Autismo: Afinal, qual a causa? Tem cura?

Por Juliana Fialho

São perguntas tão fundamentais, tão básicas… mas, infelizmente, ainda sem respostas… Saber a causa de uma doença ou transtorno é o primeiro passo para tentar buscar a cura ou, pelo menos, um tratamento medicamentoso realmente eficaz e pontual. É preciso saber onde está o problema, para poder ataca-lo, solucioná-lo ou para, ao menos, concentrar os estudos e pesquisas em um único caminho. O problema é justamente este, não se sabe, ainda, a causa do autismo.

A comunidade científica já consegue afirmar que o Transtorno do Espectro do Autismo apresenta uma herdabilidade muito alta, afinal, estudos feitos com irmãos e gêmeos monozigóticos mostram maior probabilidade de ocorrência em irmãos do que na população comum e muito maior probabilidade de ocorrência em gêmeos monozigóticos. Atualmente, existe um consenso entre pesquisadores de que 60% a 70% da causa do autismo é genética e 30% a 40% é decorrente de danos ao Sistema Nervoso Central ocorridos na fase pré-natal ou perinatal.

Ou seja, a causa seria um combinado de causas genéticas e ambientais. Mas ainda estamos longe de identificar quais genes são afetados e que variáveis ambientais contribuem para a determinação do transtorno. Parece não existir um único gene que determina o autismo, e sim uma interação entre múltiplos genes. Afinal, não é encontrado um padrão entre os mapeamentos genéticos de crianças com autismo, algumas apresentam alterações que não são identificadas em outras e, algumas sequer apresentam alterações nos exames genéticos.

Pelo menos, hoje já podemos afirmar que a origem do autismo é parte genética e que as alterações são neurológicas. Estudos que comprovam isso combateram de vez as antigas hipóteses de que o autismo era causado pelo relacionamento do bebê com mães frias e sem afetividade. Hoje se sabe, com toda certeza e com dados de pesquisas sérias, que essa hipótese não é verdadeira. E quem atua com essas famílias diariamente sabe o quanto essas mães são afetivas, carinhosas e dedicadas integralmente aos seus filhos.

Uma das pesquisas mais importantes dentre aquelas que comprovam a origem genética e neurológica do autismo é o estudo liderado pelo pós-doutor em neurociência e células-tronco do Instituto Salk de Pesquisas Biológicas (EUA) e professor da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia em San Diego, Alysson Muotri, que é brasileiro. Neste estudo, publicado na revista científica internacional “Cell” em novembro de 2010, os cientistas consertaram um “neurônio autista” em laboratório. Primeiramente a equipe de Muotri estudou neurônios de pessoas com Síndrome de Rett, um tipo de autismo cujos defeitos genéticos são mais claros e facilmente identificáveis.

Os pesquisadores compararam os neurônios de pessoas com Síndtome de Rett a neurônios de pessoas com desenvolvimento típico e constataram que os “neurônios autistas” possuem corpo celular e dendritos menores do que “neurônios típicos” e, por isso, as sinapses cerebrais não acontecem com total eficácia, o que explicaria os atrasos no desenvolvimento. Depois, os pesquisadores utilizaram dois medicamentos que concertaram este defeito nos “neurônios autistas”, ou seja, após o uso desta medicação eles voltaram a funcionar normalmente.

Os pesquisadores enfatizam que ainda falta muito para recuperar um cérebro inteiro afetado, o que seria muito mais complexo. Uma barreira enfrentada por esta frente de pesquisa é que ambos os medicamentos utilizados são tóxicos para humanos e não conseguem chegar ao cérebro porque são filtrados pelo organismo. Por isso, essas drogas teriam que ser alteradas quimicamente. Embora ainda tenha muito o que se investigar, este estudo foi um marco importante na busca de causas e cura para o autismo, porque comprovou a origem neurológica, mostrou que existe uma alteração neurológica confirmada (o neurônio do autista é diferente) e que esta pode ser concertada.

Em outubro de 2012 um estudo suíço do Biozentrum da Universidade de Basileia, coordenado por Stephane Baudouin e publicado na Science, identificou que cérebros de crianças com autismo apresentam uma produção exagerada de um receptor neuronal, o glutamato, o que impede o desenvolvimento normal do cérebro a longo prazo e dificulta a aprendizagem. O estudo observou este defeito na transmissão de sinais sinápticos em roedores que interfere com a função e a plasticidade dos circuitos neuronais.

Segundo os pesquisadores, estas falhas no desenvolvimento do circuito neuronal são reversíveis, o que poderia ser um caminho para a cura. Foram identificadas mais de 300 mutações relacionadas ao risco da doença e um destes genes foi de especial importância para os investigadores: o neuroligin-3, que desempenha papel importante na formação das sinapses cerebrais (comunicação entre os neurônios).

Ao reativarem a produção de neuroligin-3 nos ratos as células nervosas voltaram a produzir glutamato em níveis normais e o defeito detectado na transmissão de sinais sinápticos desapareceu. Este foi mais um passo importante na confirmação da origem genética e neurológica do transtorno e da busca por formas de combater os defeitos neurológicos.

Enquanto não chegamos lá, buscamos a melhora da qualidade de vida destas crianças e suas famílias por meio de intervenções terapêuticas que já possuem eficácia comprovada. Se ainda não podemos falar em cura, já podemos falar em tratamentos com resultados excelentes que, em poucos casos (menos de 10%), levam à perda do diagnóstico. Isso não significa cura, significa que, uma criança inicialmente diagnosticada com autismo, após os primeiros anos de intervenção, passa pela avaliação de um novo médico (neurologista ou psiquiatra) e este não fecha o diagnóstico como o primeiro fechou há anos atrás.

Uma equipe da Universidade de Connecticut (Fein et al., 2013) recrutou 34 pessoas diagnosticadas com autismo antes dos 5 anos e que, posteriormente, reverteram os sintomas, que iam de moderados a graves. Durante a pesquisa, eles tinham entre 8 e 21 anos e passaram por intensivos testes, junto de outros 34 participantes sem autismo.

Os autores identificaram como características que aumentam a chance deste resultado: a) diagnóstico e intervenção precoces (antes dos 3 anos de idade); b) dificuldades sociais mais brandas, por exemplo, imitar movimentos e sons (balbucios) desde o diagnóstico; e c) tratamento intensivo e com participação de familiares e escola. Os autores enfatizam que pode haver casos que cumpram estes três requisitos e, mesmo assim, não atingem tais resultados excelentes, afinal, apenas uma pequena parcela dos autistas (menos de 10%) consegue sair do diagnóstico e ainda não sabemos exatamente porque os demais não conseguem.

Enquanto as equipes de pesquisas neurológicas e genéticas avançam na velocidade que conseguem, tendo em vista o baixo financiamento para esta área de estudos e as dificuldades éticas enfrentadas para a testagem de medicação em humanos, cabe a nós, familiares e profissionais da área, buscar garantir cada vez mais diagnósticos e inícios de tratamentos precoces e intervenções intensivas com a máxima participação possível de familiares e escolas.

TEXTO ORIGINAL DE COMPORTE-SE

Imagem de capa: Shutterstock/mary981

Referências:

Baudouin, S. J., Gaudias, J., Gerharz, S., Hatstatt, L., Zhou, K., Punnakkal, P., Tanaka, K. F., Spooren, W., Hen, R., De Zeeuw, C. I., Vogt, K., Scheiffele, P. (2012). Shared Synaptic Pathophysiology in Syndromic and Nonsyndromic Rodent Models of Autism. Science 5, Vol. 338 no. 6103, pp. 128-132, DOI: 10.1126/science.1224159.

Fein, D., Barton, M., Eigsti, I. M., Kelley, E., Naigles, L., Schultz, R. T., Stevens, M., Helt, M., Orinstein, A., Rosenthal, M., Troyb, E. & Tyson, K. (2013). Optimal outcome in individuals with a history of autism. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 54 (2), 195–205

Marchetto, M. C. N., Carromeu, C., Acab, A., Yu, D., Yeo, G. W., Mu, Y., Chen, G, Gage, F. H. & Muotri, A. R. (2010). A Model for Neural Development and Treatment of Rett Syndrome Using Human Induced Pluripotent Stem Cells. Cell, 143, 527–539.

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