As perdas são experiências dolorosas que podem fazer eclodir sentimentos de desamparo, abandono e, não raro, desespero.

Por tudo isso, o luto é fenômeno psicológico com desdobramentos emocionais significativos. E dizemos que o luto é uma travessia, por ser um percurso que precisa ir da dor da perda até a completa ressignificação dos pesares que a acompanham.

Compreender esse trajeto que vai da dor da perda até a perda da dor implica a necessidade de se conhecer os aspectos envoltos nas perdas em geral.
De início, é necessária a compreensão de que a vida é tecida na alternância de ganhos e perdas, ou seja, é impossível viver sem contabilizá-las. Assim sendo, aprender a lidar com sentimentos envoltos nessas experiências é tarefa inapelável.
Outro aspecto a considerar é que há diferentes tipos de perdas, existindo uma reação distinta para cada frustração, prejuízo, desilusão ou luto que possa se abater sobre nós.

Acrescente-se a isso, o fato de que a vivência da perda é atributo singular e específico, sendo que cada pesar é vivido com os filtros da percepção de quem o sofre. Assim, perder o emprego do qual se depende para sobreviver é sempre um golpe que trará transtornos, mas a estatura e o modo como isso será vivenciado serão únicos como impressões digitais. Toda perda significativa traz algum tipo de pesar, mas a despeito do caráter trágico das consequências de algumas perdas, nada se compara à melancolia imobilizante vivida nos episódios de luto por entes queridos.

Há uma inumerável lista de afetos presentes no luto: perplexidade, aflição, agonia, revolta, culpa e, ás vezes, até remorso e tudo envolto em tristeza e carregado de dor.

Em desdobramento a esses afetos, não é incomum, à dor do luto virem associados sentimentos de raiva de si próprio combinados à hostilidade em relação ao mundo e descrença quanto ao próprio sentido da vida. O enlutado sente a perda como uma condenação a uma ausência definitiva que o leva a sentimento de solidão existencial que produz em esteira, sentimento de desamparo e desespero.

O desamparo é a sensação de ter sido arrancado de tudo o que nos mantinha seguro e parece estar na base das reações presentes no luto.

O desespero é sensação de que não é mais possível desejar algo em relação a quem perdemos que traz a crença de que fomos anulados como seres capazes de desejar. Daí, sentimos uma diminuição da vontade de viver (é como se morrêssemos um pouco com quem partiu). Por isso, o filósofo dinamarquês Sorën Kierkegaard diz que o desespero é o aniquilamento do desejo.

Quando perdemos um ente querido, realmente sentimos como se não pudéssemos desejar nada além da restauração da sua presença. A ligação profunda com o ente querido grita tão alto que sufoca o desejo de ultrapassar a circunstância. Apesar da diferença na forma como pode ser vivenciada a perda, há um itinerário comum percorrido pelo sofrimento, cuja compreensão pode nos ajudar na travessia saudável do luto.

Primeiro, há um desesperar-se; depois, ficamos emocionalmente paralisados; em seguida, chega o momento da retomada por diferentes caminhos.

Nesse trajeto da dor, é fundamental não castrar a expressão do enlutado. Exprimir-se o ajudará a recuperar o estado emocional mais próximo de como se sentia antes da perda. O lamento do enlutado, além de proporcionar o necessário extravasamento da crise que o comprime, é exercício de intimidade com a dimensão espiritual. O lamento, seja expresso por meio de choro, prece, queixume, ou qualquer outra manifestação de inconformismo traz alívio e ajuda a redimensionar a dor.

Freud, em ‘Totem e Tabu’ reafirma o papel curativo da vivência e expressão dos sentimentos de perda. Ele diz: ‘o luto tem uma função psíquica de desligar dos mortos as lembranças e esperanças dos sobreviventes.’. Para o Pai da Psicanálise, quando há a elaboração satisfatória do luto, os mortos se transformam em doces lembranças, em ancestrais ou entes reverenciados para os quais dedicamos não apenas carinho, mas aos quais nos voltamos, inclusive, por meio de pedidos de ajuda, direção e alento em horas difíceis.

Para Freud, a adequada elaboração do luto afasta-nos do remorso e da autocensura que costumamos nutrir por continuarmos vivos, após a partida de quem éramos parte.
Na retomada pós-perda, é a afetividade que nos religa de volta à vida, pois o amor que nos faz temer a morte dos que amamos, é, também, o que reaviva a busca de sentidos, para além da existência de quem se foi. Os vínculos que nos ligam a entes queridos que não partiram é a âncora firme que nos reconecta à vida. Os que permanecem vivos continuam precisando de amor e nossa capacidade de partilhar afeto não morre com quem perdemos.

E é a consciência absoluta dos vínculos que temos com os amigos e familiares que vai suavizando a dor e a substituindo pelo amor partilhado com quem ficou. Assim, a experiência da dor se transforma e fortifica relações, transmutando a dor do luto em desejo de luta para uma vida nova.

Em razão disso, são essenciais as trocas afetivas nas famílias e grupos de enlutados. Uma transição plena de afetos dos que se mantém unidos, confortando-se mutuamente, é pilar na ressignificação da perda. Enfim, os intercâmbios afetivos são essenciais. Eles ajudam a perceber que a presença dos que amamos é eterna e independe da existência física, além de favorecerem a incorporação saudável da memória de quem se foi.

Imagem de capa: Shutterstock/Stock-Asso

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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Liduína Benigno Xavier
Psicóloga, Mestre em Educação, formação em Facilitação de Processos humanos nas organizações, a escritora é consultora organizacional há mais de vinte e cinco anos; É autora do livro: Itinerários da Educação no Banco do Brasil e Co-autora do livro: Didática do Ensino Corporativo - O ensino nas organizações.Mantém o site: BlogdoTriunfo que publica textos autorais voltados ao aperfeiçoamento pessoal dos leitores e propõe reflexões que ajudam o leitor a formar visão mais rica de inquietações impactantes da existência.

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