Amélie Poulain e a covardia de amar

Por Luadia Mabel

“O mundo parece tão morto, que Amélie prefere sonhar até ter idade para partir.”

E sonha, mil vezes mais, depois de ter idade pra enquadrar a vida, e depois de ter experimentado a solidão por todos os dias de muitos modos e cores diferentes, em enfrentar a si mesma. O bom é que a vida é de muitos modos, e Amélie nem sempre sabe levá-la na seriedade dos adultos, ou na cara sem graça de quem acha que cresceu, e faz questão de fingir que esqueceu o prazer que nos dá enfiar os dedos em um saco grande de grãos, ou quebrar a cobertura do crème brûlée.

É de uma ingenuidade estampada, e de um dom espetacular de enfeitar o mundo inteiro. Como é ser mulher e ter os olhos expressivos de uma menina, se deliciar aos prazeres que não precisam ser só de uma criança, entregar-se às fantasias que deixamos de criar por pura falta de imaginação?

A gente pergunta por que perdeu o poder de ser criativo, e não sabe mais a graça que tem o minúsculo; Pergunta por que agora só vê o óbvio, e juntar pedras pra depois jogá-las no rio já parece uma grande besteira. Mas besteira é ser Amélie, ou ser você?

E vendo de perto, Amélie é diferente mas tem muito de nós. Dentre as semelhanças, o medo disfarçado, e confuso, de amar. Há o mistério que é ser a própria essência, e o tremor nas pernas que sempre nos dá o contato com os outros, o amor perdido que sempre sentimos por alguém, mesmo que a gente não conheça.

E há o espetáculo da covardia. Três coisas que cabem, mas não se situam bem na nossa personagem: a solidão, o medo, e a vontade incontrolável de ser totalmente a si mesma.

O rostinho feito de poses de menina descobre, por um homem, o amor. E são tantas as ideias que lhe passam, é tanto o medo de enfrentá-lo… Na cabecinha de Amélie se passa tanta coisa que mal sobra tempo pra entender o mais simples, mal dá tempo de perceber o mais óbvio.

“– Ela está apaixonada por ele?

– Sim.

–Acho que está na hora de ela assumir o risco.

–Justamente, ela está pensando em um estratagema…

–Ela gosta disso. De estratagemas.

–Sim.

–Na verdade, ela é um pouco covarde. Acho que é por isso que não consigo captar o seu olhar.”

Mas, que se há de dizer? Diante do medo que todos já tivemos perante as caras do amor, e diante do pouquinho que somos comparados ao sentimento que cresce diante dos nossos olhos, mesmo que às vezes, desesperados, a gente tente frear, eu não posso mentir. O arrepio é válido, e a covardia também. É natural e nos ultrapassa naturalmente, sem que a gente perceba de imediato. Mas permanecer covarde torna-se uma escolha, uma das mais difíceis com que a gente pode esbarrar.

“Se Amélie prefere viver no sonho e ser uma moça introvertida, é direito dela; Pois estragar a própria vida é um direito inalienável!”.

Estragar a própria vida é um direito quase sarcástico, e é nosso. Abdicar de um romance, dar passos atrás, recuar por medo é um caminho que podemos fazer.

Em qualquer situação, por qualquer motivo, temos a escolha de continuar presos em nós mesmos pra evitar bater de frente com o mundo que nos espera lá fora. Mas caso queira avançar os pés no precipício que são os sentimentos desconhecidos, e se quiser entender o porquê de as reviravoltas no estômago serem tão perturbadoras, escute:

“Minha queria Amélie, você não tem ossos de vidro. Pode suportar os baques da vida. Se deixar passar essa chance, com o tempo seu coração ficará tão seco e quebradiço quanto meu esqueleto.

Então, vá em frente, pelo amor de Deus.”

TEXTO ORIGINAL DE OBVIOUS

 






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