Ouço tantas vezes as pessoas me falarem que o relacionamento delas não deu certo. Seja no consultório, seja entre amigos e conhecidos, sempre que um relacionamento termina as pessoas que me contam deles com tristeza de quem perdeu alguém, mas sempre afirmando que não deu certo. Sobre a tristeza de quem perdeu alguém, acho justo e saudável. Afinal, o fim de um relacionamento é mesmo um luto. Quanto mais tempo durou, quanto mais se investiu nele, mais doloroso é e viver o luto em todos as suas fases é saudável e necessário.

Mas, daí dizer que não deu certo. Isto não faz sentido. A que serve um relacionamento? A durar a eternidade? Não! Tudo tem fim. Seja pela morte física ou pela morte simbólica, pela morte do sentimento. Tudo finda. Porém medir pelo tempo de duração parece tão injusto e desleal. Não acha?
Vamos pensar em algo mais simples. Em algo que não envolve tantos valores morais e sentimentos. Vamos pensar nos calçados. Você já teve (ou tem) aqueles calçados preferidos? Tenho um belo par de botas. É lindo, usei muito, me sentia linda com ele por vários invernos frios em que aqueceram meus pés e me ajudaram a compor um belo visual. Não era de duvidar que com tanto uso ele começasse a ficar gasto.

Tentei manter, engraxei, levei ao sapateiro para fazer a sola, troquei saltinhos algumas vezes, fiz o que pude para conservá-lo. Cuidei muito bem dele. Mesmo assim minhas botas descascaram. No começo disfarcei usando as calças por cima do cano. Aí descascou o bico. Mas de vez em quando eu saia com elas, fingia não perceber. Eu mesma nem olhava. Todas as pessoas viam. A maioria era discreta, na verdade ninguém apontou e disse: “eí, estas botas precisam ser aposentadas. Acabou a vida útil delas.”


Segui firme até que elas começaram a moer meus pés. Doía tanto que me causavam um tremendo mal humor nos dias em que eu saia com elas. Então eu chegava em casa, jurava que ia me desfazer delas no dia seguinte. Mas na correria da vida (e no meu apego pelas minhas queridas botas) eu as deixava lá e depois esquecia. Passava um tempo e eu as colocava de novo e sai feliz da vida com minhas botas queridas. Novamente mau humor e muitas, muitas dores nos pés.
Assim segui por um tempo até que me perguntei por que estava fazendo isso comigo, com meus pés que sempre me levaram e levam por onde vou. Para que me maltratar? Para ficar bonita com aquela bota que nunca mais encontrei outra igual? Eu não queria outra, queria aquela. Mas ela não era mais confortável. Me causava muitos males. Então encostei ela lá num canto e não mexi mais!
É, não joguei fora, só deixei ali num cantinho onde eu nem via mais, mas sabia que estavam ali! Aí me peguei pensando no apego que estava tendo. E em todos os apegos que temos. Os calçados são assim mesmo. Eles tem validade, cada calçado tem o seu tempo de duração. Isso depende da qualidade dele, do quanto você o usa, de como cuida dele, entre tantas coisas. mas quando deixam de ser confortáveis é preciso deixá-los ir.

Isto não significa que não eram bons. Pelo contrário! é hora de deixá-los ir e ser grato por tudo que nos proporcionaram. Por todos os lugares que nos levaram, por quanto nos deixaram bonitos e confortáveis com eles. Mas um dia eles acabam. Seja por desgaste ou porque achamos que não combinam mais com nossos estilos, um dia é preciso deixar os calçados irem.
Nos relacionamentos afetivos é bem parecido. Claro que com a enorme diferença de que o calçado não ficará magoado com você por não fazer mais parte de suas vida. Não terão, você e seu calçado nenhum vínculo de dependência como filhos, bens, familiares, amigos em comum. Não! O sapato não sente.
Mas, sobre o sentimento de desapegar, é um pouco assim. Podemos olhar para os relacionamentos que se encerram com a mesma gratidão. Podemos olhar para algo que deu certo pelo tempo que teve de dar, para algo que nos levou a muitos lugares, que nos permitiu caminhar por diversos lugares e nos protegeu os pés de muitas pedras pelos caminhos. Entende? Pare de dizer que não deu certo. Tudo tem um tempo. Olhe para o que esse relacionamento lhe ensinou sobre a vida, sobre o amor e sobre você. Seja grato. Seja grata. Valorize o que você viveu com esta pessoa, independente de quem ela é. Todos nós somos aprendizes e ensinamos aos outros.
Não existe relacionamento que não deu certo. Existem formas diferentes de olhar para as nossas expectativas, para nossas frustrações e para as nossas experiências.

Imagem de capa: Shutterstock/oneinchpunch

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Fernanda Alcantara
Psicóloga e psicoterapeuta junguiana em formação pelo Instituto Sedes Sapientieae no núcleo Jung e Corpo. Adoro auxiliar as pessoas a organizar suas vidas, suas histórias e dar um novo sentido às coisas e as experiências. Por isso, também sou Personal Organizer, auxiliando neste processo dentro do consultório e em suas casas, quando necessário.

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