Cego de amor?

As histórias infantis, os contos de fadas, as fábulas trazem consigo a ideia de RECIPROCIDADE, e de que o amor só será amor quando compartilhado. Nada de errado até aí, o problema é que essas histórias pulam etapas: elas não falam da paixão, e é aí que confundimos as nossas relações e acabamos também pulando etapas.


Sabemos que o amor corresponde a uma troca de afetividade, e que ocorre sempre no aqui-e-agora, entendendo as nossas limitações e as do outro e sendo empático.


Entretanto, ao embarcarmos numa relação, o primeiro sentimento que surge é a paixão. O amor faz parte da próxima etapa. Bem, a paixão faz com que enxerguemos no outro aspectos que gostaríamos de ter em nós mesmos, fazendo com que supervalorizemos o objeto de desejo. Ou seja, diminuímos o nosso ego em prol de um enaltecimento do ego do outro. Casos de submissão se aplicam nos casos em que a paixão se transforma em obsessão, quando o senso de self pessoal se anula perante a força que foi dada ao ego do outro. Mas bem, isso é tema para uma outra postagem.


Diante da paixão ficamos completamente envolvidos. No livro: “O carrasco do amor”, o Dr. Irvin Yalom, relata a fala de uma paciente ao explicar como se sentia diante da pessoa amada: “Era uma experiência extracorpórea. Eu não tinha peso. Era como se eu não estivesse lá, ou pelo menos a parte de mim que me fere e me empurra para baixo. Eu simplesmente parava de pensar e de me preocupar comigo. Eu me tornava um nós.” 

A partir desse sentimento forte e avassalador, diversas ilusões se criam. Porém, como as ilusões ocorrem de forma inconsciente (a partir da própria história de vida e dos traumas pessoais), a pessoa apaixonada não percebe a realidade. Para ela a mágica é real.


Porém quando o objeto de desejo se afasta ou corta a relação, acaba por devolver a pessoa apaixonada à realidade. E esta, confusa com o que aconteceu e inconformada com o fim do encantamento, não aceita a realidade. Nestas situações, algumas pessoas relatam: “Mas eu sabia que era RECÍPROCO!”, ou, “Eu sentia que ele também me amava, como pode acontecer isso?”.


É que quando nos envolvemos numa paixão acabamos projetando os nossos sentimentos no outro, como se a nossa experiência fosse vivenciada por ele da mesma forma. Os contos de fadas estavam certos, o AMOR só existe quando é compartilhado, porém a paixão não. Ela geralmente trai as nossas expectativas porque cada um possui a sua individualidade, seus medos e seus desejos, e irá projetar e ou transferir para outro o que deseja para si. Por isso sofremos: nos inconformamos porque temos a convicção de que o outro também estava envolvido. É comum nessas situações, diante de um ego fragilizado e de um padrão existencial de culpa, questionarmos onde erramos, porque não fomos “melhores”…

Algumas pessoas vivem durante anos sofrendo por uma paixão, por uma relação que acabou. E justificando que um dia elas se encontrarão novamente para vivenciarem o seu amor.


Contudo, o Dr. Irvin Yalom ao dialogar com a sua paciente apaixonada, reflete: “Se duas pessoas compartilham um momento ou um sentimento, se ambas sentem a mesma coisa, eu consigo admitir que seria possível que elas, enquanto estivessem vivas, restabelecessem o sentimento precioso existente. Esse seria um ato delicado, afinal, as pessoas mudam, e o amor jamais se perpetua, porém ainda, quem sabe, no terreno da possibilidade. Elas poderiam se comunicar de um modo pleno, poderiam tentar alcançar um relacionamento autêntico e profundo que, dado que o amor verdadeiro é um estado absoluto, deveria aproximá-las do que tiveram um dia”.  “(…) Você não pode recriar um estado de amor romântico compartilhado, com os dois profundamente apaixonados um pelo outro, porque, para começar, isso nunca existiu.”

Ás vezes é extremamente cruel enxergar a realidade, é doloroso assumir o caminho que se conduziu a vida devido a uma falsa crença, ou a uma ilusão. Mas podemos reelaborar essas situações e os sentimentos presentes nelas e assim evitar entrar em novos ciclos que nos levam aos mesmos caminhos. Tudo bem que verdades nem sempre são boas de serem enxergadas, mas a verdade é sempre melhor que a mentira mesmo que seja mais difícil conviver com ela.

Leitura recomendada: O carrasco do amor, de Irvin D. Yalom.

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Jéssica Horácio de Souza
Psicóloga graduada pela Universidade do Extremo Sul Catarinense, e possuo formação em psicoterapia reichiana pelo Instituto Hollon. Trabalho como psicóloga clínica em Espaço Vida Psicoterapia e Desenvolvimento - Criciúma/SC, e como psicóloga social em Casa de Repouso localizada no município de Içara/SC.



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