As mulheres como fundadoras da psicanálise

Por Marilena Chauí

Como surgiu a “mulher freudiana”? Com essa indagação – e partindo da declaração de Freud de que não se nasce mulher nem homem, mas nos tornamos um ou outro –, Maria Rita Kehl propõe em Deslocamentos do feminino, que chega às livrarias em setembro, pela Boitempo, desconstruir a figura universal e abstrata d’A Mulher, isto é, um conjunto de imagens e representações que tentam produzir uma identidade para todas as mulheres, sem alcançar nenhuma delas em sua singularidade.

Nessa investigação, Maria Rita propõe o conceito de deslocamento, que permite acompanhar as mudanças nos conceitos de feminino e de feminilidade (bem como de masculino e masculinidade) conforme se desloca a posição das mulheres com a formação da sociedade burguesa, na passagem da Revolução Francesa para a sociedade urbana industrial do século XIX – quando nasce também a psicanálise.

Deslocamento possui dupla significação: é objetivo, isto é, determinado pelas condições históricas da modernidade, e subjetivo, isto é, forma o conjunto de representações singulares que as mulheres passam a ter de si mesmas. O núcleo deste livro se encontra nas análises que levam ao surgimento da figura das mulheres como histéricas.

Por isso, deslocamento possui um terceiro sentido, apresentado de maneira direta e singela pela autora: as mulheres como fundadoras da psicanálise, juntamente com Freud. Sentido gigantesco, como logo se vê, pois as mulheres não foram objetos passivos, mas sujeitos que tornaram a psicanálise possível. Anuncia-se, aqui, a subversão teórica e prática proposta por Maria Rita Kehl.

Quatro questões principais formam a teia cerrada da interrogação de Maria Rita, que as enfrenta percorrendo com erudição, argúcia, elegância e firmeza a história social, a linguística, a literatura, a teoria literária, a psicanálise freudiana e lacaniana e a filosofia.

Primeira questão: como e por que se dá o deslocamento da posição feminina na modernidade? Para respondê-la, Maria Rita examina a posição das mulheres durante a Revolução Francesa, isto é, sua presença no espaço público, graças à declaração dos direitos à igualdade e à liberdade, e o temor burguês diante dessa aparição, levando em seguida à recusa desses direitos com a construção de uma “natureza feminina”, imagem tensa da mulher como naturalmente sensual e desmedida e, ao mesmo tempo, naturalmente sensível e amorosa, destinada ao casamento (por amor, é claro) e à maternidade, funções que só realizará se for domesticada (no duplo sentido da palavra), isto é, se for obrigada a passar daquilo que ela é àquilo que ela deve ser. Instinto desgovernado nas mocinhas e frigidez nas mulheres casadas: eis o imaginário burguês. E o contraponto das vozes femininas singulares que, na literatura e nos “escritos sobre si”, se ergueram contra isso.

A segunda questão, como consequência, indaga: por que Emma Bovary é uma das expressões mais fortes dessa mulher (freudiana)? Atacando com ironia impiedosa a mediocridade, a estupidez e a ignorância do senso comum burguês, Flaubert constrói Emma como a menina provinciana educada num convento e alimentada (como as jovens da época) pelos romances “para moças”, que incendeiam sua imaginação na busca do amor e da aventura e que viverá, já adulta, entre homens medíocres, pomposos e inescrupulosos.

A narrativa acompanha os deslocamentos sucessivos da personagem, que, sem cessar, só pode inventar personagens para si mesma: adolescente mística, esposa virtuosa, adúltera – primeiro como amante seduzida e, depois, como amante sedutora e experiente –, insatisfeita e vazia, ela se torna consumista voraz (impedida de ser, acredita realizar-se pelo ter) e, finalmente, suicida.

Madame Bovary se desloca de uma posição passiva a uma ativa, porém sempre na posição histérica, isto é, “sua completa dependência em relação ao outro – no caso, um homem; mais ainda, o homem da relação amorosa”. Mesmo quando passa da posição passiva à ativa, se, por um lado “é capaz de manejar o falo”, por outro “não é capaz de reconhecer que o faz”. É falada pelo discurso do Outro sem alçar-se à posição de sujeito. Fracassa sempre.

Donde a terceira questão: qual a relação entre a cura analítica e a ética? Se Freud está certo de que se trata de fazer com que “onde era o id seja o eu” e se Lacan tem razão ao afirmar que “eu sou onde não penso/eu penso onde não sou”, como a ética será possível? Indaga Maria Rita: como “furar o discurso do Outro”?

Como tornar-se sujeito falante e não falado? Como tomar o próprio destino em nossas mãos? A distinção lacaniana entre o real, o imaginário e o simbólico abre caminho para a criação de respostas, em paralelo à desmontagem do imaginário burguês com sua glorificação abstrata do livre-arbítrio e do dever, gênese da culpa, da neurose e da impossibilidade da vida ética.

Essa distinção lacaniana é uma das chaves para a quarta questão: por que Freud permaneceu cego para suas descobertas sobre o feminino, ele que foi capaz de escutar as falas e narrativas de mulheres que jamais haviam sido ouvidas e que, com ele, fundaram a psicanálise? Resposta: porque se deteve no real (biológico) e no imaginário (as representações), sem passar ao simbólico, mesmo em suas obras de metapsicologia e sobre a cultura.

Freud se refere ao feminino como mistério e enigma, conserva a imagem vitoriana da mulher dependente e doméstica quando tinha tudo para superá-la, mantendo-se “ignorante a respeito do que ele mesmo não queria saber, embora já tivesse revelado ao resto do mundo: a diferença fundamental entre homens e mulheres é tão mínima que não há mistério sobre o ‘outro’ sexo a que um cavalheiro não pudesse responder indagando a si próprio. O que fez Freud, aliás, mas, como bom neurótico, não podia saber o que estava fazendo”. Sou onde não penso, penso onde não sou…

TEXTO ORIGINAL DE CARTA CAPITAL

 

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