A adolescência é o período no qual se dá com maior intensidade o desenvolvimento psicossocial do indivíduo. Este termo faz referência ao desenvolvimento das habilidades que a pessoa utiliza para se relacionar com o mundo (capacidade de introspecção, previsão de consequências, habilidades sociais de comunicação, reconhecimento e manejo das emoções, entre outras). Significa que, nesta etapa da vida, o nosso universo interior ainda está em organização e que, por isso, tudo tem um colorido diferente.

Então não adianta olharmos para as atitudes dos nossos adolescentes com a mesma lente com a qual nos voltamos ao “mundo dos adultos”. A legislação brasileira nos convida, no artigo 6º do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a olharmos para a “condição peculiar” da pessoa em desenvolvimento. A Psicologia e as neurociências amparam esta visão. Ao tratarmos a criança e o adolescente como “miniadultos”, nós negligenciamos a atenção substancial que a eles precisa ser constantemente dispensada.

Se o desenvolvimento saudável do adolescente já é atravessado por coloridos extravagantes na área da emoção (pense, por exemplo, na intensidade com a qual você vivenciou o término das suas primeiras vivências amorosas na adolescência), quanto mais quando ele é acometido por algum transtorno de saúde emocional. A depressão, por exemplo, um dos transtornos mais prevalentes na adolescência, assume formas diferentes daquelas com as quais estamos acostumados quando adultos.

Sintomas como apatia e desalento pouco aparecem. O adolescente tem dificuldades em reconhecer, nomear e manejar as próprias emoções negativas e a depressão tende a se manifestar em hostilidade e agressividade nesta etapa da vida, sobretudo nos adolescentes do sexo masculino. Agravantes para este quadro são a pouca capacidade apresentada pelo adolescente em perceber os riscos e consequências das próprias atitudes e o urgente imediatismo que sobrevoa cada uma delas.

Na adolescência, cada escolha parece ser definitiva e isto é fator de grande comoção. Cada passo é intensamente vivido, o que ofusca a capacidade de o adolescente enxergar em longo prazo e gestar a própria vida emocional. Comportamentos autoagressivos aparecem como forma de se livrar de todo o peso interior experimentado. O uso de drogas é o mais comum destes comportamentos de fuga e esquiva. Em meninas, especialmente, é comum relatos de autoagressão, por exemplo, provocando pequenos cortes sobre a pele.

Não é algo livre e racionalmente planejado, mas antes um impulso irrefletido de se livrar da “dor sem nome” que acomete o adolescente deprimido. É a forma mais gritante de pedir socorro. É nesse contexto que o suicídio se torna uma possibilidade. O comportamento autoagressivo ganha proporções que fogem ao controle da pessoa. A exposição ao risco (por exemplo, a partir do “jogo de estrangulamento”, que circula pela internet, ou dirigindo perigosamente, etc.) libera, para o organismo, neurotransmissores que, momentaneamente, disfarçam o vazio interior ocasionado pela depressão. O adolescente não quer morrer, mas, sim, acabar com a dor, parar de sofrer.

Depressão é alteração neuroquímica. O adolescente não é o culpado do próprio sofrimento. A depressão não escolhe cor, idade, sexo, classe social. Ela chega silenciosa e, quando nos apercebemos dela, muitas vezes, já houve estragos. Ela é considerada o “mal do século” devido a sua alta prevalência na população geral e, atualmente, notoriamente em crianças, adolescentes e jovens.

Pais e educadores precisam estar atentos especialmente a mudanças repentinas no comportamento dos jovens. Toda mudança brusca é sinal de que algo diferente do habitual está acontecendo.

Estimular e propiciar o diálogo na família também é fator de proteção. Os adolescentes investem muito tempo em relações superficiais, sobretudo a partir da ascensão das redes sociais online. Atualmente, poucos vivenciam estar em uma relação de confiança e de boa qualidade, principalmente com adultos; e isto é importante para o desenvolvimento psicossocial do adolescente. A comunicação positiva não versa apenas sobre assuntos corriqueiros, mas se interessa pelos sentimentos, pelas vivências interiores do adolescente. É importante encontrar meios de tocar no universo emocional da criança e do adolescente, de fazê-los sentir-se acolhidos naquilo que têm de mais profundo e significativo em si: os próprios sentimentos e impressões de mundo.

E, à sombra de qualquer sintoma, é fundamental procurar ajuda. O educador da escola, o padre da igreja, o vizinho mais velho, as pessoas do nosso cotidiano têm muito em que ajudar nas situações de crise que enfrentamos. Detectadas situações mais complexas, todavia, é essencial buscar ajuda profissional especializada (psicólogo, psiquiatra etc.).

Depressão tem cura! Procure ajuda!

Imagem de capa: Shutterstock/cheapbooks

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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DANILO CICONI DE OLIVEIRA
DANILO CICONI DE OLIVEIRA é psicólogo (CRP 06/123683) e bacharel em Psicologia (USP), graduando em Pedagogia – Licenciatura (CLARETIANO) e especialista em Psicopedagogia (UNINTER). Sua trajetória profissional se destaca especialmente pela atuação junto a adolescentes e jovens. Como educador, dedicou-se a intervenções socioeducativas com adolescentes judicializados e, atualmente, à formação / treinamento de jovens em contextos de aprendizagem corporativa, assim como à docência no ensino superior. Sua formação complementar é marcada por atividades formativas relativas a programas de prevenção e intervenção psicossocial na juventude e a questões atinentes ao processo ensino-aprendizagem, particularmente no tocante às novas tecnologias de ensino e à contextos organizacionais de educação. Psicólogo clínico, atua na cidade de São João da Boa Vista – SP.

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