Anorexia nervosa e desejo de nada

A anorexia nervosa é uma condição já bem conhecida e amplamente discutida. A incidência de transtornos alimentares anoréxicos é alta e seu grau de periculosidade maior ainda – trata-se do tipo de síndrome comportamental que mais faz vítimas fatais. Agora bem, para além do fenômeno, de que maneira a anorexia nervosa se constitui estruturalmente?

A despeito de ser um quadro clínico de fácil diagnóstico, talvez seja interessante definir melhor suas condições. Considera-se como anorexia nervosa: (i) uma perda de peso deliberada; (ii) a manutenção de no mínimo 15% a menos do peso ideal; (iii) abstenção de comida, seguida de vômitos, exercícios em excesso ou uso de medicamentos para emagrecer; (iv) uma distorção na percepção da imagem do próprio corpo.

Tendo isso em vista, poder-se-ia perguntar: de que maneira a economia psíquica de alguém se movimenta em direção à anorexia? Aqui, interessa sobretudo a “distorção na percepção da imagem do próprio corpo”. Isso porque, desde a perspectiva estrutural, esse é justamente o ponto mais crítico.

A formação da imagem corporal é um evento determinante na vida de qualquer indivíduo. Ocorre geralmente na primeira infância, por meio de uma imagem especular responsável pela constituição da identidade do eu e da subjetividade do sujeito. A imagem, que reflete como um espelho, geralmente possui como origem primária o olhar da mãe, que se torna, ao mesmo tempo, objeto de desejo da criança.

Quando esse evento de apropriação da imagem encontra um obstáculo, ou quando há um afastamento abrupto e mal mediado entre a mãe e a criança, duas são as consequências imediatas: de um lado, a imagem do próprio corpo não corresponde à identidade do eu, bem como há uma falha na subjetividade; de outro, muda-se a relação do sujeito com o objeto e com o próprio desejo.

Por esse motivo, a imagem que uma pessoa anoréxica possui de si não corresponde com seu reflexo no espelho – ela sempre acha que está mais gorda do que realmente está. Ademais, diante do objeto barrado, a anorexia surge como modo de esvaziar o desejo – há o “desejo de nada”.

Com isso, entram em jogo também as demandas da cultura. Como a subjetividade na anorexia se encontra desarmoniosa, sua relação com o meio social também se desalinha. Diante do modelo de “corpo ideal” sustentado pela cultura, a anorexia nervosa emerge como mecanismo de defesa. Os resultados, todos conhecemos muito bem.

A despeito da extensa discussão, a anorexia nervosa ainda é um problema sério, que exige cuidados sistemáticos. O deslocamento do quadro consiste justamente no trabalho de “alimentar o desejo”, para que o sujeito “ganhe corpo” e se distancie dos perigos envoltos nesse tipo de condição. Ao fim e ao cabo, a anorexia nervosa ainda aponta para um questionamento autocrítico urgente: além de pensarmos com mais seriedade sobre o problema, não estaria também na hora de romper com alguns ideais e refletir sobre aquilo que sustentamos culturalmente a respeito do corpo?

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Luiz Fernando Fontes-Teixeira
Luiz Fernando Fontes-Teixeira é psicanalista e filósofo. Interessa-se pelo estudo das diferenças e pela crítica da cultura contemporânea.



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