Por Daniel Mediavilla

Muçulmanos são terroristas, os partido de esquerda provocam engarrafamentos nos países que governam e feministas são muito exageradas na verdade. Muitas dessas afirmações nos soam mais ou menos atraentes dependendo de nossa ideologia. E é provável que aceitemos ou rejeitemos cada uma sem prestar muita atenção aos fatos. Nosso cérebro é limitado e tem que nos ajudar a sobreviver em um entorno inalcançável, e a vida é curta demais para sairmos comprovando fatos a cada instante. Os preconceitos e as ideias pré-concebidas nos ajudam a administrar a realidade criando uma simulação com a qual se deve avançar. Há indivíduos com mais espírito crítico, mas ninguém está imune a essas tendências.

 

“Estamos todos aprisionados em nossos cérebros, que é muito limitado e inclinado a erros, analisando um mundo infinito e tentando entendê-lo”, explica Andrew Newberg, pesquisador da Universidade da Pensilvânia e autor do livro Why We Believe What We Believe (Por que acreditamos no que acreditamos). “Em última instância, nunca temos certeza absoluta se nossa interpretação do mundo é precisa. Com base na informação que encontramos, desenvolvemos crenças sobre o mundo baseadas nas funções de nosso cérebro. Nosso cérebro é uma máquina de criar crenças”, conclui.

Alguns pesquisadores sugerem que o funcionamento dessa máquina e sua maneira de gerar crenças se parecem com a de outros órgãos que nos ajudam a sobreviver. Sabe-se, por exemplo, que o sistema que cria os sabores no córtex cerebral, integrando sinais procedentes do olfato, da visão e das papilas gustativas, nos deu uma maior flexibilidade na hora de escolher alimentos concretos que nos fazem bem. Cientistas como Sam Harris, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), utilizou aparelhos de ressonância magnética funcional para analisar as reações de vários voluntários diante de diferentes afirmações que poderiam considerar como verdadeiras, falsas ou incertas.

Em um artigo publicado em Annals of Neurology, junto com outros pesquisadores, ele conclui que, apesar de na hora de determinar a veracidade ou falsidade de um argumento são acionadas regiões envolvidas em processos cognitivos elevados, a decisão final depende de um sistema de processamento mais hedonista e primitivo situado no córtex pré-frontal e na ínsula anterior.

“As redes sociais são majoritariamente disseminadoras de emoções e a sociedade mediática é cada vez mais uma farsa”
Como no caso de um sabor, nosso cérebro cria uma experiência emocional a partir das afirmações. O que nos parece correto gera uma resposta positiva automática. O que soa falso gera repugnância. Isso terá efeitos no futuro: acreditamos em algo porque aquilo nos faz sentir bem. “Quando as pessoas desenvolvem uma crença particular, inclusive alguma que se contradiz aos fatos, o cérebro continua sustentando essa crença”, afirma Newberg. “Os neurônios que se ativam juntos se conectam. Quanto mais cremos em algo, mais forte se torna a crença, até mesmo diante de uma enorme quantidade de dados que a contradigam. Não tem nada a ver com a inteligência”, diz.

Álvaro Rodríguez-Carballeira, professor de Psicologia Social na Universidade de Barcelona, na Espanha, não está otimista quanto à possibilidade de que no debate público o racional domine o emocional. “Do ponto de vista da persuasão, sempre teve mais impacto. Convencer com argumentos e com rigor é muito mais complicado do que fazê-lo com emoções, capazes de comover e de gerar esperanças”, explica. Nesse sentido, ele não considera que a situação tenha mudado. Tampouco lhe agrada o termo pós-verdade, para referir-se à desvalorização dos fatos na discussão política. “O fenômeno é clássico, mas agora as redes sociais o multiplicaram. O “Yes, we can” [slogan da campanha de Barack Obama em 2008] é puro desejo, pura emoção, como é o “Make America great again” [slogan da campanha de Donald Trump]. Nas redes sociais, tudo o que se torna viral tem a ver com o que produz um impacto emocional – e não com o fato de haver por trás um argumento brilhante e coerente que desmonte o dos outros. As redes sociais são majoritariamente disseminadoras de emoções, e a sociedade mediática é cada vez mais uma farsa”, afirma.

Junto com a predominância de aspectos emocionais face aos racionais, Rodríguez-Carballeira sugere que nossa dificuldade para aceitar argumentos que não se ajustem a nossa ideologia tem a ver com “um princípio geral do comportamento humano, que é conservador”. “A realidade, desde o momento em que você a percebe, é uma realidade construída. E você se une à construção da realidade feita por aqueles próximos a você”, indica. “Isso está relacionado à ideia de que ‘ganhem os meus para que o que é nosso perdure, porque considero que assim me cairá melhor’. Por isso, aceitamos com mais credulidade o que vai de acordo com nossa linha de pensamento. Engolimos muito mais por aquilo que reafirma o que é nosso”, conclui. Mudar de ideia, no entanto, é como deixar uma droga, porque deixar-nos levar por nossos preconceitos nos dá prazer.

TEXTO ORIGINAL DE EL PAÍS

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