A dor de quem fica: Os sobreviventes do suicídio

Por Amanda Mont’Alvão Veloso

 

 

“Como tudo que amedronta, o suicídio é evitado pelas pessoas, mas o efeito provocado pelo silêncio é devastador e se prolonga por uma cadeia de sofrimento: ele impede quem pensa em tirar a própria vida de expressar suas angústias; incapacita amigos e familiares de abordar o assunto diretamente; e, por fim, alimenta a dor dos que perdem alguém para o suicídio.”
O trecho acima é extraído do livro Suicídio, o Futuro Interrompido – Guia para Sobreviventes (Geração Editorial, 2008), da jornalista Paula Fontenelle. A publicação é um pungente relato em primeira pessoa: o suicídio do pai dela deu origem a uma desbravadora e dolorosa investigação sobre o ocorrido e sobre o que se passava com o pai.

Em vez de se render à marginalização que envolve o suicídio, Paula não só enfrenta esse assunto, como o faz sem qualquer tipo de sensacionalismo, glamurização ou romantização. Tais aspectos realistas ficam ainda mais evidentes ao se falar de quem fica e dos sentimentos de saudade, dor, tristeza, perplexidade, raiva e impotência que rondam os familiares e amigos.

Não se trata de compartilhar detalhes da vida privada como maneira de despertar compaixão ou expurgar algum tipo de sentimento represado pelo silêncio. O objetivo de exposições como a dela é mostrar a emergência do suicídio em uma sociedade que não tolera o sofrimento e contextualizar as mortes voluntárias com aspectos fora do nosso suposto controle individual, como uma confusão mental, uma dificuldade incontornável de visualizar uma saída, um desespero impulsivo ou mesmo um problema de saúde mental.

O suicídio de uma pessoa amada dá um novo tom às vidas que ficaram: diante dos efeitos da tragédia, é preciso sobreviver. Não à toa, as pessoas deixadas para trás são chamadas de sobreviventes, e cada dia seguinte ao suicídio é uma verdadeira superação.

Como prosseguir diante de uma ausência que se faz presente todo o tempo e define as relações pelos próximos dias, meses e anos? Como ficam as conversas e as tarefas do cotidiano? Como lidar com os julgamentos trazidos por um ato tão obscurecido e estigmatizado por nossa cultura?

As emoções geradas entre os sobreviventes variam. Em alguns casos, sentimento de culpa, “especialmente quando houve uma relação de dependência ou quando o suicídio ocorreu no contexto de uma dinâmica familiar alterada”, afirma ao HuffPost Brasil o psicólogo Marco Antonio Campos, representante do Chile na Associação de Suicidologia para América Latina e Caribe e participante do Simpósio Internacional de Prevenção do Suicídio, organizado pelo Centro de Valorização da Vida (CVV).

“Além da culpa, há pessoas que experimentam vergonha particularmente em contextos sociais em que o suicídio é condenado ou visto como conduta imprópria. Isso está intimamente ligado às influências religiosas e culturais.” A raiva que se tem do suicida é outro sentimento possível de aparecer durante o processo de luto, acrescenta Campos. “Neste caso, o enlutado muitas vezes experimenta o suicídio da pessoa querida como um ato que lhe gerou danos. ‘Olha o que você fez para mim’ ou ‘Por que fez isso comigo?’, pode dizer o enlutado.”

Culpar outras pessoas é outra forma de lidar com a dor, como uma mãe ou um pai culpar o outro progenitor pelo suicídio de uma criança.

“O luto em si é um processo natural e esperado para se lidar com a morte; porém, o luto por suicídio tem características e temas específicos que precisam ser trabalhados, como os sentimentos de culpa, vergonha e a busca incessante do porquê. Pesquisas demonstram que os efeitos desse luto tendem a ser mais intensos e duradouros”, assinala o site do documentário Elena, realizado pela cineasta brasileira Petra Costa para entender o suicídio da irmã, que dá nome ao filme.

Quando os sobreviventes possuem algum problema de saúde mental, é comum observar respostas como alcoolismo, uso de ansiolíticos e antidepressivos. Outra reação possível, e mais dolorosa, é a raiva de outros membros da família, expressa na frase “melhor que você estivesse morto”, destaca Campos.

Por fim, outra possibilidade é que a família aceite a realidade da perda e do suicídio como uma decisão pessoal do seu ente querido, explica o psicólogo. “Essas pessoas tendem a fazer um luto mais pacífico e dentro dos limites do que podemos chamar de um luto saudável. Geralmente, nesses casos, o suicida e sua família vinham falando sobre isso muitas vezes antes de o suicídio ser consumado.”

“Infelizmente os sobreviventes, muitas vezes, se sentem culpados e podem caminhar para situações graves de sofrimento”, destaca o psicanalista Roosevelt Cassorla, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professor da Unicamp. Ele enfatiza que é muito importante que os sobreviventes também sejam ajudados.

O suicídio é também um ato agressivo em relação à família, amigos e sociedade. O suicida denuncia que a sociedade não o compreendeu ou foi incapaz de ajudá-lo. A acusação geralmente é injusta porque a família e amigos não têm como lidar com um sofrimento mental insuportável.

O atendimento aos sobreviventes do suicídio e da pessoa que sobreviveu a uma tentativa suicida é chamado de posvenção. Segundo a Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (Abeps), estima-se que 60 pessoas sejam intimamente afetadas em cada morte por suicídio, incluindo família, amigos e colegas de classe.

Os objetivos da posvenção são: trazer alívio dos efeitos relacionados com o sofrimento e a perda; prevenir complicações do luto, como um luto traumático; minimizar o risco de comportamento suicida nos enlutados; e promover a resistência nos sobreviventes.

“Acredita-se que a posvenção é também prevenção para futuras gerações, já que lida com possíveis complicações no processo do luto e com possíveis comportamentos suicidas que apareçam em decorrência do luto”, descreve o site oficial do filme Elena.

Quando a família percebe

Talvez um dos sentimentos mais unânimes entre os sobreviventes seja o angustiante “o que eu poderia ter feito para que isso não acontecesse?”. É o tipo de pergunta cuja resposta é ambivalente, pois expõe a dimensão real e preventiva do suicídio – 9 entre 10 suicídios poderiam ser evitados, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) – e também a impotência dos familiares e amigos perante um ato que não é 100% evitável.

Mas é possível educar famílias e amigos a identificarem precocemente situações de vulnerabilidade, isto é, pessoas com sofrimento mental. E essa sensibilidade envolve também o cuidado com as palavras, sobretudo aquelas que deixam a pessoa ainda mais angustiada, destaca Cassorla. Essas pessoas devem ser acolhidas, compreendidas e encaminhadas para profissionais. Por vezes, a internação pode ser necessária, para proteger o paciente de si mesmo:

“Conselhos de ‘bom senso’ raramente ajudam e são contraproducentes quando o paciente não tem condições de segui-los. Por exemplo, frente a depressões graves, não adianta ‘forçar’ o paciente a sair ou a fazer coisas. Como ele não consegue, os ‘conselhos’ acabam fazendo que ele não se sinta compreendido, o que aumenta seu desespero.”
A escola é também espaço de prevenção

Assim como familiares e amigos, a escola, por meios dos professores e colegas, também pode oferecer acolhimento e ajuda para uma criança ou adolescente que está pensando em suicídio. A abordagem do tema depende da faixa etária, e o cuidado é o mesmo que se deve ter na imprensa: o assunto deve ser abordado de forma franca, sem sensacionalismo, como recomenda o psicólogo Enrique Bessoni, analista do Núcleo de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas da Fiocruz Brasília.

“Deve-se apresentar alternativas para acolher e apoiar aqueles que demonstrarem e ou solicitarem ajuda.”

Segundo o psicólogo, o pedido de apoio pode vir também de alguém que ouviu uma confidência de planos de suicídio, de quem descobriu as intenções suicidas de alguém próximo e não sabe como agir, ou daqueles cujo sofrimento intenso passa a afetar o cotidiano escolar.

“A criação de um espaço, como uma roda de conversa permanente sobre situações de saúde, em que o tema seja abordado com o suporte de profissionais, pode colaborar para a ideia de que existe apoio disponível. Isso ajuda em momentos de prevenção e de intervenção”, finaliza.

A OMS possui uma cartilha com orientações aos professores e educadores sobre como prevenir o suicídio. O documento pode ser acessado aqui.

TEXTO ORIGINAL DE BRASILPOST

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