Carta ao meu abusador…

O abuso sexual é um tema que choca. É um ato praticamente desumano que traz feridas profundas na vida da vítima. O texto abaixo é um relato emocionante de uma mulher que foi abusada sexualmente na sua infância. Ela fala sobre as consequências emocionais, como isto a afetou e como enxerga a sua vida hoje.

“Minha vida não deveria ser este peso que ela é para mim. Eu deveria conseguir rir com naturalidade e acordar todos os dias querendo viver. Eu deveria olhar os homens na rua e não sentir medo e tão pouco me preocupar com a minha integridade física quando saio  tarde do trabalho se serei atacada. Eu deveria conseguir dormir sem ter pesadelos. Ou se tivesse , eles seriam tão esporádicos e irreais que quando eu acordasse eu riria e não pensaria que foi  mas uma forte lembrança do passado. Mas você estragou tudo.

Meus relacionamentos deveriam ser saudáveis e felizes. Eu deveria conseguir amar e ser amada , sem ter medo de ser abusada novamente. Eu não deveria ter medo de me entregar e nem precisaria fingir que o sexo é bom ou prazeroso. Mas as lembranças não saem da minha cabeça. Eu deveria conhecer meu corpo e não ter vergonha de me olhar no espelho ou até mesmo de me tocar. Mas você me machucou.

Minha infância deveria ter sido recheada de alegrias, joelhos ralados e bonecas. Eu deveria não sentir tanta culpa. Aliás, eu  não deveria sentir culpa alguma. Eu deveria entender que eu fui vítima, que eu era uma criança, e que o adulto era você.  Eu deveria ter sido acolhida quando contei para minha família. Vocês não deveriam ter me pedido para esquecer o que aconteceu, porque de verdade, esquecer é o que eu menos consigo fazer. Vocês marcaram a minha vida.

Meu futuro deveria ser feito de sonhos e planos. Eu deveria pelo menos conseguir sonhar e fazer planos. Mas ao invés disto, eu me boicoto sempre, por que acho que não mereço ser feliz. Eu deveria viver e não apenas sobreviver. Eu deveria querer que exista o amanhã, e não pensar todos os dias, como seria bom eu nunca ter nascido. Eu deveria ter um presente e não ficar presa no passado. Mas as feridas parecem me dominar minha mente, minhas emoções, minha alma. Você maculou o meu futuro.

Minhas emoções deveriam ser saudáveis. Eu não deveria ter problema para dormir e nem vontade de me matar. Eu não deveria ter depressão. Eu deveria ser sincera com os meus amigos, tentar me abrir mais para as pessoas. Eu deveria confiar nas pessoas. Eu não deveria ficar tanto tempo em casa, debaixo das cobertas, trancada no meu quarto com medo. Eu não deveria beber para esquecer a dor que insiste em não ser esquecida. Eu deveria conseguir esquecer. Você me estuprou.

Eu deveria conhecer o que é sexo adulta e não quando criança. Você não deveria ter me ameaçado. Eu não sabia reagir. Eu deveria ter passado a infância brincando, e não me escondendo debaixo da cama com medo de você. Você não deveria ter me falado que tínhamos um caso e me feito sentir culpada. Eu não poderia ter um caso com sete anos de idade, até por que eu nem sabia o que era “um caso”. Você deveria ter me defendido e não me feito sua mulher por anos quando eu nem era uma mulher.

Minha vida deveria ter sido diferente. Mas ela ainda não acabou. Você arruinou quase tudo em mim, mas adivinha, você não conseguiu. Estou me tratando, cuidando de mim, fazendo terapia, ganhando forças para me reerguer. E quando eu me reerguer, você vai querer nunca ter me tocado, por que como dizem, “o que não te destrói te torna mais forte”.

Você me machucou, abusou sexualmente de mim durante anos, me feriu, me aprisionou neste ciclo de dor, mas preste atenção no que eu vou dizer : VOCÊ NÃO ME DESTRUIU ! EU ESTOU VIVA !”

 

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Debora Mendes de Oliveira
CRP: 06/123470. Psicóloga clínica (UNIP 2014), com ênfase psicanalítica, com experiência em atendimento voltado para abuso sexual, transtornos psiquiátricos tais como depressão e ansiedade, compulsão por internet e compulsão alimentar. Nas horas vagas é escritora por diversão.



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