Por Jocê Rodrigues

Atencioso e engraçado. Justo e metódico, assim o apresentador, escritor e psicoterapeuta é descrito por amigos e colegas.

Desde 1976 Flávio Gikovate, psiquiatra e escritor, se dedicava a tentar entender quais são as variáveis que determinam nossos parceiros sentimentais, pondo em xeque a visão mágica e inexplicável que normalmente temos do amor.

Tarefa difícil naquela época, onde os dilemas da vida conjugal eram mantidos a sete chaves. Mesmo assim, resolveu encarar o desafio e seguiu adiante, transformando-se em um dos pioneiros nos estudos sobre amor e sexo no país.

Tendo sexo e amor como fenômenos completamente diferentes, Flávio Gikovate acreditava que os termos gregos como Eros e Philia (duas das definições que os percussores da cultura ocidental tinham para falar de amor), a base de nosso conhecimento sobre o assunto, são insuficientes e que o buraco é bem mais embaixo e bem menos místico.

Também é dele o conceito de +Amor – que parece mais uma daquelas frases que terminam com “por favor”, mas não é. +Amor faz referência à união entre dois indivíduos que já são inteiros, deixando de lado a velha história da tampa da panela ou da metade da laranja, valorizando a auto-estima e autoconfiança no lugar da dependência.

Tudo muito adulto e moderno, mas será que as pessoas de hoje estão preparadas para esse tipo de vínculo? Em tempos onde assumir posturas extremas é quase uma obrigação, as ideias de Gikovate soam como desafiadoras. Nelas, os matizes desempenham papeis importantes. Para entender o amor, por exemplo, seria preciso ser mais objetivo e ir um pouco mais a fundo no tema, longe das especulações corriqueiras.

“O que chamo de +amor corresponde a relações afetivas erotizadas em um par romântico no qual a intimidade é igual à que existe entre amigos: a dependência é mínima e o prazer da companhia é máximo”, esclarece na descrição de um vídeo sobre o tema, postado em seu canal no YouTube.

No vídeo, Flávio Gikovate gesticula, fala com as mãos e pausadamente, sempre com tranquilidade. Seus cabelos brancos inspiram confiabilidade, algo ancestral. A estante de livros ao fundo do seu escritório ajuda na construção de uma imagem de segurança intelectual. Sua postura é séria, mas inspira simpatia, convida a chegar perto e ouvir. “Amor é sempre remédio para desamparo”, profere em um trecho, antes de prosseguir e mergulhar um pouco mais fundo no tal do amor.

Autor de 34 livros publicados, atingiu a impressionante marca de um milhão de vendas em um país onde, de acordo com pesquisa realizada pelo IBOPE, sob encomenda do Instituto Pró-livro, 44% da população não tem o costume de ler.

Como psiquiatra e psicoterapeuta, atendeu mais de 10.000 pacientes em sua clínica particular. Era atarefado, mas amava o que fazia.

UM HOMEM JUSTO

Flávio Gikovate era admirado não apenas por seus leitores e ouvintes. Conseguiu o respeito também daqueles que se dedicavam ao crescimento da sua carreira.

Atualmente, após seu falecimento no ano passado, aos 73 anos, duas pessoas são responsáveis por cuidar de seu acervo. Elas foram autorizadas pela família a conversar com o CONTI outra. Como preferem ficar nos bastidores, pediram para que não fossem identificadas.

Uma delas era sua assistente, que trabalhava com ele desde 1995. O auxiliava diretamente na clínica, tinha apenas 18 anos quando começou.

“Minha incumbência era a parte burocrática da clínica, desde agendar consultas, contas a pagar e receber até a organização de palestras, passando pelas atualizações diárias das redes sociais”, explica.

“O Dr. era metódico, disciplinado. Tudo tinha um horário específico. A clínica funcionava diariamente com os mesmos horários marcados, começando às 9h o primeiro atendimento e o último terminando às 18h30”, diz sobre a rotina no local de trabalho.

“É fato que ele foi diminuindo o ritmo nos últimos anos, tendo em vista que, inicialmente, começava a atender às 8h15 e o último cliente saía às 20h. No geral, a cada 45 minutos chamava o próximo cliente e assim seguia o dia todo, sempre com a agenda lotada, não parando nem para almoço, apenas comia um lanche de pão integral com queijo branco no início da noite e depois jantaria em casa.”

Descreve o ex-chefe como um homem justo, que costumava dar na mesma medida em que recebia e não se curvava diante das dificuldades que surgiam.

“Fazia parte de sua formação moral e intelectual tratar a todos com respeito e nunca se exasperar, mesmo diante das piores situações”.

A segunda pessoa responsável cuida da parte de tecnologia, encarregado do site, vídeos e venda de livros da Gikovate Loja Virtual desde 2003.

“O Dr. era um cara muito legal, tinha muito senso de humor, comentava comigo os assuntos do momento, sobre futebol e falávamos muito também sobre investimentos e bolsa de valores. Eu aproveitava para puxar esse tipo de assunto com ele porque ele gostava e me ensinava muito”, relembra.

Dentre algumas lembranças marcantes do convívio com Gikovate, ficou a de quando fez a primeira entrevista para começar a trabalhar na clínica. “Lembro de estar muito nervoso e ele ter quebrado a tensão inicial da entrevista perguntando se eu era hacker. Ele perguntou e ficou olhando para mim, depois soltou um sorriso. Isso me deu muita segurança e vontade de trabalhar com um ‘patrão’ tão legal, foi o que eu pensei na época e que perdurou por mais de uma década.”

Como bom comunicador que era, Flávio Gikovate gostava de ficar atento sobre os novos modos de alcançar o seu público. Depois que seus assistentes o convenceram a criar uma conta no Twitter e um perfil no Facebook, passou a alimentar pessoalmente o primeiro e a dar dicas do que ser publicado no segundo.

Nos últimos tempos, criava material inédito para alimentar as redes sociais durante quatro dias na semana: frases para sábado, domingo e segunda – que algumas vezes a filha dele traduzia para o inglês – e o vídeo do YouTube na sexta. Nos outros dias, a escolha de conteúdo ficava a critério de sua assistente.

AMIZADE SINCERA

Reinaldo Polito (66) ensina expressão verbal para executivos e às vezes atende pela alcunha de mago da oratória. Já escreveu dezenas de livros sobre a arte de falar em público e goza de grande prestígio em sua área de atuação.

Polito e Gikovate se conheceram no começo da década de 1990. Pouco tempo depois, fizeram uma palestra juntos em Cuiabá, patrocinada pela psicoterapeuta Ireniza Canavarros, amiga de Flávio. O relacionamento entre os dois se estreitou cerca de quatro anos depois, quando palestraram novamente juntos no mesmo evento no Centro de Convenções de Olinda.

Depois do evento, os dois foram jantar acompanhados de Marlene, esposa de Polito. “A conversa foi tão envolvente que ele fez questão de nos convidar para um jantar em sua casa. Queria que a Ceci [como Gikovate chamava carinhosamente Cecilia Gikovate], sua esposa nos conhecesse. Como imaginávamos, a conversa naquele jantar na sua casa também foi excelente”, resume Reinaldo.

A relação literária entre eles também foi ampla e rendeu bons frutos. Polito coordena a série Série Superdicas, da Editora Saraiva. Um dos volumes é o Superdicas Para Viver Bem e Ser Mais Feliz (Saraiva, 2009), de autoria de Gikovate. Seu livro Vença o Medo de Falar em Público (Saraiva, 2007) foi prefaciado pelo amigo.

“Fui eu também que o apresentei para os agentes e editores internacionais. Uma das histórias até foi bastante curiosa”, antecipa. “Eu havia fechado acordo para publicar um de meus livros na França. Falei para a agente literária ‘seria bom mostrar o livro do Flávio, cairia como uma luva para os franceses’. Pois bem, acabaram publicando o dele e não o meu. Rimos muito.”

O exímio orador nutria grande admiração pelo amigo, de como aliou sua “habilidade de comunicação com o vasto conhecimento que possuía na sua área profissional”. Reinaldo chama a atenção para a capacidade de falar das questões complexas da psiquiatria de maneira tão simples que não havia uma pessoa sequer que não o entendesse. Afirma que Flavio havia desenvolvido “uma habilidade rara de resolver problemas intrincados em pouquíssimo tempo”.  Em seguida, dá exemplo de como essa habilidade funcionava na prática.

“Um amigo muito querido estava se separando da esposa. Meio perdido e sem saber bem como agir, marcou uma consulta – só uma. Em 40 minutos o Flávio fez o diagnóstico e deu a chave para que ele tomasse a decisão acertada para ser feliz. Até hoje esse amigo comenta como a orientação foi certeira. E diz que ninguém poderia ter sido mais competente que ele para que se reorganizasse na vida.”

Polito define o amigo como uma das pessoas mais bondosas, competentes e comunicativas que teve a felicidade de conhecer.  Alguém bem humorado até para reclamar; que gostava de conversar, falar de seus livros, das viagens a Nova Iorque, das palestras que fazia e do seu programa de rádio, que aparentemente era seu xodó.

Em 2007 Flávio começou a apresentar o programa “No Divã do Gikovate”, na CBN, onde conversava e tirava as dúvidas das pessoas presentes na plateia sobre os mais variados assuntos. A atração fazia sucesso e ajudou a alavancar ainda mais sua carreira.

“Eu estava na casa dele quando acertou com a CBN o início do seu programa. Estava ansioso e com grande expectativa. Estavam preparando o prefixo musical. Parecia que estava iniciando uma carreira – e de certa forma estava mesmo (…) Ele adorava fazer aquele programa.”

LEGADO E SAUDADE

Na ocasião de seu falecimento, avalanches de mensagens chegavam na página do Facebook e na conta do Twitter. O público honrava e consolava a família e os amigos que acompanharam de perto a trajetória do homem que dedicou sua vida a dar sentido à vida de outras pessoas.

“O público ficou realmente muito triste; manifesta até hoje a saudade daquele a quem consideram um sábio, um guru, um mestre”, contou a dedicada assistente. “Acredito que devam se sentir como nós ou os familiares: é como perder um norte.”

Do convívio que tiveram, ela afirma levar “a busca pela constante evolução moral e intelectual, que, segundo ele, nunca acaba (…) de compreender a sociedade em que vivemos e colaborar de alguma forma para melhorar o estado de coisas em que nos encontramos”.

“Aprendi muito, mas o caminho para tentar ser justo, é o que mais me orgulho de ter absorvido da convivência com ele”, conta o assistente de tecnologia. Segundo ele, Flávio Gikovate nunca negou uma conversa. “Às vezes era entre os intervalos das consultas, outras vezes durante suas pausas para o café, mas sempre estava lá para aconselhar.”

Ambos os responsáveis por manter sua obra sentem-se como se houvessem perdido um pai, um amigo e um sábio que tinham sempre por perto. Também consideram a perda de alguém tão especial como algo irreparável e assumem com visível alegria e respeito a missão de propagar seus ensinamentos, via redes sociais.

Reinaldo Polito lembra com carinho da gratidão e considera essa uma grande lição de vida deixada pelo mesmo. “Ele não tinha ideia de quanto me deixava feliz em ser considerado seu amigo.”

TEXTO ORIGINAL DE CONTIOUTRA

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