Apesar da dor, o trauma pode nos transformar

Contusões graves e fraturas expostas não ocorrem apenas na estrutura musculoesquelética do corpo humano, tal como tratam os ortopedistas e os traumatologistas. Adiante disso, existem vivências de forte impacto emocional, nas quais uma situação inesperada se estendeu para além do limite suportável. A elas dá-se o nome de ‘trauma psíquico’, suscitado no exato momento em que a pessoa se sentiu: afetivamente aniquilada, desprovidamente abandonada e desesperadamente solitária.
Nessas circunstâncias tão dolorosas surge o conflito traumático decorrente das experiências violentas ao psiquismo. “Acontecimentos ligados a fortes impressões nunca passam sem deixar marcas na pessoa […]. Ficam marcas que não raro atuam pela vida afora. Estas vivências podem exercer influência determinante sobre todo o desenvolvimento mental da pessoa” (JUNG, 2011, p. 184), desde que não verbalizadas, não acompanhadas psicologicamente, não providas em psicoterapia e não assimiladas por nós mesmos.
Por detrás de cada trauma, há o afeto estancado, a dor silenciada, o medo potencializado, a re-experiência dilacerante, os pensamentos violentos, sob a forma de uma ferida instalada quando não se dispunha de recursos psíquicos para absorver aquela terrível experiência. A extensão das sequelas emocionais do trauma dependerá dos dispositivos subjetivos para acolhê-lo no início, suportá-lo por um espaço de tempo e integrá-lo à personalidade posteriormente. Ainda assim, o grande “paradoxo do trauma é que ele tem o poder de destruir quanto o de transformar” (LEVINE, 2012, p. 47).
Em termos semânticos, a palavra trauma vem do grego, cujo significado está no substantivo ‘ferida’ ou no verbo ‘furar’ (KAPPEL et al, 2011, p. 218). Em termos psíquicos sabe-se que, o trauma “ou é uma comoção definida, única e intensa, ou então ele é um complexo de ideias e emoções, comparável a uma ferida psíquica” (JUNG, 1986, p. 12). Mesmo considerados “manifestações vitais da própria psique” (JUNG, 1971, p. 22), os complexos traumáticos podem ultrapassar o controle da consciência e a qualquer momento são “capazes de cruzar ou contrariar as intenções do indivíduo” (JUNG, 1973 apud RAMOS, 1994, p.54).


Em outras palavras, isso quer dizer que o trauma pode ganhar autonomia sobre a consciência da pessoa traumatizada, desencadeando uma série de sintomas, conforme o aparecimento de pensamentos intrusivos e involuntários, de lembranças angustiantes e recorrentes, de sofrimento psíquico desestruturante frente às ocorrências que se parecem com o fato traumático (Cf. DSM-5, 2014, p. 307-322). A pessoa traumatizada tende a permanecer naquele lugar e naquele momento em que a experiência psicológica violenta se deu. Obviamente, não se pode generalizar. Mas, é possível que seus dias sejam vivenciados como uma permanente repetição do trauma.
Isso acontece porque, em nível inconsciente, não há o tempo cronológico. O presente, o passado e o futuro só existem para a consciência. Se não for psiquicamente elaborado o trauma continuará a ser revivido no inconsciente, como se estivesse ocorrendo neste exato momento. Os sonhos e os flashbacks dão testemunho de que o evento traumático continua se reproduzindo. Neles “vemos uma repetição […] numa tentativa de assimilar a cena traumática” (LIMA, 2013, p. 215). Do ponto de vista psíquico, a própria repetição é vista como a insistência do inconsciente para curar as feridas deixadas pelo trauma.
Para um acontecimento traumatizante não é necessário apenas um episódio insuportável no mundo externo, como, por exemplo, catástrofes naturais, violação pelo estupro, acidentes automobilísticos ou combates de guerra, assaltos, furtos e suicídios (Cf. BORGES et al, 2010, p. 87). Ele pode derivar de uma situação bastante subjetiva que lhe dê sustentação no mundo interno (Cf. JUNG, 2011, p. 185). Igualmente, pode haver condições específicas nas quais o choque emocional não vem de uma única vez, mas, ao contrário, é vivenciado de modo prolongado, seguido por anos afins, como se fosse um conta-gotas, mas de um impacto brutal na personalidade.
Sendo assim, o abandono de um pai, a negligência de uma mãe, a tristeza profunda e duradoura pela morte de um ente querido, o abuso sexual infantil, a violência doméstica, a experiência do sequestro e da tortura são acontecimentos pavorosos que podem se configurar em um trauma. O fato é que, em cada trauma, também se esconde um sistema psíquico de autocuidado. Para se proteger da dor que dilacera a alma, a pessoa tende a regredir a um retorno satisfatório e confortável, sobretudo, recolhido da infância e, com isso, fica estacionada no desenvolvimento psíquico e sem forças para enfrentar as dificuldades da vida.


Logo, para não ter que repetir aquela dolorosa experiência, a pessoa se isola socialmente. Algo que costuma ocorrer, com acentuada frequência em crianças e adolescentes traumatizados. Muitos deles se afastam dos demais colegas da escola, tornam-se mais irritados na convivência familiar, permanecendo encarcerados naquele conflito. Se para os adultos já é difícil elaborar o trauma, imagine para os menores, cujo psiquismo ainda está em desenvolvimento. Em algum momento do trauma repentino ou prolongado eles tornaram-se “prematuramente autossuficientes […] romperam as relações genuínas que poderiam ter tido com os pais durante seus anos de desenvolvimento e, como alternativa, cuidaram de si mesmos num envoltório de fantasia” (KALSCHED, 2014, n. p.).
Nas ocorrências mais graves, os traumas aparecem em conformidade com as seguintes categorias de adoecimento psíquico: 1. Transtorno do Apego Reativo (TAR)1, 2. Transtorno de Interação Social Desinibida (TISD)2, 3. Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT)3, 4. Transtorno do Estresse Agudo (TEA)4. Nesses casos mais intensos, em consonância com a necessidade do processo terapêutico, a atenção precisa ser multidisciplinar e interprofissional, associando o acompanhamento psicológico ao tratamento psiquiátrico.
Independente de acompanhar crianças, adolescentes ou adultos: cabe ao psicólogo o comprometimento com a pessoa que narra o seu sofrimento psíquico, seja pelo brincar, seja pelo verbalizar, pelo chorar ou o reviver. Desde que devidamente amparado por um profissional suficientemente bom, apto suportar aquela experiência traumática com o paciente, é possível consolidar a cicatriz onde antes permanecia a ferida aberta. “Como é sabido, o ser humano tem necessidade de contar repetidamente as experiências fortes que vivencia até elas perderem seu peso afetivo. Aquilo que enche o coração transborda pela boca” (JUNG, 1986, p. 13).

1. O transtorno de apego reativo é caracterizado por um padrão de comportamentos de vínculo extremamente perturbados e inapropriados em termos do desenvolvimento infantil, nos quais a criança rara ou minimamente recorre de preferência a uma figura de apego para obter conforto, apoio, proteção e carinho. A característica essencial é a ausência ou um vínculo grosseiramente não desenvolvido entre a criança e os supostos cuidadores adultos (DSM-5, 2014, p. 307).
2. O transtorno de interação social desinibida é um padrão de comportamento que envolve uma conduta excessivamente familiar e culturalmente inapropriada com pessoas estranhas. Esse comportamento excessivamente familiar viola os limites sociais da cultura (DSM-5, 2014, p. 310).
3. A característica essencial do transtorno de estresse pós-traumático é o desenvolvimento de sintomas característicos após a exposição a um ou mais eventos traumáticos […] (p. ex., medo, desespero, horror). O evento traumático pode ser revivenciado de diversas maneiras. É comum que a pessoa tenha lembranças recorrentes, involuntárias e intrusivas. Estímulos associados ao trauma são evitados de maneira persistente […]. O indivíduo costuma fazer esforços deliberados para evitar pensamentos, lembranças, sentimentos ou diálogos a respeito do evento traumático (DSM-5, 2014, p. 315-316).
4. A característica essencial do transtorno de estresse agudo é o desenvolvimento de sintomas típicos que duram de três dias a um mês após a exposição a um ou mais eventos traumáticos (sintomas de: intrusão, dissociativos, evitação, excitação e humor negativo) (DSM-5, 2014, p. 321-322)

REFERÊNCIAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5: manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2014, p. 307-322.

BORGES, J. L. et al. Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT) na infância e na adolescência: prevalência, diagnóstico e prevenção. In: Avaliação Psicológica. Itatiba, v. 9, n. 1, p. 87-98, jul./dez., 2010.

KALSCHED, D. O mundo interior do trauma: defesas arquetípicas do espírito pessoal. São Paulo: Paulus, 2014, 408 p.

KAPPEL, D. H. et al. O desenvolvimento da personalidade e a violência sexual. In: AZAMBUJA, M. R. F.; FERREIRA, M. H. M. Violência sexual contra crianças e adolescentes. Porto Alegre: Artmed, 2011, p. 216-218.

JUNG, C. G. Freud e a Psicanálise. Petrópolis: Vozes, 2011, p. 184-185.

_____. Ab-reação, análise dos sonhos, transferência. Petrópolis: Vozes, 1986, p. 16.

_____. A natureza da psique. Tradução de Pe. Dom Mateus Ramalho Rocha, OSB. 5ª ed. Petrópolis: Vozes, 1971, p. 22.

LEVINE, P. A. Uma voz sem palavras: como o corpo libera o trauma e restaura o bem-estar. São Paulo: Summus Editorial, 2012, p. 47.

LIMA, E. P. Psicologia Profunda: textos de conhecimento e vida. São Paulo: Clube dos Autores, 2013, p. 215.

RAMOS, D. G. A psique do corpo: a dimensão simbólica da doença. São Paulo: Summus Editorial, 1994, p. 54.

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Paulo Crespolini
Psicólogo - CRP 06/132391 Possui graduação, com licenciatura plena, em Filosofia, pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (2004), atuando nos seguintes temas: história da filosofia moderna, movimento iluminista, crise eclesiológica e razão científica. Com formação em Teologia (2009), pelo Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás, tem se dedicado às pesquisas sobre a concepção materialista-dialética da história e, ao mesmo tempo, sobre Ética e Filosofia Política. Ainda na Teologia obteve resultados significativos no estudo da Filosofia da Religião em Andrés Torres Queiruga e na instituição metafísica da atividade religiosa. Na Psicologia (2015) a pesquisa esteve centrada em duas áreas concomitantes, ambas fundamentadas na analítica de Carl Gustav Jung, a saber: a psicopatologia do religioso constelada em uma polaridade devoradora do divino: fenômeno associado e possível suscitador de transtornos mentais.



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