A leitura como terapia existencial

Por Gabriel Perissé

Dos problemas psíquicos que afligem o ser humano deste século a depressão é o mais freqüentemente citado e o mais difundido. Dados disponíveis indicam que, hoje, 15% da população mundial sofre de depressão, e há suposições de que 30% de todos os habitantes do planeta têm ou terão pelo menos uma vez na vida um período depressivo.

Afora os casos comprovadamente biológicos e até hereditários, nem todos os deprimidos o são por esses motivos. A depressão seria, para muitas pessoas saudáveis, um problema filosófico, ético e estético, um cansaço de ser si mesmo, um cansaço de estar vivo. Não é uma hipótese de todo absurda que o fenômeno depressivo deva-se muitas vezes a frustrações existenciais mal assimiladas, como a de não conseguir comprar um carro, ter sido reprovado num exame, perder o emprego, perder os pais, perder a capacidade de fazer amigos, carregar culpas anos a fio etc.

A solidão, o desamor, a ignorância, a desconfiança, o medo, o ressentimento são poderosos causadores de depressão, “doença”, nestes casos, que nenhum antidepressivo pode curar. Numa sociedade regida pelo individualismo de massa, em que todos se sentem coletivamente sozinhos, amontoados nos prédios, elevadores, ônibus, ruas e shoppings, nada mais lógico do que cair na depressão, deixar de ver a beleza da vida, cansar-se de si mesmo, da humanidade, de tudo.

Sem subestimar as razões estritamente físico-químicas que atuam sobre nossos corpos e almas, muitas das nossas patologias psíquicas nascem da pura insuficiência de humanidade. Do puro desinteresse por valores humanizadores. O remédio, aqui, não é químico, é metafísico. E literário.

A anedonia existencial, essa indiferença perante tudo, é um dos sintomas típicos da depressão. Nada desperta o prazer de viver para quem viver é um desprazer, nem mesmo os mais requintados convites do hedonismo consumista que orienta hoje a mentalidade ocidental. A propósito, o hedonista é um sério candidato à anedonia, uma vez que a busca obcecada, ávida e insaciável de prazeres acaba por insensibilizá-lo para os pequenos e saudáveis prazeres do dia-a-dia. O hedonista quer conquistar o mare magnum, em que, afinal, morre afogado. A expressão “morrer de rir” revela aqui o seu lado trágico.

A insônia e a hipersônia são outros dois sintomas do mesmo problema depressivo, e muitas vezes mal interpretados como simples ansiedade ou mera preguiça. Não conseguir dormir ou dormir demais denunciam uma só realidade. O sono, momento em que “morremos” parcialmente para “ressuscitar” no dia seguinte, torna-se problemático. Ou não aceitamos “morrer” ou, por outro lado, não queremos “ressuscitar”. Uma e outra atitude se encontram na incapacidade de acolher o ritmo da vida. A noite perde seu caráter de repouso: não dormimos. O dia perde seu caráter de luta: ficamos dormindo.

A irritabilidade é outro desses sintomas depressivos que os médicos por vezes interpretam mal, atribuindo-lhe causas de ordem puramente orgânica. Aborrecimentos sistemáticos, mau humor crônico, reações de raiva desproporcionais, enfim, trata-se de um quadro de enfezamento que, estando certa a etimologia, remete a um acúmulo interno de matéria podre, de “fezes espirituais” que não foram naturalmente expelidas e provocam um estado de ânimo e, a longo prazo, de desânimo, sobretudo para a própria pessoa que não sabe eliminar de sua vida o que deve ser eliminado. Falta-lhe aquele discernimento para assimilar as proteínas e expulsar as toxinas, assimilar a sabedoria, os valores, os símbolos, e expulsar os desgostos, as decepções e os equívocos.

Estar deprimido é estar comprimido por uma visão desumana de si mesmo e dos outros. Faltam-nos reservas de liberdade e de criatividade para não apenas suportar a vida, mas recriá-la; não apenas suportar-nos a nós mesmos, mas superar-nos. Neste sentido, o grande Prozac da vida (mesmo que precisemos tomá-lo, sob receita médica) é o abrir-se para a vida mesma, no que ela tem de mais estimulante. O ser humano é, na sua constituição íntima, um excêntrico, um ser que se realiza quando foge do seu centro, na sua obsessão por ser si mesmo, e se projeta amorosa e inteligentemente para o mundo. O narcisismo poderia ajudar a entender alguns diagnósticos de supostas depressões.

A escritora Lígia Fagundes Teles disse certa vez, numa de suas entrevistas, que se no Brasil houvesse mais livrarias haveria menos farmácias. Esta hipérbole tem algo, ou muito, de verdade. No Brasil e no mundo, se incentivássemos mais a reflexão ética, a sensibilidade poética, a compreensão filosófica, talvez precisássemos menos de remédios. Talvez usufruíssemos de uma excelente saúde, digamos, anímica.

A leitura lenta (mas não sonolenta) dos melhores autores, dos verdadeiros líderes da humanidade (poetas e filósofos sobretudo), pode atuar como terapia existencial. Atua, sim, como poderoso antídoto para uma vida envenenada pelo tédio que, em tempos de crise econômica, se acentua, já que o dinheiro, queiramos ou não, adia o momento do encontro entre o comprador de bugigangas e a vida tal como ela é.

Sócrates, por exemplo, sempre foi um grande “médico” existencial, cujas palavras e atitudes, mesmo que “fantasiadas”, ou, se preferirmos, “teatralizadas” por seu genial discípulo, Platão, curaram muitas mentes. A leitura de seus diálogos provoca lucidez, caminho de uma clarificação dos problemas decorrentes de estar vivo, e clarificação — o que é decisivo — das soluções criativas que estes problemas demandam. A morte — problema-raiz de todas as nossas angústias — recebe de Sócrates um tratamento inteligente, surpreendente, que, para muitos pós-cristãos já destituídos da esperança pós-túmulo, fascina, aproximando-os de uma compreensão realista e mística do destino humano. É mais do que comovedor, é terapêutico ouvir Sócrates dialogando com os que o condenam. Pois se os juízes arrogantes lhe dizem: “Sócrates, você foi condenado à morte”, o réu, sereno, responde: “Vocês também!”

A ironia socrática não tinha por base o ódio ou o despeito. Nascia de uma visão realista do mundo. O bom-humor autêntico é a capacidade de transcender o lado angustiante dos problemas e ter uma ampla visão do jogo. Esta ironia não-amarga, não-agressiva, liberta. Liberta-nos da ânsia de vencer, da vontade sem freios de ter, do desejo absurdo de dominar. A única maneira de não perder a sanidade mental quando perdemos o controle das coisas, é sorrir, característica de quem pratica o fair-play existencial.

Mas para sorrir, superando o desespero, é preciso ser criativo.

O pensador espanhol Alfonso López Quintás tem escrito diversos livros e artigos sobre a crise cultural e espiritual do homem contemporâneo, e como é preciso ser criativo para superar essa crise. A solidão e o gregarismo, a rotina profissional esgotante e a sensação de inutilidade, a nostalgia de um passado “melhor” e o sonho de um futuro irrealizável, o descontrole emotivo e a apatia, a evasão pelas drogas ou pelo entretenimento vulgar são alguns dos elementos que, aos poucos, configuram um quadro de agitação inútil e fadiga insuportável. Somente uma vida criativa pode curar-nos (sem aspas!). Se falta a uma pessoa esse impulso criador, ela “se entrega a cada una de las acciones que vienen exigidas por diversos momentos de la vida sin cuidarse de sobrevolarlas a fin de conferirles un sentido profundo”.[1]

Sobrevoar a si mesmo, poder ver-se do alto. O realismo não é a constatação crua e pessimista das coisas mas uma compreensão altaneira (jamais altiva) de quem somos e do que nos cerca.

Ler e entender uma obra literária, um grande ensaio filosófico, as páginas de um diário escritas com sangue, enfim, entrar em contato com a linguagem humana em sua clave mais lúcida eleva o nosso olhar. E é com essa visão distanciada que se enxergam os contornos, os limites, a profundidade e a espessura das coisas.

Ler um livro é uma metáfora para a leitura da vida. Quando Guimarães Rosa se referia aos “analfabetos para as entrelinhas” referia-se, sem dúvida, àqueles leitores cegos para o sentido profundo do texto, embora cientes do significado das palavras. Significado é aquilo que as palavras (e os fatos) representam dentro das convenções humanas. Sentido é aquela verdade que emerge e requer uma abertura intelectual inusitada, entusiasmante.

A poeta norte-americana Emily Dickinson no seu poema I`m Nobody! expressa de um modo ímpar a liberdade de ser:

Eu não sou Ninguém! E tu, quem és?
Tu és Ninguém Também?
Então formamos um par? Mas… cuidado!
Não fales, porque se souberem… Que estrago!

Como é chato ser Alguém!
Ser tão famoso como um Sapo
Que passa o mês de junho todo a coaxar seu próprio nome
Diante de um embasbacado Charco![2]

A compreensão realista de nada valeria se não fosse a linguagem certeira, irônica, humilde, simples e profunda. O significado das palavras “ninguém”, “alguém”, “sapo”, “charco” são apenas um primeiro degrau que, para os que realmente sabem ler, leva a novos sentidos. Ser Alguém, aqui, é não ser ninguém. Ser Ninguém é ter consciência da real situação do ser humano neste Charco onde o Sapo “canta” seu nome com uma cega exaltação de si mesmo. A rima Frog-Bog é o momento maior do poema, relacionando som (desagradável) e sentido (inusitado). A reprodução sonora do coaxar do personagem tão importante, tão inchado, denuncia, com um sorriso compassivo, livre das depressões, a inglória soberba humana.

1. Vértigo y éxtasis – bases para una vida creativa. Madrid, Asociación para el Progreso de las Ciencias Humanas, 1992, pág. 52.
2.
I´m Nobody! Who are you?
Are you – Nobody – Too?
Then there´s a pair of us?
Don´t tell! they´d advertise -you know!

How dreary – to be – Somebody!
How public – like a Frog –
To tell one´s name – the livelong June –
To an admiring Bog!
(O texto original e outra tradução podem ser encontrados em Fifty poems (cinqüenta poemas). Rio de Janeiro, Imago/Alumni, 1999, pág. 47.)

TEXTO ORIGINAL DE HOTTOPOS

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