A ansiedade pode virar uma ameaça constante e paralisante. É hora de pedir ajuda

Por Cristina Nabuco

“A ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja.”

A definição da escritora e roteirista Adriana Falcão, no livro Mania de Explicação, vai no ponto. Ansiedade é a preocupação com o que está por vir, o frio na barriga e o receio diante de situações percebidas como ameaçadoras.

“Ela aciona a produção de hormônios que nos suprem de energia física e mental para enfrentar uma apresentação no trabalho, uma competição esportiva ou uma situação de risco (como um incêndio em casa), da qual precisamos fugir”, explica o psiquiatra Ricardo Torresan, colaborador do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Unesp, em Botucatu (SP).

Logo, diferentemente do que se imagina, a ansiedade é benéfica. “A natureza nos dotou desse mecanismo para aumentar as chances de sobrevivência em um ambiente hostil”, diz o psicólogo Armando Ribeiro, de São Paulo, especialista no assunto.

“Usamos o lado bom da ansiedade quando vemos as dificuldades como desafios e canalizamos uma força extra – pensamento mais ágil, músculos mobilizados – para sair da acomodação e perseguir os objetivos”, afirma Ribeiro.

Em vez de feras e tragédias, a ameaça mais comum hoje pode ser a demissão; portanto, é normal ficar apreensiva diante dessa possibilidade. Vira um problema se a ansiedade se torna uma presença constante e atrapalha o desenrolar da rotina.

“É como um alarme de carro que dispara toda hora sem que alguém tente arrombá-lo”, compara o psicólogo. “O dispositivo quebrado dá sinais de perigo mesmo quando não há risco algum.” No ansioso, as preocupações dominam o pensamento, o que resulta em medo – e ele consome tanta energia que é impossível sair da inércia e realizar o que precisa ser feito.

Não dorme bem, não come nem produz direito. A autoestima cai, aumentam a angústia e a frustração, a resistência é derrubada e fica mais susceptível a infecções, distúrbios cardiovasculares e depressão. Ele não está sozinho. Um dado anunciado em janeiro pela Organização Mundial da Saúde alerta que 33% da população do planeta sofre de ansiedade.

As várias faces

“Diversos transtornos têm a ansiedade como denominador comum, embora ela se manifeste de formas distintas”, diz a psiquiatra Andrea Mazzoleni, da Beneficência Portuguesa, em São Paulo.

Na fobia social, o medo da avaliação alheia é tão grande que a pessoa nem consegue ir a um restaurante. Nas fobias específicas, estar diante do objeto temido (avião, aranha, lugar fechado) desencadeia a crise. A síndrome do pânico caracteriza-se por episódios súbitos de aflição, com sintomas intensos que levam o paciente a crer que está enfartando ou à beira da morte.

Depois de assaltos, sequestros e guerras, a lembrança recorrente – o estresse pós-traumático – faz a ansiedade se misturar à reação de sobressalto. Já no transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), pensamentos trágicos e insistentes geram temor intenso. Para aliviá-lo, a pessoa cria rituais, como se eles pudessem sanar o problema. Exemplos: com medo de doença, ela gasta um sabonete por banho. Ou checa incessantemente se as portas e janelas estão bem trancadas antes de sair de casa – a ponto de perder compromissos.

No transtorno de ansiedade generalizada, qualquer expectativa e preocupação viram fonte de grande sofrimento.

O que faz a ansiedade chegar a níveis máximos é um conjunto de fatores físicos (genéticos, hormonais) e ambientais (muitas demandas para resolver, excesso de informação e convivência com ansiosos que veem perigo em tudo). Ela atinge mais a mulher – para cada homem, há duas ou três, o que leva à suspeita de que hormônios femininos tenham peso em sua incidência. Junte-se a isso a cobrança.

“A mulher é mais vulnerável por ter que dar conta da casa e do trabalho”, afirma Mazzoleni.

A sociedade competitiva, que exige 24 horas de conectividade, põe mais carga em todos. Quem não se desliga do trabalho e não dorme direito por causa dele é supervalorizado.

O custo é alto: “Os ultrarresponsáveis e comprometidos demoram a perceber que gastam energia além do necessário; acostumam-se a viver sob tensão”, alerta o psiquiatra Felipe Corchs, professor colaborador do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Como se não bastasse, crescem as evidências de que a ansiedade crônica muda a percepção da realidade.

Um estudo do Instituto Weizmann de Ciências, de Israel, publicado em março na revista americana Current Biology, mostrou que pessoas diagnosticadas com esses transtornos têm dificuldade de distinguir estímulos seguros e neutros dos ameaçadores.

Os pesquisadores relacionaram isso a mudanças na química cerebral, em especial à habilidade de estabelecer conexões entre os neurônios, o que afeta a capacidade de entender a realidade de forma objetiva. Concluíram que o ansioso tende a generalizar as experiências emocionais, enxergando-as sempre pelo lado catastrófico.

Treinamento do foco

Com base no achado, criou-se um método para treinar o cérebro a ignorar o estímulo ameaçador e focar em outro mais leve ou neutro. “Ele tem sido aplicado em fobias específicas em crianças e TOC em adultos, com bons resultados”, diz Torresan.

Por enquanto, tem indicação apenas para quem não responde ao tratamento convencional. Mas, ele acredita, se o sucesso for confirmado, abre a possibilidade de atendimento online e de criação de aplicativos auxiliares.

Cientistas da Universidade de Nova York já testam um game que promete reduzir a ansiedade se jogado por 25 minutos diários. Tirar férias, receber massagem e praticar exercícios traz melhora, admite Corchs: “Mas, se houver um transtorno, o alívio é só temporário”.

Afinal, como alerta Ribeiro: “Não se conserta vazamento tirando água com balde; é preciso achar o cano furado”. O psicólogo destaca a importância de modificar pensamentos que levam às crises. O ansioso tem a percepção de que tudo é urgente, os problemas ultrapassam sua capacidade e repete: “Não consigo, vai dar errado, está tudo perdido”.

Ribeiro afirma: “Esses pensamentos automáticos, repetidos como mantras, pilham a mente, minam a autoconfiança e trazem sensação de derrota”.

A psicoterapia cognitiva comportamental ajuda a tomar ciência dos pensamentos distorcidos e se libertar. “Ela tem se mostrado tão eficaz quanto medicamento e, em certos casos, superior, como nas fobias específicas”, afirma Torresan.
“Os melhores resultados, porém, são obtidos ao associar psicoterapia a medicação.”

Outro benefício da psicoterapia é ajudar a rever as próprias escolhas. “As pessoas não percebem que desrespeitam seus limites”, relata Mazzoleni. “Programam 50 tarefas para o dia e querem ter disposição de realizar todas dormindo só quatro horas.” Quando o quadro é grave e a pessoa fica agressiva, os medicamentos são indispensáveis.

“Porque, nesse ponto, o terapeuta não consegue uma abertura para trabalhar”, explica Ribeiro. Os indicados são os antidepressivos (fluoxetina, paroxetina, tetralina, escitalopram e citalopram), que aumentam a serotonina, neurotransmissor ligado ao bem-estar.

Os resultados podem demorar 12 semanas a aparecer. Em certos casos, são prescritos benzodiazepínicos, os calmantes tarja preta, para alívio da insônia. Meios para se livrar do tormento existem. Cabe ao ansioso deixar de bancar o forte, de dizer: “Eu aguento”. E pedir ajuda.

Imagem de capa: Shutterstock/ l i g h t p o e t

TEXTO ORIGINAL DE BRASILPOST

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