Por Bruna Troia Pitelli

Teorias evolucionistas defendem que respostas que preservam e garantam a perpetuação da espécie foram selecionadas ao longo do tempo. De acordo com a antropóloga Helen Fisher, respondentes filogeneticamente selecionados, intitulados pela comunidade verbal como paixão, bem como comportamentos que favoreçam aproximação do casal, aumentam a probabilidade de manter homem e mulher juntos, tempo suficiente para a reprodução.
Visto que o investimento é alto para ambas as partes, seja pelo tempo de gestação/amamentação, seja no investimento de recursos para garantir a sobrevivência da prole, recursos como o ciúme foram selecionados como uma tentativa de manter o casal junto e aumentar as chances de sucesso na tarefa em comum.
O ciúme consiste em “um estado que é despertado por uma ameaça percebida para uma relação ou posição valorizada e motiva comportamento apontado para se contrapor à ameaça”( Daly, Wilson &Weghorst, apud Buss, 2000). Olhar para o ciúme sob a perspectiva da Análise do Comportamento é, necessariamente, considerar não apenas os sentimentos e pensamentos que uma situação de ameaça e/ou possível perda evocam no indivíduo, mas também os operantes envolvidos nas contingências que abarcam tais variáveis.
O ciúme é, segundo Menezes & Castro (2001), “um sentimento que emerge em uma situação sinalizadora de possível perda de um estímulo reforçador para outro indivíduo, podendo envolver a emissão de respostas coercitivas que visam evitar esta perda e a produção de consequências reforçadoras e/ou punitivas para o comportamento dos indivíduos envolvidos em uma manifestação de ciúme” (p. 20).
Além das teorias que abarcam variáveis fisiológicas e o caráter filogenético do sentir ciúme, é importante considerar as demais variáveis envolvidas: condições motivacionais (como o estado de privação de reforçadores na relação), o comportamento do parceiro (estímulo aversivo e/ou pré-aversivo) que evocou comportamentos (públicos e/ou privados) de ciúme, bem como as consequências que esses comportamentos geram. Estas podem aumentar a probabilidade de que comportamentos ciumentos sejam emitidos novamente em condições semelhantes.
Uma pessoa que demonstra ciúme pode ter seu comportamento reforçado positivamente quando seu parceiro emite comportamentos verbais vocais de afirmação dos seus sentimentos (amor, paixão, etc.) pelo indivíduo enciumado:“Ah que bonitinho, está com ciúme!”ou“Amor, não se preocupe, você é a mulher da minha vida!” Também através de demonstrações não vocais de afeto como abraço, beijo, carinho e/ou proximidade corporal. Além disso, comportamentos do parceiro que sinalizem diminuição de uma possível ameaça de perda de reforçadores (namorada deixa de sair com as amigas para ficar com o namorado, o namorado para de olhar para uma moça que lhe chamou atenção, etc.) aumentam a probabilidade de que o parceiro (a) se comporte “de forma ciumenta” em ocasiões semelhantes.
Porém, o comportamento de demonstrar ciúme também pode ser fortalecido quando o indivíduo, diante de um estímulo que adquiriu a função de estímulo pré-aversivo, sinalizando ameaça se comporta de forma a eliminar e/ou amenizar a possível ameaça: ligar para conferir onde o namorado está (visto que o namorado ter saído de casa pode “significar” estar fazendo algo errado, por exemplo).
Desta forma, sejam estímulos “reais e/ou imaginários”, as consequências produzidas pelos comportamentos de demonstrar ciúme (amenizando ou eliminando uma condição aversiva e/ou produzindo reforçadores positivos) aumentam a probabilidade de tais comportamentos repetirem-se e aumentarem de frequência, sejam eles públicos ou privados.
O comportamento “ciumento” tem mais chances de ser reforçado no começo da relação, quando os parceiros tendem a ser mais pacientes e reforçadores um com o outro. A posteriormente, podem ser punidos e/ou reforçados intermitentemente, o que pode favorecera emissão de comportamentos“ ciumentos”.
Uma questão importante é avaliar as variáveis em operação: sim, de fato um indivíduo pode estar sensível a qualquer estímulo que, para ele, sinalize ameaça, fruto de uma história de contingências, na qual, tais estímulos adquiriram função de pré-aversivos. No entanto, o indivíduo que se comporta de forma ciumenta pode estar respondendo a contingências que , de fato, favorecem que ele sinta-se e comporte-se dessa forma. Por isso não há uma explicação e/ou fórmula única para lidar com o ciúme. Diante disso, torna-se importante avaliar as consequências globais que evocam e mantém o “ciúme” entre os envolvidos e as consequências a médio e longo prazo que o sentimento e os comportamentos públicos do ciumento estão trazendo para ele, para seu parceiro e para o casal. Essa avaliação deve ser feita com o foco na função que esses comportamentos adquiriram neste contexto e não no que o indivíduo faz diante de contingências geradoras de ciúme.São questões como essas que levam o analista do comportamento a avaliar contingências e manipular variáveis, quando necessário, na tentativa de promover uma relação mais saudável para o indivíduo bem como para o casal.
Imagem de capa: Shutterstock/Lukovskii Andrei
TEXTO ORIGINAL DE COMPORTE-SE

Bibliografia consultada:

ALTAFIM, E.R.P, et al. (2009). Seleção de Parceiros: diferenças entre gêneros em diferentes contextos. Psicol. Argum., Curitiba, vol. 27, n. 57, pp. 117-129.

ALMEIDA, T. (2009). Ciúme: o inferno do amor possessivo – uma análise sob a perspectiva da tríplice contingência. Disponível em: http://www.artigonal.com/psicoterapia-artigos/ciume-o-inferno-do-amor-possessivo-uma-analise-sob-a-perspectiva-da-triplice-contingencia-735905.html. Acessado em 07/05/2012.

ANDERY, M. A., SÉRIO, T.M. Respostas e eventos subsequentes: contingência e contiguidade. Texto elaborado para uso exclusivo dos alunos do Curso de Especialização do Instituto de Terapia por Contingências de Reforçamento (Campinas, SP).

COSTA, N. (2005). Contribuições da psicologia evolutiva e da análise do comportamento acerca do ciúme. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, vol.7, n.1, pp. 05-14.

DEL PRETTE, G. (2010). Breve análise comportamental do ciúmes. Disponível em: http://www.blogdagi.com/2010/03/ciumes-e-controle-de-estimulos.html. Acessado em 07/05/2012

GUILHARDI, H. J. Caso Renata. Texto elaborado para uso dos alunos do curso de especialização em TCR, 2011.

GUILHARDI, H.J. Tudo se deve às consequências. Disponível em: http://www.terapiaporcontingencias.com.br/pdf/helio/tudo_consequencias.pdf. Acessado em 10/06/2012

SOUZA, D. G de (2001). O que é contingência. Em: R.A. Banaco. Sobre Comportamento e Cognição. ESETec: Santo André,.

SKINNER. B. F. O papel do meio ambiente.In: Contingências do Reforço. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Ed. Abril. Traduzido do original ingles Contingences of Reinforcement, New Jersey, Prentice Hall, 1969. Cap I, pp 9-27.

Compartilhar

RECOMENDAMOS




Psicologias do Brasil
Informações e dicas sobre Psicologia nos seus vários campos de atuação.

COMENTÁRIOS