Falando nas sessões de psicanálise

Por Flávio Mendes 

Você procura ajuda sem saber muito bem o que fazer. Chega ao consultório e começa falando de si e das coisas, como se a vida acontecesse e você estivesse no meio desses eventos sem entender qual o seu lugar na narrativa dos fatos. É a história da sua vida, ou da vida como você se lembra. Ali se constrói um espaço de interação para que você sinta segurança em falar de si e comece a se escutar de um jeito diferente.

Fala isso, fala aquilo, fala seguindo, escuta talvez um sussurro, um apontamento sobre determinada palavra, um sorriso, um pedido de que continue falando, quem sabe. Acha estranho não receber reprimenda, não haver irritação quanto ao que você diz, continua falando. Você tem a liberdade para falar aquilo que passa em sua cabeça, sem se preocupar é certo ou errado.

Então de repente é endereçado a você um comentário falando que essa palavra que você disse se repete, é retomada em sua fala, aparece aqui e acolá, se coloca continuamente nas suas frases marcando algo importante. Essa palavra fica voltando, revoltando, incomodando, martelando o martelão.

O endereçamento é transformado em uma pergunta: “por que será que essa palavra retorna sempre?”. Ali se pontua algo e a sessão é encerrada. Você vai embora, volta em um próximo dia, fala outras coisas, e aquela palavra se repete, é significante em sua vida.

É uma palavra que interfere em outras palavras, muda o sentido da frase que você dizia, que passa a dizer outra coisa, e produz nos ouvidos uma estranheza do tipo “O que foi que eu disse?”. Você recebe o endereçamento de uma exclamação pelo sentido produzido e vai para casa, e aquilo te coloca novas questões. Você pensa nelas e as leva para a sessão seguinte.

Seu discurso, que antes você acreditava ser organizado e certinho, pensando ter consciência e entendê-lo por completo, fica perturbado, estranho, pois muda de sentido várias vezes, acompanhando a mudança na sua escuta. Você se dá conta de não se conhece tanto como achava, e que esse desconhecimento te permite uma folga diante do seu mal-estar, mas constrói novas questões.

A história que você contava, na qual você lembrava estar perdida(o) no meio de tudo, passa a ser reconstruída com você em uma posição diferente, não de observador(a), platéia, mas de atriz/ator, de principal e não coadjuvante.

Isso pode produzir alguma vergonha por você identificar seu outro lugar na trama de sua vida. No entanto, ali se aponta a possibilidade de aparecimento de algo novo, de uma descoberta, e isso te instiga. Essa experiência de falar livremente te implica e convoca a tentar descobrir aonde você chegará, até onde é possível ir, qual o limite desse processo.

De um jeito ou outro você continua, volta e fala algo mais. Por mais estranha que te pareça essa situação inusitada, falar na análise produz esse sentimento de que você está fazendo passagens o tempo todo, e quando tenta se curvar para voltar, não consegue, pois só é possível ir para frente.

É assim que você fica cada vez mais envolvida(o), responsável e inventiva(o) com as coisas que vive, faz e fala. E o caminho que você faz, essa experiência que é chamada de análise, é a própria construção de frases que sofreram interferências das palavras surgidas quando você falava e que ali se intervinha, apontando para um sentido: não é possível voltar atrás, a não ser que se vá para a frente.

Coincidentemente, essa é a maneira como funciona uma frase: você não consegue desdizer o que disse, o que consegue é dizer algo novo sobre aquilo que tentou desdizer, pois não há como apagar o que se falou, mas é possível fazer algo diferente com isso. É desse jeito que acontece praticamente tudo em nossa vida: só corrigimos as falhas que vivemos construindo algo novo que as rearranje.

Não dá para corrigir uma falha a não ser adicionando algo novo. Não dá para dizer que fez sem querer, a não ser assumindo que no sem querer há um querendo. Não dá para voltar, só seguir em frente. Ali se sustenta esse ânimo, essa vontade de seguir adianta, mesmo que você desanime, achando que não conseguirá, embora haja dificuldades.

Isso é um pouquinho das sessões de psicanálise, um pedacinho delas.

É só um começo.

O lugar da palavra na Psicanálise:

Talvez você tenha notado, inserimos uma psicanalista nesse texto, cuja presença pode ser identificada pelo som que se escuta em sua leitura. Alice foi escrita no manuscrito original do texto, mas se apresentou somente na leitura de revisão, ou seja, na escuta do material.

Embora não esteja escrita com palavras, Alice está inscrita no som, e é este o lugar da palavra na Psicanálise: na diferença de som que se escuta daquilo que se fala achando dizer alguma coisa. Isso muda os sentidos e nossa posição diante da vida.

Alice fez intervenções interessantes nesse texto, mesmo sem estar escrita. Obrigado, Alice. Palavra bonita essa.

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Flávio Martins de Souza Mendes
Flávio Mendes mora e trabalha na cidade de Vitória, no Espírito Santo. É graduado em Psicologia pela Faculdade Brasileira – Univix (2009) e pós-graduado com Mestrado em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (2012). Leciona disciplinas de Psicologia na Faculdade Multivix Vitória (desde 2012) e atende em Consultório Particular (desde 2014), tendo experiência em instituição hospitalar (Hospital Santa Rita de Cássia/HSRC) e em unidade básica de saúde (Unidade de Saúde da Família da Barra do Jucu, Vila Velha/ES). Tem estabelecido suas ações nos campos da Psicanálise, da Psicologia da Saúde e da interface entre Psicanálise e Saúde.Doctoralia ( http://www.doctoralia.com.br/medico/martins+de+souza+mendes+flavio-14806115)



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