Por Rodrigo Fernando Pereira

“As pessoas têm dificuldade em abrir mão do seu sofrimento. Por causa do medo do desconhecido, elas preferem o sofrimento familiar.”
Thich Nhat Hanh

Um dos temas mais frequentes nas filosofias orientais é a necessidade de abrir mão, de nos desapegar, de deixar ir, de forma que tudo flua mais naturalmente. Apesar de ser uma mensagem simples e direta, pode ser difícil, para nós do ocidente, entender a razão e o benefício de uma atitude dessas. Afinal de contas, na nossa cultura, somos estimulados ao contrário: a ter, a possuir, a nos apegar — especialmente ao material — e a conquistar. Parece que se abrirmos mão, nos tornaremos passivos, apáticos e distantes daquilo que desejamos. Só que pode ser justamente ao contrário, especialmente se encararmos isso numa perspectiva psicológica.

Uma dos principais objetivos da psicologia clínica é desenvolver a flexibilidade psicológica. Quanto mais flexíveis somos, melhor conseguimos navegar pelas tormentas a que estamos sujeitos ao longo da nossa existência. E a flexibilidade se reflete muito na nossa capacidade de abrir mão. Ao contrário do que parece, abrir mão pode tornar nossa vida e nossa experiência muito mais rica.

Imagine que você, ao longo de um caminho, vá encontrando uma série de pedras. Elas aparecem em diferentes formatos, cores e tamanhos. Você vai escolhendo algumas dessas pedras, até que enche seus bolsos, suas mãos, carregando o máximo delas que consegue. Depois de um tempo, fica difícil andar por causa do peso. Você cansa muito mais fácil, e não raramente passa muito tempo no mesmo lugar, apenas juntando forças para conseguir prosseguir, carregando todas as pedras. Como suas mãos e bolsos já estão cheios, você não pode mais pegar nenhuma pedra que encontra.

As pedras são aquilo que escolhemos levar conosco durante nosso trajeto. Elas podem ser bem concretas, como pessoas, trabalhos, bens materiais, e também podem ser intangíveis, como lembranças, regras, expectativas, desejos. Se não conseguimos nunca soltá-las, podemos ficar cada vez mais paralisados, vivendo com pesar e nos sentindo sobrecarregados. Percebemos isso quando nos dizemos coisas como:

  • Gostaria muito de trabalhar com o que gosto, mas não consigo deixar meu emprego;
  • Gostaria de parar de beber, mas preciso manter uma imagem legal para meus amigos;
  • Gostaria de ser uma pessoa diferente, mas não posso desviar do que minha família espera de mim;
  • Gostaria de aproveitar melhor o presente, mas não consigo deixar de lembrar como minha vida já foi melhor;
  • Gostaria de não brigar com meu colega, mas não posso deixar de impor minhas ideias;
  • Gostaria de mudar de cidade, mas não quero perder tudo que já investi aqui;
  • Gostaria de sair desse relacionamento que não dá certo, mas será que meu namorado(a) não pode mudar se eu insistir mais um pouco?

Podemos ver que aquilo a que nos apegamos e que nos impede de viver melhor muitas vezes só existe na nossa cabeça: é a nossa autoimagem, as nossas expectativas, aquilo que imaginamos que os outros esperam de nós, uma lembrança do passado ou uma esperança em algo futuro. Por medo da perda, da insegurança e do desconhecido, nos condenamos a uma vida frustrante e rígida. E, muitas vezes, esses pesos que carregamos nem foram escolhidos por nós mesmos: foram colocados sobre nossas costas por outros — não raro tentando aliviar o próprio fardo.

Abrir mão não significa desistir, mas sim nos libertar dos pesos que nos imobilizam, especialmente aqueles que não escolhemos e que não são reais. É deixar de lado as lembranças, as expectativas, a preocupação com a própria imagem, e tudo aquilo que vivemos que não está de acordo com o caminho que queremos traçar, como um emprego ou um relacionamento. Esvaziando os bolsos, podemos andar mais livremente, ir mais longe e caminhar com leveza. Continuaremos carregando algumas pedras, mas que sejam as pedras preciosas que dão sentido à nossa vida, aquelas que carregamos com alegria.

Imagem de capa: Shutterstock/Africa Studio

TEXTO ORIGINAL DE VIDA BOA

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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