Desfavor convidado: Borderline.

Transtorno de personalidade borderline.

Esqueça o Google nesse momento e preste atenção no que vou dizer, pois o tormento de ter um transtorno de personalidade borderline (ou limítrofe) vai além dos critérios descritos em qualquer site que você leia.

E se você ler algo e se identificar e se auto diagnosticar como “borderline”, tenha em mente que muitos dos traços de alguém com um transtorno é comum em várias pessoas, o que se torna um problema, é a intensidade, quando ele lhe impede de viver. Muitas pessoas, jovens, se sentem diferentes, passam por oscilações de humor, acreditam ter e, também, pensam que um transtorno é uma resposta “Ah, então por isso eu sou assim”. Não, é, sobretudo dor e fúria, sem glamour algum. “Ser normal demais é chato”, não consigo descrever o quão ofendido eu me sinto quando com tal comentário. Somente quem não é uma pessoa perturbada, atormentada, pode falar algo assim. E também, alguém ignorante quanto ao tema.

Eu, diagnosticado há anos, somente consigo me sentir um tanto quanto normal quando estou medicado por drogas diversas: Antidepressivo, moderador de humor, antipsicótico e, por vezes, ansiolítico. Nenhuma dessas substâncias é natural ao nosso organismo, que reage a elas nem sempre de uma forma muito agradável ao paciente, os efeitos colaterais são diversos:

Sono em excesso, náuseas sem fim, fraqueza nos membros, diarréia, cefaléia, insônia. Entre outros tantos. Meu coquetel não me causa impotência, mas há quem precise de outras drogas em dosagens que cause isso sim. O mais normal que posso ficar é dopado. Com o cérebro trancado em uma jaula e um sentimento de estar alheio ao mundo. O comum é sentir que estou pisando em gelatina.

Espero que até que você leitor conclua a leitura, a ilusão e a glamourização do que é ter transtorno tenha começado a ser transformada.

Ter um transtorno não é como ter um adesivo para deficientes que lhe concede uma vaga especial, existe pouca empatia por parte das pessoas, poucos parceiros entendem que uma das principais características é o medo do abandono, que são comuns esforços frenéticos para evitar ficar sozinho, necessidade constante de não se sentirem sem apoio. Qualquer ato mínimo do parceiro irá fazer com que o TPB se sinta rejeitado, desvalorizado e, isso irá desencadear uma crise.

Mas as crises não ocorrem somente em relacionamentos homem-mulher.

Lembro que me por anos minhas notas no colégio a cada bimestre eram as máximas, esperava elogios, mas uma vez ao perguntar o motivo deles não se importarem com isso, ouvi “Sei que não preciso me preocupar com você, além disso, estamos sempre preocupados com seu irmão”. E em seguida sempre escutava um elogio para ele. Reação agressiva minha, provocava alguma briga, discussão, chorava de dor e ódio. Em seguida, depressão.

Hoje você diz bom dia sorrindo, amanhã está de mau humor (como qualquer pessoa normal), diz um bom dia diferente e, o TPB, com seu ego frágil e doentio pensa “Ela mudou comigo!”, “Ela não gosta mais de mim”, o que desencadeia uma discussão ou simplesmente um afastamento da pessoa, pois ele irá vê-la como alguém ruim, má, que não gosta dela e não merece sua consideração. E também a auto-imagem que um borderline faz de si mesmo oscila entre se sentir o máximo, poderoso e, sentir-se um uma pessoa ruim, um paria. A aparência também é algo preocupante, se sentem feios, inclusive indignos do parceiro. É comum a distorção da imagem (inclusive alguns borderlines desenvolvem transtornos alimentares, entre outras comorbidades possíveis).

A rápida valorização, idealização, diante de recém conhecidos e, uma desvalorização que ocorre na mesma velocidade, faz com que o borderline se envolva em relacionamentos conturbados, instáveis. Isso se repetindo em um ciclo doentio.

Por vezes, a inteligência emocional de um TPB beira a de uma criança de cinco anos. E uma criança má e mimada, porque borderlines sabem como ser cruéis e colocar o dedo na ferida, por vezes, até são violentos.

Quando estou hiperativo penso em mil coisas, as quais naquele momento fazem sentido, entro em discussões banais, agrido com palavras pessoas pelas quais tenho carinho. Mas quando passa esse estado, tenho consciência dos estragos, depressão. “Sinto muito eu não queria ter dito aquilo, não penso assim de verdade, eu não sou assim”. Discurso comum. Como resultado, pessoas importantes pra mim acabam se afastando.

A impulsividade leva um TPB a se envolver em brigas, por vezes corporais. Eu até pouco tempo andava com um soco inglês no bolso, já desci do carro com extintor de incêndio na mão, em uma discussão no trânsito. Já joguei meu carro em cima de outro, de uma senhora.

Eu sempre escuto uma voz dizendo “você tem de fazer isso”, a tristeza, o vazio, essas emoções costumavam me levar ao uso de qualquer coisa pra me fazer fugir da realidade, bebida e outras coisas mais, mas gastar também me fazia bem. Os mesmos sentimentos que me motivavam a isso retornavam mais fortes, pois vinham acompanhados de um remorso, culpa, sensação de fraqueza e impotência. Não que eu tenha eliminado isso.

Existe para o borderline um risco aumentado para prática de sexo promíscuo, gastos compulsivos, abuso de substâncias, automutilação e menos comumente, se queimam. Um colega, 45 anos, é adicto e entra e sai de clínicas de reabilitação. Tentativas de suicídio são comuns, algumas são feitas no desespero, sem premeditação; uma tentativa de parar a dor. Outras são realmente para chamar a atenção. “Eu existo, se importe comigo, me ame”. Ao menos três colegas de um grupo de borderlines que eu freqüentava se suicidaram.

Causas? Pré-disposição genética aliada com fatores externos é o mais comum, os meus foram alguns, como abusos de diversas formas: Sexual, moral; Agressões e abandono; Ausência dos meus pais e suas atenções; Predileção pelo seu primogênito; austeridade paterna motivada pelo álcool em seu sangue. Costumo fazer a analogia de que tenho um software ruim, instalado em um hardware defeituoso.

Lembranças de ouvir “Como você é feio”, “Você é uma criança má”, e os abusos, os quais fui compreender durante a pré-adolescência, esses fatos me danificaram e penso não ter conserto, somente pequenos reparos pra ir sobrevivendo.

Vivo com um excesso de sensibilidade, como se tivesse sofrido uma queimadura de terceiro grau, um inferno que beira a loucura, aonde o mínimo fator já altera o meu humor e, as reações nunca são ponderadas ou saudáveis. Sofro com as incertezas sobre minha carreira, muitas mudanças de círculos de amizade, relacionamentos instáveis, personalidade indefinida, sem identidade… Sempre olhando pra fora, nas outras pessoas, agindo feito uma esponja, adquirindo trejeitos, gostos, mentindo pra elas e pra mim mesmo, apenas querendo encontrar meu lugar nesse mundo.

Até esse ponto talvez você pense “Mas todo mundo é assim”, volte e releia aonde eu falei que a chave é a intensidade, e se alguns desses aspectos atrapalham sua vida, um tratamento é necessário. Além do uso da medicação, a psicoterapia é importante, creio que hoje seja capaz de manter uma relação saudável um dia, talvez filhos, estou mais sociável e tenho mantido amigos, uma vida. Ainda tenho meus surtos, como no momento em que sentei para escrever esse texto que editei , pois enquanto eu o escrevia, meu humor foi mudando.

O tema é vasto, existem diversos livros, para transtornados e familiares, o melhor é o “Pare de pisar em ovos”, uma busca rápida pelo Google lhe retornará resultados sobre esse livro. Não tinha como evitar exemplos pessoais, creio ter sido a melhor forma de tentar elucidar um pouco sobre o tema.

Minha vida poderia ter sido outra, minha carreira e relações foram prejudicadas. Mas nunca usei qualquer desculpa para minhas atitudes, nem me coloco em um grupo de “Intocáveis”, pois não me interessa piedade e compaixão. Também desprezo pré-conceito.

TEXTO ORIGINAL DE DESFAVOR

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