Estudos sobre o agressor ajudam a combater a violência contra a mulher

Por Carolina Dantas e Mariana Lenharo

A violência contra a mulher ocorre, na maioria das vezes, no contexto da relação de um casal. Mas, até recentemente, grande parte dos estudos sobre o tema focava exclusivamente na vítima, deixando de lado a reflexão sobre o que leva o homem a agredir e quais intervenções sobre o agressor podem impedir novos atos de violência.
Hoje, num contexto em que a Lei Maria da Penha prevê a adoção de estratégias de reabilitação para os agressores, as pesquisas sobre o homem autor de violência têm se desenvolvido com maior intensidade no Brasil e no mundo. Mas o campo precisa se expandir ainda mais, já que a falta de conhecimento do assunto dificulta a criação de políticas públicas.
O psicólogo Adriano Beiras, professor do programa de pós-graduação e do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), observa que havia, no passado, um preconceito com os trabalhos relacionados ao agressor. “Até então, se entendia que trabalhar com os homens era trabalhar contra as mulheres. O que tem crescido agora é o entendimento de que quando se trabalha com o homem autor de violência está se trabalhando para a mulher; para ele deixar de bater em outras mulheres.”
O G1 conversou com pesquisadores que optaram por analisar quem agride para descobrir o que a ciência já revelou sobre o assunto.
Perfil do agressor
A pesquisadora Anne Silva, também da UFSC, junto com os colegas Elza Berger Salema Coelho e Rodrigo Otavio Moretti-Pires, fez uma revisão sistemática dos estudos já publicados sobre o homem autor de violência contra a parceira íntima.
Eles analisaram 33 artigos de todo o mundo para tentar encontrar uma característica em comum entre os homens que chegam a agredir uma mulher, seja fisicamente, psicologicamente ou moralmente.
“A conclusão a que eu cheguei nessa revisão foi que, apesar de ter uma faixa etária que está mais relacionada e serem indivíduos com menos escolaridade, as pesquisas mostram que homens de todos os tipos podem cometer violência contra a companheira. Isso é importante levar em conta para a gente tirar da cabeça alguns preconceitos”. diz Silva.
Esta também é a percepção de Beiras.

“Qualquer homem pode cometer atos violentos, na medida em que a violência é associada com uma característica da masculinidade; existe uma naturalização da violência. Quando se estabelece um perfil focando em classe social, raça, patologias e outras questões, isso acaba por reduzir uma questão social e complexa.”

Faixa-etária, escolaridade e emprego
Quanto à idade dos agressores, os dados apontam que desde adolescentes até idosos podem agredir. A faixa etária não é algo determinante, mas, em grande parte dos casos, os homens têm entre 25 e 30 anos, segundo o estudo de Silva.

Sobre a escolaridade, o trabalho mostra que 47,6% dos homens que agridem não completaram o ensino fundamental. Ainda segundo a análise, o fato de o parceiro ser desempregado, ser aposentado ou ter um trabalho informal aumenta em quase duas vezes o risco de ele cometer violência.
Silva aponta para uma possibilidade levada em conta com relação à classe social: homens e mulheres que pertencem à classe mais alta não chegam a entrar nos dados das pesquisas. “Por enquanto, delegacias e hospitais são áreas em que as pessoas de classes mais baixas vão procurar auxílio, e as de classes mais altas vão procurar um profissional particular e não vão entrar nas estatísticas.”

 

Álcool e drogas
Um ponto que se repete nas pesquisas é a associação entre a violência contra a mulher e o consumo de álcool e drogas. Pesquisas feitas no Piauí, Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Paraná indicam que homens que bebem têm mais probabilidade de agredir mulheres com quem convivem.

 

Já o estudo coordenado por Alexandra Bittencourt Madureira, professora da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), no Paraná, que avaliou o perfil de homens autores de violência na cidade de Guarapuava, aponta que o consumo de álcool foi encontrado em 60% dos casos e, associado a outras drogas como maconha, cocaína e crack, em 7,7%. O uso de drogas isoladas foi observado em 3,1%.

“Existe essa questão de o efeito do álcool e de drogas ser usado como justificativa para a agressividade. Mas não é a bebida que faz agredir. O homem já tem essa característica da agressão e o álcool acaba sendo apenas um estopim para acontecer, não o único motivo”, diz Madureira.
Silva aponta outra situação comum em casos de violência com o uso da bebida. “Não é pelo fato de o homem estar bêbado, mas sim sobre quando a mulher palpita sobre o homem usar a bebida. Tenho encontrado muito isso nas pesquisas que tenho feito.”

O que diz a neurociência
Além dos estudos no âmbito das ciências sociais, a neurociência também tem se ocupado de avaliar os autores de violência contra a mulher. A pesquisadora Natalia Bueso Izquierdo, do Centro de Investigação Mente, Cérebro e Comportamento da Faculdade de Psicologia da Universidade de Granada, na Espanha, é uma das autoras de um estudo que comparou o funcionamento do cérebro de agressores com o cérebro de outros criminosos por meio de ressonância magnética funcional.

A conclusão do estudo, publicado em abril deste ano, foi que os cérebros dos homens que agridem mulheres funcionam de forma diferente em comparação aos de outros criminosos.
Cérebro de homens agressores (esq.) funcionam de forma diferente do que os de outros criminosos (dir.) (Foto: Universidade de Granada)

“O estudo nos permitiu entender quais são as áreas do cérebro envolvidas nos homens que agrediram suas parceiras ou ex-parceiras, o que nos ajuda a entender melhor este tipo de sujeito e, portanto, no futuro, implementar alguma melhora nas terapias que eles recebem atualmente”, afirma Izquierdo, em entrevista por e-mail.
Ela observa que, apesar de não haver um perfil único que caracterize o agressor, algumas das características mais descritas na literatura sobre esses homens são a inflexibilidade cognitiva, a presença de pensamentos distorcidos, a impulsividade e o fato de não assumir os próprios atos.
Para a pesquisadora, é difícil determinar que peso têm os fatores biológicos em comparação aos fatores sociais que levam o homem a cometer atos de violência contra a mulher. “Na verdade, para nós e a partir de nossa perspectiva, consideramos todos os fatores como um todo, já que cada ser humano é o resultado de toda essa combinação de fatores sociais, culturais e biológicos.”
Reabilitação do agressor
Beiras observa que a luta contra a violência contra a mulher priorizou, no início, a penalização do agressor, o que foi importante na época. “Agora precisamos de uma justiça mais progressista no sentido de pensar para além da criminalização, promovendo práticas psicossociais e de transformação social, centradas no retorno destes sujeitos à sociedade, respeitando direitos humanos, equidade de gênero e diversidade”, diz o pesquisador.
De acordo com Silva, a questão do machismo é um fator importante em relação à violência, mas não se pode fazer uma análise simplista. “A gente não pode de maneira nenhuma usar o perfil como uma desculpa, ou simplesmente como uma causa/efeito: se o homem bebe, ele bate; se o homem não bebe, não bate. Isso não é verdade. Por isso, quando a gente vê questão de perfil, nunca vê um fator só.”
Ainda segundo a pesquisadora, é preciso analisar todos os fatores relacionados e aproveitar as análises para trabalhar com esses agressores. “Um fator sozinho não significa nada. Na verdade o que eu tenho encontrado: a escolaridade do homem, o tipo de trabalho e a renda dele estão juntos ali trabalhando para que ele tenha uma maneira diferente de se comunicar, não saiba resolver os conflitos, acabe se envolvendo com o uso de drogas e use violência”, completa.
Segundo um mapeamento coordenado pelo pesquisador Adriano Beiras, em 2014, havia 25 serviços de atenção em grupo a homens autores de violência contra mulheres. A pesquisa foi feita no Instituto Noos, do Rio de Janeiro. Hoje, segundo dados preliminares de um novo mapeamento que está sendo conduzido por Beiras na UFSC, também em parceria com o Insituto Noos, há aproximadamente 40 grupos do tipo.
Ele enfatiza a necessidade da criação de uma política nacional para os grupos de reabilitação de homens autores de violência. “Hoje, esses grupos são feitos graças à boa vontade de organizações, ONGs, juristas e serviços que se sensibilizam para a questão. Com a mudança de gestão, os serviços terminam por falta de recursos.”
Tratam-se de grupos de reflexão coordenados por um ou dois facilitadores, que estimulam discussões sobre gênero, masculinidade e o entendimento da violência. Um dos objetivos principais é desnaturalizar a violência cometida pelo homem, ou seja, levar ao entendimento de que não é natural que o homem cometa atos violentos.

TEXTO ORIGINAL DE G1

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