Por  Rândyna da Cunha

No dia em que você nos deixou, como em um cliché de filme, serenava. Porém, naquele dia, eu ainda não entendia que era o dia em que você me deixou. Serenava no tempo e, aos poucos, serenava também no meu coração. As pessoas iam saindo lentamente, em silêncio, enquanto eu me deixava ficar, esperando que em uma reviravolta louca você se levantasse dizendo que era uma brincadeira de mau gosto. Sim, é absurdo, mas eu aprendi que no luto o absurdo é o comum de quem ama. Depois que todos se foram, ela veio juntamente com o silêncio e o frio: a dor pungente. Eu demorei a aceitar, mas a dor do luto é física. Ela rasga de dentro para fora, ela fere pelas entranhas, como se ela sempre tivesse estado ali e estivesse apenas esperando o momento certo para sair rasgando tudo, como um alien cuidadosamente alojado.

Nada que eu vivi até o momento daquela dor poderia se comparar àquele sofrimento, nada. Nem sei dizer se aquilo era sofrimento, eu acho até que aquilo ali nem nome tem. É um carrossel louco de sentimentos tão fortes que deixam a alma e o corpo abatidos de cansaço. Quando após três dias sem dormir, o corpo finalmente repousou numa cama, era como se eu tivesse travado uma luta numa arena romana. Dormimos sem querer dormir. Simplesmente, o corpo se desliga, porque sabe que se não fizer isso não suportará. Eu aprendi que o nosso corpo nos comanda no momento do luto.

Vivendo o luto, eu precisei aprender algumas coisas. Não porque eu quisesse, mas porque foi necessário, foi parte do processo natural de adaptação. Do luto mesmo eu não queria a menor aproximação e o mínimo sinal de conhecimento, porém, eu não pude escolher. A dona morte é uma ladra muito furtiva e ela roubou ao ponto de me deixar vazia.

De tudo que restou em mim, a coisa que mais se sobressaiu foi a dor. É verdade, o luto dói de tantas maneiras que eu não poderia jamais imaginar e que talvez eu jamais saiba descrever. O luto doeu psicologicamente, fisicamente e espiritualmente. Eu me sentia vazia e solitária, em todos estes aspectos. Então, eu aprendi que às vezes a gente deseja morrer, tão involuntariamente, que chega a ser inocente. É apenas o desespero para aliviar a dor gritando mais alto dentro de nós. E eu notei que vai ter muita gente solidária ao nosso sofrimento, mas também vai existir uma quantidade surpreendente de pessoas de alma dura, que insistirão em julgar nosso sofrimento e tentar nos roubar o direito de viver o luto. Sim, o luto precisa ser vivido. Afinal, ele é também uma etapa da vida: nascemos, vivemos e morremos. Neste espaço do “vivemos”, enterramos quem amamos. Estar de luto significa que você está vivo.

Chega um tempo em que lutamos insistentemente por melhorar, queremos sair daquele poço fundo e parar de sofrer, algo dentro de nós teima em reagir. E, neste momento, fazemos de tudo, topamos qualquer parada. É a hora que os mais aventureiros fazem besteira, entram em alguma fria. A realidade é que tudo não é mais que uma busca incessante por uma forma de arrancar do peito a dor sufocante da ausência de quem amamos. Na ânsia de esquecer muitos de nós cometem as piores burrices de suas vidas. É preciso ter calma nestes momentos. É preciso ter constância. É imperativo buscar a paz.

Eu aprendi também que nem sempre os médicos estão certos e que para a psiquiatria o luto tem tempo. Como categorizou o psiquiatra: “Luto é por três meses, quando passa disso é depressão. Você está em luto há cinco meses, portanto, está em depressão.”. Saí do consultório com um misto de ressentimento e revolta, amassando uma receita de tarja preta nas mãos. Se enterrei alguém que amei por 15 anos, como eu poderia simplesmente esquecê-lo em três meses? Jamais imaginei que o luto devesse ter data marcada para terminar. Para mim luto é enquanto a pessoa me fizer falta e, neste caso, é para sempre. Se existe um alívio melhor que chorar e deixar as lágrimas apenas escorrerem em silêncio, eu ainda não descobri qual é. Mas tenho certeza que, ao menos para mim, dopar meus sentimentos com medicamentos e fingir não sentir nada jamais solucionará meus problemas. Quando alguém disser: “Não chore!”. Teime e chore sim. O choro é necessário, a tristeza é saudável.

Aprendi também que as realizações pessoais a serem comemoradas se tornam alegrias com uma pontinha de tristeza e é preciso coragem para enfrentar isso. É preciso coragem para comemorar cada coisa que você desejou festejar ao lado daquela pessoa que não está mais ali, é preciso força para continuar e é preciso audácia para dar valor à sua própria vida e às suas conquistas, quando a pessoa com quem você sonhou em dividir não está mais ali. A vida após um luto consiste em um exercício diário.

Dia após dia, as nossas reações se modificam, nossos sentimentos se acalmam. O desejo de convulsionar em lágrimas dá lugar a uma saudade comprida e cheia de amor, recheada de lembranças que chegam de repente, no meio da tarde e nos arrancam um sorriso meio bobo. A passagem daquela pessoa em nossa vida passa a fazer todo o sentido. É trivial, mas era como tinha de ser. Se não fosse assim, não seria minha história ou a sua ou a dele.

Aos poucos entendemos que a vida não para em prol do nosso sofrimento, o mundo não deixa de girar para sofrermos, tudo permanece como está e segue o fluxo normal. Então, gradativamente conseguimos nos adaptar. Voltamos a viver. Eu aprendi que existe vida após o luto. E uma vida mais consciente de que o tempo é curto, que o verdadeiro amor é raro, que Deus existe, que amar exige compaixão, que as pessoas mais importantes de nossas vidas sempre estiveram ao nosso lado, que o destino nos leva a cumprir nossa jornada e que vale à pena esperar. Mas a maior de todas as coisas que eu aprendi é que se mil vidas eu tivesse, mil vidas eu aceitaria enfrentar essa dor, apenas pelo prazer de todo o antes que vivi ao lado dele. Se ter a história que eu tive, exigia carregar esta dor, eu a carregaria mil vezes sem a menor dúvida. Com o luto eu aprendi a jamais me arrepender de amar.

Imagem de capa: Antonio Guillem/shutterstock

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