Criatividade e psicose têm raízes genéticas comuns

Por Nuño Domínguez

Algumas doenças psiquiátricas podem ser entendidas como uma forma diferente de pensar. Isso caracterizava Michelangelo, Charlie Parker, Beethoven, Virginia Woolf, Van Gogh e muitos outros. De todos eles foi dito que sua arte se devia, em parte, a transtornos psiquiátricos – o que contribuiu para reforçar a ideia de que nenhum gênio existe sem uma mistura de loucura, como disse Aristóteles. Agora, um estudo que analisou dezenas de milhares de pessoas revela que há uma conexão genética entre a criatividade e doenças como a esquizofrenia e o transtorno bipolar.

Como em qualquer outro ramo da biologia, a grande pergunta é até que ponto a criatividade se deve a fatores ambientais, como a educação e a convivência com outros artistas, e em que medida se deve à genética herdada dos pais e de outros parentes.

O estudo, publicado em 8 de junho pela Nature Neuroscience, tenta responder analisando o genoma de 86.000 pessoas na Islândia. Seus autores, liderados pela empresa de análise genética deCODE, buscaram pequenas variações na ordem das 3 bilhões de letras de DNA que formam o genoma humano. Algumas dessas variações podem duplicar a média de risco de uma pessoa sofrer esquizofrenia ou elevar em um terço a sua chance de ter transtorno bipolar. Uma vez detectada essas variantes, e diante da imensa complicação de definir e medir a criatividade, os especialistas analisaram o genoma de 1.000 pessoas do mesmo país que fazem parte de associações nacionais de artistas visuais, bailarinos, atores, músicos e escritores. Este último grupo de profissionais, diz o trabalho, tinha uma chance 17% maior que o restante da população de possuir alguma das variantes de risco, embora nenhum de seus integrantes sofresse as doenças analisadas.

As mesmas variações genéticas também estavam mais presentes nas profissões citadas quando a equipe analisou os genes de mais de 8.000 suecos e 18.452 holandeses. Os criativos tinham uma probabilidade 25% maior de ter algum gene de risco. Os resultados não são explicados pelo quociente de inteligência, pela história familiar de doenças psiquiátricas e nem pelo nível educativo. Por isso, seus autores concluem que a criatividades deve-se, em parte, a variantes genéticas que são as mesmas que aumentariam o risco de sofrer as doenças estudadas.

“Esses resultados não deveriam causar surpresa porque, para ser criativo, você tem que pensar de uma forma diferente das outras pessoas. Num estudo anterior, nossa equipe já tinha demonstrado que esse é o caso das pessoas portadoras de variantes que predispõem à esquizofrenia”, explica Kari Stefansson, diretor geral do deCODE e coautor do trabalho. Também participaram centros de pesquisa da Islândia, Suécia, Reino Unido, Holanda e Estados Unidos.

A esquizofrenia é um enigma evolutivo. Tende a reduzir a capacidade reprodutiva dos pacientes, mas sua prevalência parece muito estável, afetando cerca de 1% da população em geral. É possível que a doença tenha vantagens associadas, o que poderia explicar o paradoxo. Mas, segundo o novo estudo, as pessoas criativas analisadas tinham menos filhos que o restante da população, o que em princípio descarta a hipótese de que benefícios associados à esquizofrenia expliquem o enigma.

Mistura complicada

Miguel Bernardo, psiquiatra do Hospital Clínic de Barcelona e presidente da Sociedade Espanhola de Psiquiatria Biológica, oferece uma opinião independente sobre o trabalho liderado por Stefansson. “É a primeira vez que um estudo genético busca marcadores de esquizofrenia e criatividade numa população tão grande”, afirma. Segundo ele, o fato de que a maioria dos participantes seja islandesa, uma população muito homogênea do ponto de vista genético, dá maior confiabilidade à análise.

Mas o trabalho também apresenta problemas que mostram como é difícil pesquisar nesse campo. “O marcador da criatividade era pertencer a uma associação profissional. Isso é muito relativo, pois nessas associações também haverá muita gente que carece de criatividade”, diz Bernardo.

Até o momento, foram descobertas entre 100 e 119 variantes genéticas associadas com a esquizofrenia. Mas a doença só aparece “quando há vários genes relacionados a ela e que interagem entre si”, diz o especialista. Portanto, as variantes de risco reveladas pelo estudo podem ser apenas a ponta do iceberg. Talvez existam vários outros condicionantes genéticos que predispõem à criatividade sem ter relação com doenças psiquiátricas.

David Cutler, do Departamento de Genética Humana da Unversidade Emory, EUA, cita um exemplo metafórico que serve de explicação. Se a distância total entre a pessoa menos criativa do mundo e um artista fosse de um quilômetro, diz Cutler, as variantes genéticas detectadas só explicariam 3,9 metros dessa separação. “Os efeitos observados” são “reais”, mas também “pequenos e repartidos entre centenas ou milhares de genes”, afirmou o especialista em declarações divulgadas pelo Science Média Centre. Em outras palavras, ainda são necessários muitos trabalhos científicos para conhecer qual a mistura exata de loucura que existe na mente de um gênio ou de qualquer pessoa criativa.

Texto original do El País

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