O debate sobre as relações de gênero era delimitado ao meio acadêmico, mas hoje esse assunto ocupa destaque nas pautas do Poder Judiciário, na internet e levam milhões de ativistas irem às ruas protestar contra projetos de lei, que buscam restringir direitos das pessoas de orientação homossexual e das pessoas com identidade transgêneras.

Infelizmente, ainda a temática sobre gênero carrega uma pesada carga de preconceito, que insiste na tese: “coisa de homem” e “coisa de mulher”. Contudo, em muitos países essa ideia arcaica está perdendo força. Apesar disso, é possível falar de Freud sem falar de sexualidade? É possível falar da sexualidade sem falar de relações de gênero? A resposta é não, pois Freud utilizou, no lugar certo, os termos masculinos e femininos para desconstruir esse preconceito, afirmando que:

  • O biológico, equivalente ao sexo, que é o efeito no corpo das gônadas produtoras de espermatozóides e óvulos;
  • No sentido de atividade e passividade, que é o mais utilizado por ele;
  • O sociológico, que diz que seres humanos mesclam comportamentos masculinos e femininos.

A perspectiva freudiana sobre o locus do masculino e feminino deu espaço para o surgimento da palavra gênero, que está sendo utilizada na medicina, na psicologia e filosofia. E para a sociologia as questões de gênero não se constituem numa ideologia. Esses estudos se iniciaram na década de 70, no cenário da revolução sexual, onde se deu a separação do conceito de sexo biológico do conceito de gênero.

O primeiro seria um fato dado, biológico, enquanto o segundo equivaleria a uma categoria social exercida por homens e mulheres de acordo com seu sexo biológico. Por exemplo, uma diferença de sexo pode ser que as mulheres tenham seios e uma diferença de gênero pode ser que os homens gostam de jogar bola.

Assim, as relações de gênero tratam das diferenças que são resultantes das construções sociais e culturais, que é uma fabricação das desigualdades sociais e da dominação masculina, não em decorrência da natureza humana. Segundo Pierre Bourdieu três instituições permitem essa dominação: a família, a escola e a igreja.

Por isso, ainda persiste o preconceito quando se refere às relações de gênero, atingindo todos os níveis de instrução, de participação econômica e de participação política. Mesmo assim, as maiorias das pessoas conhecem o significado do termo heterossexual e homossexual, um avanço positivo.

Porém, existe um aterrador desconhecimento sobre o vasto campo da sexualidade humana, compondo também neste espectro a identidade de gênero, que tem tudo a ver com a essência e a maneira como as pessoas se vêem do que com os órgãos genitais que possuem, como por exemplo:

  • Bissexualidade: pessoas que se sentem atraídas pelos gêneros masculinos e femininos,
  • Assexualidade: pessoas que não têm desejo sexual;
  • Pansexualidade: pessoa que têm atração por todos os tipos de pessoas;
  • Transgêneros: pessoa que não se identificam com as características do gênero designado a ela no nascimento.

Portanto, por ser um papel social, o gênero pode ser desconstruído, isto é, pode ser entendido como mutável e não limitado. Entretanto, é somente através do conhecimento que vamos desconstruir a heteronormatividade que foi enraizada de forma violenta na cultura brasileira.

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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Jackson César Buonocore
Jackson César Buonocore Sociólogo e Psicanalista

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