Cuidar de si mesmo

Uma das funções dos pais ou responsáveis por crianças e adolescentes é educá-los no sentido do cuidado de si. Tornar-se sujeito de sua própria história é, entre outras coisas, ter a capacidade de cuidar-se satisfatoriamente: tornar-se seu próprio pai e sua própria mãe; não depender excessivamente do outro; não prolongar a infância ou a adolescência desmedidamente ou, diante de dificuldades comuns a todos os viventes, regredir.

A saúde física e mental do adulto, em termos inconscientes, foi estabelecida através dos primeiros vínculos parentais, na infância. Toda a nossa base reside aí e também nossos medos e fragilidades, nossos sintomas e idiossincrasias, nossa estrutura psíquica e de caráter aí têm as suas raízes mais profundas.

A amamentação; os cuidados com a alimentação e a higiene; os primeiros passos; a aprendizagem da moralidade; o desenvolvimento sexual; a contenção e/ou expressão da agressividade – toda a longa experiência de vida que cada um de nós humanos deve possuir desemboca com vitalidade e alegria na fase adulta.

Todo e qualquer problema que se encontre no adulto vem de períodos anteriores do desenvolvimento. Mesmo quando o adulto confronta-se com um problema exterior a si, no presente, sua aptidão para lidar com o novo vem ou não vem da criança que nele há. Do modo como esta criança foi ou não amada, cuidada, educada num ambiente suficientemente bom.

Para cuidar de si, o adulto precisa ter a possibilidade inconsciente de expressar exatamente o que deseja; o que sente e o que pensa. Ingressar no mundo da linguagem e do desejo não é algo natural, como a princípio parece e pensa o senso comum. No ser humano, isso depende rigorosamente de como a criança foi amada e cuidada por alguém que exerceu a função materna de modo razoável e de alguém que exerceu a função paterna, estabelecendo claramente leis; normas; regras; limites e a consequente noção de que vamos nos frustrar muitas e muitas vezes na vida. Saber lidar com a frustração é condição sine qua non do cuidado de si.

Lidar com a frustração nos leva a não fazer o que não desejamos; a impor nossos limites ao outro; a não procurar agradar a todos o tempo inteiro. Quando cuidamos bem de nós mesmos, preservamo-nos e confiamos em nossos instintos e nossas intuições. Não repetimos situações ou comportamentos que nos constrangem ou constrangem o outro. Temos alteridade; empatia. Não vemos o outro como um total estranho ou um perseguidor, mas alguém com quem podemos estabelecer vínculos de respeito, justiça, solidariedade, amizade e amor. Ou, se é alguém que nos oferece perigo, nós contornamos o caminho e nos desviamos dele.

Para nos dar bem com o outro que nos atrai, precisamos, antes, amar a nós mesmos. Se na infância e adolescência fomos suficientemente amados, isso será quase natural. Não falaremos mal de nós mesmos; aceitaremos elogios e também críticas construtivas; seremos carinhosos conosco em termos muito práticos: no ato da alimentação; na higiene; na quantidade e qualidade de sono; na escolha profissional; no sexo e no lazer. Não desistiremos de nossos sonhos, mas lutaremos com persistência e perseverança para alcançá-los. Seremos levados por pulsões de vida e não de morte. E, mesmo abatidos diante de perdas e lutos, saberemos escolher sempre o mel que há na vida. Seu lado bom. Seu lado construtivo. A arte. O esporte. A espiritualidade. A cultura em todas as suas boas manifestações.

Quem cuida de si de modo equilibrado sabe que não temos qualquer espécie de controle sobre muitos aspectos da existência. Exercer controle excessivo sobre si, o outro e as situações do cotidiano implicam em ansiedade, angústia, obsessões e compulsões. O antídoto para tudo isso é exatamente deixar a vida fluir: deixar as pessoas e as coisas serem como são; não invadir; não pressionar; não resistir ao que é. Confiar na vida é permitir que ela flua e faça seu trabalho: prova de saúde integral e de sábio cuidado de si. Isso também implica em não se prender a bobagens e a não perder energia e tempo com mesquinharias. Quem cuida verdadeiramente de si relaxa. Sabe relaxar. Descansa e aproveita o ócio criativo.

Hoje, muito se fala em pensamento positivo como recurso para uma existência saudável e frutuosa. Devemos realmente nos afastar de situações e pessoas negativas, que sempre nos puxam para baixo e para o lado escuro e opressivo da vida. Embora não pareça, aqui há uma escolha a fazer. A de amar as pessoas. Ser gentil com elas. Ser generosos. Ser agradecidos. O cuidado de si abarca também a opção de praticar virtudes e valores humanos, que tornam a convivência mais agradável e suportável em seus aspectos mais duros ou sombrios. Creio que aqui cabe a citação de Oscar Wilde: “Todos nós estamos na sarjeta, mas alguns de nós olham as estrelas”.

Cuidar devidamente de si é saber “olhar o céu”. Sonhar mais. Brindar. Celebrar a existência. Comemorar. Arrumar frequentemente sua aparência; sua mente; sua casa; sua vida profissional e financeira. Ter energia. Entusiasmo. Utilizar-se dos recursos de que a natureza e a cultura nos dotaram: nossos talentos próprios e o amplo cabedal cultural de que a história humana nos tem legado. Finalmente, como bom freudiano, não poderia deixar de citar o bom humor. O chiste. O lapso. A piada. Não nos levarmos tão a sério e termos certeza de que o sofrimento que porventura passemos não é para sempre. Aliás, nada é para sempre. Portanto, agora é o tempo de cuidarmos de nós mesmos e desfrutarmos a vida.

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Paulo Emanuel Machado
Paulo Emanuel Machado é psicanalista, escritor e professor. Tem dois romances publicados: A TEMPESTADE (Editora Scortecci, 2014) e VOCÊ NÃO PODE SER O OCEANO (Edição independente, 2015), ambos baseados em relatos de pacientes e alunos. O primeiro sobre abuso sexual; o segundo sobre a travessia difícil da adolescência.Também possui artigos publicados e contos em antologias. É de Salvador, Bahia, nascido a 10 de janeiro de 1960.



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