O tédio é um estado de ânimo que merece atenção especial pela frequência com que nos acomete e pelo impacto que causa à capacidade realizadora.

Muitas vezes, nem percebemos que estamos entediados. O tédio é um processo volitivo, ou seja, é um afeto ligado à vontade; caracteriza-se pelo imobilismo e, não raro, o confundirmos com outras disposições afetivo-comportamentais, como a depressão e a tristeza.

É possível, também, confundir o tédio com o fastio ou sentimento de desinteresse por atividades ‘maçantes’, ou como dizia Pascal: ‘desse incômodo, oposto à diversão, que só passa se algo que nos deleita, acontecer.’

O tédio é a sensação de sentir-se incapaz de querer e sentir com intensidade –sentir-se entusiasmado-, mesmo quando saudáveis. Agimos como se não enxergássemos ligação entre as ações e seus propósitos.

A temática do tédio foi abordada por filósofos como Jean Paul Sartre e Heidegger. Sartre, o filósofo existencialista, chamava esse estado de ânimo de náusea. Um certo modo de ser indiferente às coisas e até a nós mesmos. Heidegger, por sua vez, dizia que o tédio ‘é uma névoa silenciosa, recolhe-se no abismo de nosso existir, comunga homens e coisas, nós com tudo o que há em torno de nós, numa singular indiferença’.

E como vencer essa indiferença devastadora?

Todo fenômeno psicológico tem sua complexidade, que nos leva a não ver saídas. Contudo, ao pensamos em afetos humanos, como o tédio, por exemplo, precisamos lembrar que somos seres simbólicos, atribuímos sentido à experiência e nos movemos para algo pelo sentido que lhe atribuímos.

Somente quando atribuímos sentido de valor à realidade é que nos conectamos a ela com vigor. Daí vem o entusiasmo que nos alavanca do tédio.

Podemos pensar saídas por vários caminhos. Freud atribuía forte poder ao amor e ao trabalho como fenômenos estimulantes da ação entusiasmada. Mas para fins deste texto, não vamos considerar esses fenômenos em si como alavancadores da vontade, mas as atitudes que os revestem.

Pensemos em uma alquimia traduzida por atitudes que fundamentam os atos humanos e veremos que elas nos levam a perceber o real de forma estimulante.

E quais seriam essas atitudes?

Vamos adotar o referencial filosófico e considerar três disposições de ânimo que alteram a conexão com a realidade. A primeira é a curiosidade; a segunda, o encantamento e a terceira é o amor.

Senão, vejamos. A curiosidade mantém o interesse que nos liga ao mundo. Já o amor nos conecta às pessoas – não podemos esquecer de que não há mundo sem o outro -. O encantamento, capacidade de sentir o mistério, por sua vez, nos mantém em sintonia com as possibilidades que a existência pode nos trazer.

Platão dizia que a curiosidade é o interesse pulsante pela vida e larga janela para a inspiração. Quando mantemos a curiosidade viva, somos capazes de inaugurar uma visão descobridora que traz o entusiasmo da descoberta.

Foi também Platão quem nos fez o convite ao encantamento – o êxtase diante dos fenômenos e ideias – que nos leva a enxergar além da substância imediata e mergulharmos na busca do sentido maior do que sentimos. Quando enxergamos a grandeza de tudo, somos mais resistentes às posturas tediosas.

Quanto ao amor, não há como fugir do tédio ignorando que a presença do outro é estimulante e que por isso é precisamos interagir genuinamente.

Schopenhauer, filósofo alemão de pessimista visão, enxergava a dimensão dolorosa da vida, de forma nítida. Mas ele dizia que o amor é a base essencial da existência e que só o amor nos ajuda a ultrapassar a ‘dor existencial’ pela profunda comunhão solidária com o outro.

Além dessas atitudes, para fugir do tédio é preciso rever hábitos e estratégias (o medo excessivo de errar, a aversão ao novo e à experimentação, o apego exagerado à rotina) utilizados muitas vezes automaticamente e que nos empurram ao imobilismo.

Enfim, para agir e sentir com intensidade é preciso ver para além do imediato; considerar o outro e juntar o que somos: memórias, conhecimentos, lembranças, imaginação, habilidades para fundar a possibilidade de reinventar-se a cada dia.

Imagem de capa: Shutterstock/Stokkete

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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Liduína Benigno Xavier
Psicóloga, Mestre em Educação, formação em Facilitação de Processos humanos nas organizações, a escritora é consultora organizacional há mais de vinte e cinco anos; É autora do livro: Itinerários da Educação no Banco do Brasil e Co-autora do livro: Didática do Ensino Corporativo - O ensino nas organizações.Mantém o site: BlogdoTriunfo que publica textos autorais voltados ao aperfeiçoamento pessoal dos leitores e propõe reflexões que ajudam o leitor a formar visão mais rica de inquietações impactantes da existência.

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