Decifra-me ou te devoro

O mito da esfinge de Tebas:

“Um antigo mito grego relata que a esfinge de Tebas estava sempre atenta aos viajantes que passavam naquela cidade. Esta abordava o transeunte com o seguinte enigma:

“Qual o animal que de manhã tem quatro patas, ao entardecer tem duas e ao anoitecer tem três patas?”

Caso o enigma não fosse respondido corretamente pelo viajante, este era devorado pela esfinge. A resposta pontual era o “homem”.

A humanidade, enquanto espécie, em sua caminhada existencial, sempre se questionou sobre quem é, de onde veio, para onde vai. Muitas destas perguntas eram respondidas através de narrativas fantásticas, nascendo, assim, o mito. Tanto os fenômenos externos quanto seus processos internos eram explicados simbolicamente. Em uma abordagem figurativa e mitológica, eram elucidados os questionamentos existenciais que os angustiavam, proporcionando, deste modo, alivio ou conforto psíquico para as perguntas  que aturdiam os “enigmas” da vida de um modo geral e acerca das questões existenciais humanas.

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Este mesmo homem fez grandes progressos. Conseguiu compreender muito da essência de seres microscópicos e das leis da natureza, descobriu a existência de energias, mesmo aquelas invisíveis aos olhos humanos, bem como explorou o universo afora, motivado por encontrar vida em outros planetas. De fato, o homem é um explorador nato focado no mundo externo.

Neste desejo contínuo em conhecer o que está “fora de si” e em nome da sobrevivência de sua espécie, o homem foi se formando como ser multi-determinado, mas esqueceu-se de perscrutar seus processos dinâmicos internos e desta forma, reforçou uma estereotipia comportamental através do distanciamento de sua auto escuta, pois ainda não foi capaz de responder ao famoso enigma “Conhece-te a ti mesmo”, anexado no Templo de Delfos desde 650 a.C. Este enigma, o de “quem nós somos”, uma vez não revelado, encontra-se diretamente relacionado a eufagia do próprio ser, ou seja, somos constantemente aniquilados  pela ignorância de não sabermos quem de fato somos.

O que é autoconhecimento?

Para uma verdadeira transformação, o primeiro passo é se autoconhecer. Autoconhecimento ou conhecimento de si, em um sentido mais profundo, não é absorção de informações. Este processo tem a função primordial de nos movimentar para um saber próprio, de modo a proporcionar construções e desconstruções. Deste modo, este conhecimento traz à luz questões que muitas vezes poderiam passar despercebidas (ou que não queríamos admitir),  visto que na maioria das vezes não desenvolvemos ainda um alto grau de intimidade conosco para alavancar nosso aprimoramento pessoal.

O autoconhecimento é um processo transformador, o maior investimento que podemos fazer por nós mesmos, pois quando nos conhecemos não reagimos impulsivamente aos nossos processos internos e à vida e sim desenvolvemos uma conexão consciente com nosso “eu” e com o mundo externo.

Através deste processo nos é permitido conhecer e trabalhar nossos conflitos e resistências, ou seja, as nossas sombras, bem como conhecer e desenvolver os nossos recursos, possibilidades e potencialidades. Desta forma aumentamos nossa autoestima e nos tornamos mais fortes para encarar as adversidades da vida, gerando sentimento de auto-satisfação, que é condição sine qua non para nossa felicidade e auto-realização profunda, o que é muito diferente do sentimento de euforia que o mundo nos oferece.

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Em outras palavras, através do autoconhecimento, “nos encontramos e nos acolhemos na unicidade e complexidade que nos é própria,  para a partir deste ponto de partida ser oportunizada a conscientização e consciencialização dos conteúdos subjacentes aos nossos  estados afetivos e emocionais”; para rever valores e crenças e consequentemente nos posicionarmos como pessoas  ativas e responsáveis diante de nós e da vida.

Neste processo concluímos que não somos o reflexo exato dos papéis sociais que exercemos, assim como não corespondemos à percepção que as pessoas têm a nosso respeito. Do mesmo modo, não somos a identificação engessada que criamos de nós mesmos, o que geralmente tem função de máscara protetora e escudo de defesa para nos agarrarmos a uma imagem idealizada. Geralmente até mesmo a imagem que idealizamos para nós não corresponde integralmente a quem de fato somos. Esta vem à tona diante de experiências catalisadoras que nos colocam frente a comportamentos automáticos e emoções disfuncionais que precisam ser prontamente trabalhadas. O problema é que muitas vezes culpamos aos outros e não admitimos que é uma questão nossa.

Autoconhecimento e sintomas:

O corpo apresenta seu discurso através dos sintomas. Estes falam muito de nós e através de nós. A compreensão da sintomatologia associada à compreensão das nossas emoções é a chave mestra para o portal do autoconhecimento, pois sintomas e estados emocionais estão intrincados em um mosaico. Existe uma linguagem corporal conflituosa que nos diz respeito através da sintomatologia apresentada e esta deve ser avaliada, compreendida e ressignificada. Isto porque conteúdos subjacentes “se encondem” nestes sintomas que, uma vez cronificados, podem desenvolver quadros ansiosos e depressivos, bem como outros distúrbios psiquiátricos e doenças físicas. Sendo assim, a questão principal não é retirar o sintoma e sim deixar que este flua, para que seja trabalhado.

Infelizmente as pessoas não apresentam uma cultura preventiva. O que acontece é que elas procuram se autoconhecer diante de um estado de sofrimento significativo, seja por seus sintomas, seja em busca de respostas existenciais. Esta resistência advém do fato de que, embora se autoconhecer seja gratificante, é também um trabalho longo e doloroso, pois nem sempre estamos dispostos ou prontos a encarar nossas sombras, romper paradigmas,  desconstruir autoconceitos, mudar hábitos e rever condutas.

Em busca do próprio “eu”:

Precisamos retirar as nossas mascaras configuradas pelos condicionamentos internalizados e visitarmos o nosso templo de Delfos, olhando no espelho da nossa própria consciência para trabalharmos nossos comportamentos disfuncionais. É necessário conhecer o que há de melhor em nós, os nossos recursos, as nossas motivações, para desenvolvermos nossa autoestima. Da mesma forma, é necessário conhecer o que há de pior em nós, para que isso possa ser desconstruído e transformado.

Discutir nossos pensamentos, ideias e crenças é o primeiro passo para iniciarmos nosso processo de mudança interior. Mas de pouco ou nada adianta conhecer e não aceitar o conteúdo como seu; de pouco adianta se não nos propusermos ao trabalho mais profundo: encarar e compreender o porquê dos nossos sentimentos e emoções. Sofremos porque não nos conhecemos, porque não somos  conscientes de como funcionamos. O sofrimento existencial é produto da ignorância, sendo nós mesmos os geradores destes mesmos sofrimentos de que tanto desejamos nos desvencilhar e que nos seria poupado, caso nos conhecêssemos. Sendo assim, não existe a possibilidade de fugirmos de nós mesmos, já que a verdadeira liberdade advém da própria conquista consciente do “eu”. A partir desta conquista, a maior de todas que podemos fazer, não buscaremos nos satisfazer nos prazeres e ilusões externas, nem tampouco precisaremos da incessante aprovação dos outros, visto que estaremos satisfeitos e preenchidos internamente. No entanto, para que este processo se inicie, é necessário coragem para sairmos da nossa zona de conforto, o que gera certo sofrimento e necessidade de readaptação, ou seja, dispêndio de energia para encarar estados emocionais negativos; paciência e perseverança no processo de mudança de paradigmas e hábitos, mas que indubitavelmente valerão a pena.

Descontrole emocional e autoconhecimento:

O descontrole emocional é normalmente acompanhado por arrependimentos que muitas vezes são irremediáveis. Impossível voltar atrás no tempo no que foi dito ou feito. Ações impensadas e precipitadas podem desgastar ou mesmo arruinar nosso campo relacional, bem como a vida pessoal, afetiva, profissional e social. A tranquilidade, o discernimento, a tolerância e a paz de espirito são atributos que podem ser desenvolvidos através do autoconhecimento. Basta se propor a dar o primeiro passo para desenvolver competências individuais e relacionais. O resultado disto será uma vida mais gratificante e feliz.

O trabalho psicoterapêutico:

O psicólogo é um profissional que pode nos ajudar muito nesta caminhada íngreme, tendo como proposta o investimento no paciente ou cliente para que este seja melhor para si, para os outros e para o mundo. No entanto,  ninguém será detentor de um conhecimento que é da própria pessoa. Como catalisador de processos de mudanças e de autoconhecimento, o psicólogo indaga, perscruta, leva à questionamentos que promovem escolhas, mudanças e respostas existenciais que somente o paciente fará e concluirá através dos insights psicoterapêuticos. E como disse Sócrates, o pai da Filosofia:

“Se o que tu procuras não achares primeiro dentro de ti mesmo, não achará em lugar algum”.

Em meu projeto: “Consultoria Estratégica em Avaliação Emocional”, elaborei dez questionamentos utilizados na minha prática clinica e que são norteadores na verificação do grau de autoconhecimento. Estes objetivam  promover  insights dos pontos que porventura as pessoas necessitem rever e aprofundar. Vale a pena fazer estes autoquestionamentos:

autoconhecimento (1)1- Você é consciente dos valores que norteiam a sua vida?

2- Você desenvolveu a habilidade de vivenciar o momento presente?

3- Você se auto-observa? Observa seus gostos, preferencias, tendências, queixas e desconfortos?

4- A vida que você tem hoje é consequência de escolhas conscientes?

5- Você tem intimidade com suas emoções ou age “no automático”?

6- Quais as experiências que se repetem com frequência em sua vida?

7- Você é satisfeito e realizado com a sua vida?

8- Você permite uma conexão com seus processos mais profundos, ou seja, você não foge de si mesmo, nem procrastina o início de processos de mudanças quando você se comporta de maneira inesperada?

9- Quais são suas carências, suas insatisfações, inseguranças e frustrações?

10- Você apresenta comportamentos ou reações inesperadas seguidas de arrependimentos?

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Soraya Rodrigues de Aragão
Dinâmica de Grupos (LDG), capacitação em Prevenção ao uso de Drogas pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), é Sócia da Sociedade Italiana de Neuropsicofarmacologia e membro da Sociedade Italiana de Neuropsicologia. Desenvolveu o projeto intitulado: “Consultoria Estratégica em Avaliação Emocional”.



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