que a Psicologia Positiva advoga que todos podem desenvolver o Critério como força pessoal, independentemente de sermos naturalmente criteriosos ou não. O desenvolvimento e/ou fortalecimento do Critério pode ser propiciado por atitudes como as seguintes:

– Antes de tudo, o bom uso do Critério refere-se ao escrutínio racional e objetivo da informação, tanto a serviço do próprio bem quanto do bem dos outros. Logo, uma coisa que pode nos ajudar a sermos mais lúcidos psicologicamente é tentar ser mais objetivo em relação ao que sentimos e pensamos sobre os outros e sobre nós mesmos. Fazer listas das qualidades e defeitos, seja dos outros ou dos próprios, é um começo para refletir sobre o quão verdadeiro é o julgamento que andamos fazendo das pessoas e de nós mesmos. Para favorecer a imparcialidade, ajuda pedir a outros que façam listas desse tipo sobre as mesmas pessoas que estamos fazendo, incluindo nós mesmos, e depois compará-las.

– Julgamentos equivocados podem destruir relações. A origem disso é a frustração que, em geral, surge porque alimentamos expectativas irreais em relação aos outros. Ou seja, esperamos do outro aquilo que ele não pode, ou não quer, nos dar. Quando somos criteriosos corre-se menor risco de nos frustrarmos, pois aprendemos a não esperar o que não será dado. Um exercício de lucidez para evitar o autoengano nas relações, por exemplo, é o diálogo. Conversar abertamente sobre as expectativas que cada um tem sobre a relação – e não importa se é uma relação erótico-afetiva, de trabalho, familiar ou de amizade – oferece subsídios para uma avaliação pautada mais no real do que na fantasia.

– A experiência real pode tanto destruir sonhos quanto construir experiências muito mais significativas do que a fantasia. A nossa própria vivência pode auxiliar, e muito, na construção de uma perspectiva mais criteriosa das coisas. Como? Ajudando-nos a nos colocarmos no lugar do outro! A Empatia – o recurso psicológico que nos habilita a nos imaginarmos no lugar de outra pessoa – só é possível porque somos capazes de recorrer à nossa experiência pessoal, à nossa memória, para imaginar o que o outro sente numa determinada situação. Quase sempre nos esquecemos de fazer isso e tendemos a julgar os outros sem nos lembrarmos de como pensamos, sentimos e agimos em situações semelhantes a que o outro está vivendo. Usar o próprio repertório vivencial para se colocar no lugar do outro pode, então, fortalecer o Critério

Desse modo, o Critério como Força do Caráter propicia Felicidade na medida em que fortalece nossa autoconfiança, nos ajudando a confiar mais na nossa capacidade de avaliar e de escolher, o que gera menos frustração. Igualmente, a vivência de Felicidade é potencializada quando somos criteriosos porque tendemos a ser mais tolerantes e justos e, com isso, contribuímos para o nosso bem-estar e daqueles com quem nos relacionamos. Assim, o Critério nos ajuda a comparar as informações e as experiências adquiridas para nos preparar para o momento de fazer escolhas.

Quanto mais realistas forem as avaliações que fazemos do que vivemos, mais nossas escolhas tendem a corresponder às nossas reais necessidades materiais, cognitivas e emocionais. Quando nossas escolhas correspondem às nossas necessidades abrimos espaço para que os potenciais latentes se manifestem, uma vez que eles são indicados por aquilo que realmente desejamos. Quando manifestamos nossos potenciais adicionamos satisfação à vida, pois descobrimos recursos internos que não imaginávamos ter. Quando estamos satisfeitos com a vida aprendemos a reconhecer o valor das escolhas que fazemos, pois adquirimos a habilidade de perceber os prós e os contras de toda experiência vivida. Quando reconhecemos a importância das nossas escolhas nos responsabilizamos por elas, pois deixamos de atribuir aos eventos externos o poder indiscutível de nos conduzir. Quando nos responsabilizamos pelas escolhas que fazemos ganhamos autonomia, pois reconhecemos o papel do nosso caráter individual na forma como conduzimos a própria vida. Quando conquistamos autonomia nos tornamos um pouco mais seguros quanto ao fato de que dispomos dos recursos de que precisamos para vivenciar a felicidade, pois ser feliz tem muito de ser fiel a si mesmo.

Compartilhar
Angelita Corrêa Scardua
Psicóloga, Mestre e Doutoranda pela USP (SP). Especializada em Desenvolvimento de adultos, na experiência de Felicidade e nos estudos da Psicologia Social.



COMENTÁRIOS