Por Cassandra Gomes Hochberg

Então, como se cura um fanático? Caçar um bando de fanáticos pelas montanhas do Afeganistão é uma coisa. Lutar contra o fanatismo é outra.”

Assim começa o ensaio do escritor israelense Amós Oz em Como Curar um Fanático, uma obra sobre aquele ser curioso, assertivo e irritante: o fanático. Nascido em Jerusalém, Amós Oz conta que a cidade o transformou em um especialista em fanatismo comparado, devido aos “profetas autoproclamados, redentores, messias” e as vítimas da famosa síndrome de Jerusalém, que ao inalarem os ares límpidos da cidade, “despem suas roupas, escalam a rocha e começam a profetizar.”

Mas fanatismo não é ligado somente à religião. Fanáticos, infelizmente, não são apenas os integrantes do Estado Islâmico ou os fiéis que se sacrificam na fogueira santa do Edir Macedo: o fanatismo tem diversas formas.

“A essência do fanatismo reside no desejo de forçar outras pessoas a mudar. A inclinação comum para fazer seu próximo melhorar, ou para corrigir sua esposa, ou para direcionar seu filho, ou para endireitar seu irmão, em vez de deixá-los serem como são.”

Portanto, a obra trata de todo tipo de fanatismo, o fanatismo que todos nós somos vítimas e perpetradores, o fanatismo presente no nosso dia-a-dia que nos embriaga com a certeza e a superioridade.

“Muitas vezes, essas coisas começam em família. O fanatismo começa em casa. Inicia exatamente com o impulso muito comum de mudar um parente querido para o próprio bem dele (…) ou, entre casais casados, ‘Você tem que mudar, você precisa enxergar as coisas como eu vejo ou esse casamento não vai funcionar.’ Frequentemente começa com o impulso de viver sua vida calcada na vida de outra pessoa.”

A Cura

O autor propõem um tratamento, uma cura, como sugere o título da obra. O título em si tem seu sarcasmo, pois nos remete ao fato que o fanático tenta impor a cura sobre as pessoas ao seu redor. Oz reconhece seu passado de fanatismo e ri de si mesmo por insistir, como um fanático, que ele tem a resposta para a cura do fanatismo, que consiste em:

Imaginação

O fanático carece de imaginação. Segundo Oz, muitos fanáticos são de fato fanáticos pois não possuem imaginação suficiente para conceber o cenário proferido em seu fanatismo.

Para ilustrar o fato, temos a história do escritor e amigo do autor Sammy Michaeli que, discutindo política numa corrida de taxi, ouviu o motorista dizer que a única solução para o conflito árabe-israelense seria matar todos os árabes. Ao invés de dizer, ou gritar, indignado que o motorista havia enlouquecido e era um fascista, Michaeli respirou profundamente e resolveu usar outra estratégia: a imaginação. Perguntou então ao motorista como a chacina deveria ser feita, se era responsabilidade do exército, da polícia, ou uma tarefa a ser dividida entre todos os cidadãos. A conversa caminhou de tal maneira que Michaeli colocou o motorista em uma situação imaginária na qual o último teria que matar um bebê árabe. O motorista, horrorizado, conclui a conversa com “Você é um homem muito cruel!”

Esse exemplo nos mostra que a maioria dos fanáticos simplesmente não conseguem retratar com suas limitadas imaginações os cenários que eles mesmos pregam; e quando, por sorte, tem um momento de clareza, se dão conta do absurdo que pregavam.

A solução?

“Quanto a isso, gostaria de poder lhes dizer que a literatura é a resposta, pois nela consiste um antídoto para o fanatismo ao injetar imaginação nos seus leitores.”

Obras literárias não realizam milagres, segundo Oz, mas podem ajudar. Salvo alguns trabalhos que tem sido usados para inflamar ódio, muitos clássicos, como Shakespeare, Gogól, Kafka, entre outros, podem ajudar a injetar no fanático uma dose de imaginação devido ao encontro com complexos e surpreendentes seres literários.

Senso de Humor

“O senso de humor é uma grande cura. Nunca vi em minha vida um fanático com senso de humor, nem nunca vi uma pessoa com senso de humor tornar-se um fanático, a menos que ele ou ela o tenha perdido.”

A solução se baseia não apenas em rir das pessoas e situações, mas em desenvolver a capacidade de rir de nós mesmos. Reconhecer o senso de humor na nossa assertividade-por exemplo, na certeza de que o político x é a melhor opção até o mesmo ser pego em um esquema de corrupção, ou tal atividade física é o caminho para vida saudável até que a moda passa-é o mais efetivo remédio contra o fanatismo.

As redes sociais são um palco da falta de senso de humor dos fanáticos. Experimente, por exemplo, ler os comentários no Facebook do jornal humorístico Sensacionalista: ali sempre encontramos comentários revoltados quando a mira das piadas é um ou outro partido, nos mostrando como algumas pessoas estão certas de que as suas opiniões são superiores à contradições e ao senso de humor.

Homem-península

“Nenhum homem é uma ilha, disse John Done, mas eu humildemente ouso acrescentar a isso: nenhum homem e nenhuma mulher é uma ilha, mas cada um de nós é uma península, metade ligada ao continente, metade voltada para o mar; metade ligada à família e amigos e cultura e tradições e país e nação e sexo e língua e muitos outros laços. E a outra metade quer ser deixada só e ficar voltada para o oceano.”

Cada homem-península tem suas crenças, histórias, caminhos na vida, que se combinam para formar pessoas diferentes, as pessoas que somos, que convivemos, cada uma com as suas características particulares que devem ser respeitadas. Oz recomenda que todas as pessoas, famílias, grupos sociais deveriam se lembrar disto antes de tentar transformar o outro, antes de moldá-lo segundo o que julga correto. E todos nós deveríamos, sempre que possível, nos voltar ao oceano.

Com uma linguagem simples e em poucas palavras, Como Curar um Fanático nos leva a rever nossos conceitos. Não é um livro para nos armar de argumentos para apontar dedos e diagnosticar fanáticos, mas para abrir os olhos às nossas próprias armadilhas. E o autor nos adverte: “Sejam muito cuidadosos, fanatismo é fácil de pegar, é mais contagioso do que qualquer vírus. Pode-se facilmente contrair o fanatismo mesmo quando se está tentando vencê-lo ou combatê-lo.”

Amós Oz – Como Curar um Fanático

Tradução: Paulo Geiger

Companhia das Letras

Imagem de capa: Shutterstock/Cara-Foto

TEXTO ORIGINAL DE OBVIOUS

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