Como crescer pobre tem um efeito que dura a vida toda

Uma equipe de investigadores norte-americanos acredita ter descoberto provas de um efeito persistente e limitador da pobreza vivida nos primeiros anos de vida.

Uma investigação, liderada pela professora de psicologia do Texas Sarah Hill, concluiu que as pessoas que crescem na pobreza parecem ter sérias dificuldades em regular o seu consumo de alimentos mesmo quando não têm fome. “Descobrimos que comem quantidades significativamente mais elevadas independentemente da sua necessidade”, confirma a investigadora.

A ideia do estudo era perceber por que razão a obesidade têm maior prevalência nas populações mais pobres. Para isso, levaram a cabo três experiências em separado, para avaliar como pessoas de diferentes origens socioeconómicas se comportavam perante a comida.

Na primeira, chamaram ao seu laboratório 31 mulheres, a quem foi perguntado há quanto tempo tinham comido e se sentiam com fome. À sua disposição havia snacks, como bolachas e aperitivos salgados, que podiam comer ou não, conforme a sua vontade. No final, a equipa de Hill analisava o número de calorias consumidas – a discrepância entre o que as participantes comeram foi “alarmante”: As que tinham crescido em ambiente socioeconómicos mais elevados mostram um comportamento de consumo dito “normal” (comiam quando tinham fome, paravam quando deixavam de ter); As que tinham crescido em ambientes mais pobres, comiam independentemente da fome.

Com estes resultados, os investigadores passaram à experiência seguinte e convidaram outras 60 mulheres, a quem tinham pedido para não comer nem beber durante cinco horas. A metade do grupo foi dado um refigerante calórico com gás e à outra metade água com gás, sem calorias. Em seguida, ambos os grupos tiveram à disposição snaks, que podiam ingerir ou não. Mais uma vez, os resultados foram significativos: as participantes que vinham de situações socioeconómicas mais elevadas comeram muito menos depois de ter bebido o refrigerante, enquanto as outras comeram independentemente do que tinham bebido. “É incrível, é como se o refrigerante não contasse para aqueles que tiveram um estatuto socioeconómico baixo enquanto crianças. É como se estivessem a beber água”, comenta Sarah Hill.

Na terceira e última experiência, os investigadores replicaram a sua segunda, mas com duas alterações. Desta vez, convidaram 82 participantes, incluindo homens, e mediram os níveis de açúcar no sangue. Mais uma vez, a mesma conclusão: só os que não tinham passado por uma situação de pobreza na infância pareciam regular bem o seu consumo de alimentos.

E Hill sublinha a pobreza na infância porque os padrões alterados de consumo de alimentos só se verificaram nos participantes que tinham tido dificuldades enconómicas enquanto crianças, sem que se verificassem nos que atualmente, enquanto adultos, declaravam uma situação socioeconómica desfavorável.

E foi isto que surpreendeu a equipa de cientistas: “Pensámos que haveria uma associação com ambos.”

Sem que tenham conseguido chegar a uma explicação definitiva, os investigadores acreditam que uma explicação possível prende-se com a educação, ou menor educação, neste caso, para as necessidades do corpo. Outra possibilidade a ter em conta é a existência de uma espécie de condicionamento: para os que nunca tiveram de se preocupar com uma refeição, não aproveitar um snack oferecido não parece nada de especial, mas, para os outros, pode ser a diferença entre uma boa noite de sono ou horas acordados com fome.

“Quando se cresce neste tipo de ambientes, é-se efetivamente treinado para comer quando se pode em vez de quando se tem fome”, explica Hill, sublinando, no entanto, que os resultados obtidos pela sua equipe são preliminares.

Fonte indicada Visão-Sapo

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