Em 19 anos de carreira, o jogador italiano Roberto Baggio cobrou 113 pênaltis. Converteu 101. Um aproveitamento de quase 90%. Em jogos do Campeonato Italiano, por exemplo, ele converteu 88,6% de suas cobranças. Nem mesmo Maradona (88,1%) foi tão eficiente na mesma competição. Baggio chegou a converter 16 pênaltis seguidos em certa ocasião. Mas, no dia em que ele mais precisava tirar proveito dessa sua habilidade, Baggio falhou. Perdeu a cobrança que mais precisava converter. Foi na final da Copa do Mundo dos Estados Unidos em 1994, contra o Brasil. A Itália perdeu o título depois do erro do italiano.

Os números comprovam que capacidade de acertar a cobrança não faltava a Roberto Baggio. Ele estava com uma contratura muscular na coxa, o que dificultava a tarefa, mas não a ponto de fazê-lo chutar tão mal. E o próprio Baggio admitiu que nunca a pressão em cima dele foi tão grande. Quatro anos depois, na Copa do Mundo da França, contra o Chile, coube a ele bater outro pênalti. “Lembrei-me da cobrança de quatro anos antes”, ele disse na época, depois de ter feito o gol (a história até lhe renderia um contrato publicitário para uma marca de uísque).

Impossível afirmar por que Baggio perdeu aquele pênalti decisivo. Mas, para psicólogos que lidam com jogadores de futebol, nem é preciso uma resposta: a simples possibilidade de o jogador ter pensado em alguma coisa pode explicar a perda da cobrança. “O rendimento muitas vezes aparece quando as pessoas conseguem ficar absolutamente concentradas no que estão fazendo. Quando se pensa demais no que está acontecendo, o processo é quebrado”, explica a ex-psicóloga da Seleção Brasileira Suzy Fleury. Ela diz que mesmo o pensamento positivo (por exemplo, repetir para si: “Estou fazendo isso maravilhosamente bem”) pode atrapalhar o processo de concentração e alterar a atuação do jogador. O melhor é não pensar…

Para Suzy, que atualmente trabalha no Atlético Paranaense, a concentração é uma das diversas “variantes psicológicas” que influenciam o rendimento dos jogadores. Outras variantes são a autoconfiança, a auto-estima e a motivação – além de fatores externos como a estrutura familiar, o entrosamento, a torcida e a imprensa. O conjunto dessas variantes determina como cada jogador reage às situações de pressão nos gramados.

O jogador com baixa auto-estima, por exemplo, vai ficar se lamentando após um erro ou uma má atuação, “pensando no que poderia ter acontecido se tivesse acertado”, nas palavras de Suzy. Outros jogadores, porém, podem encarar as falhas como fator de motivação e, a partir delas, buscar aprimorar-se.

Regina Brandão, mestre em Psicologia do Esporte e ex-psicóloga de diversos clubes brasileiros (como o Inter de Porto Alegre e o São Paulo), explica que cada jogador tem uma sensibilidade diferente às pressões. Ou seja, fatores que incomodam alguns jogadores podem ser os mesmos que motivam outros. Por exemplo, a provocação de um zagueiro pode ameaçar um atacante, mas, ao mesmo tempo, motivar outro. “Uma das coisas que fazemos muito é identificar as características individuais do atleta e buscar antecipá-las, para municiá-lo durante o jogo.”

O stress-training é uma das técnicas usadas para aprimorar esse controle emocional dos jogadores. Consiste em simular, nos treinos, as situações encontradas nos jogos. Regina conta que chegou a pedir para treinadores “roubarem” contra certos jogadores em coletivos para que os atletas pudessem aprender a controlar suas emoções dentro de campo. Esse tipo de treinamento deu resultado com um “esquentadinho” que atualmente joga na Seleção Brasileira, conta João Paulo Medina, coordenador técnico que trabalhou com Regina em diversos clubes: “Esse jogador foi aprendendo a lidar com suas reações depois de tanto ser provocado nos treinos”. Psicólogos concordam que uma boa estrutura familiar contribui. “A família é o ponto de apoio emocional”, afirma Regina Brandão.

“Se o jogador está brigado com a mulher, por exemplo, ele não vai render tudo o que pode. Ter um núcleo familiar proporciona uma alfabetização emocional ao jogador. Ele vai aprendendo a lidar melhor com os limites da raiva, do medo, da ansiedade”, diz Suzy Fleury.

O CA ZÉ CARLOS

Assim como Baggio, o lateral-direito Zé Carlos foi outro jogador que teve dificuldade para enfrentar a pressão de uma Copa do Mundo. Mas seu caso era diferente do do italiano: sem nenhuma experiência em jogos oficiais pela Seleção Brasileira, Zé Carlos foi convocado por Zagallo para a Copa do Mundo de 1998, como reserva de Cafu. Com o titular suspenso, viu-se diante da extraordinária responsabilidade de estrear oficialmente na Seleção em plena semifinal de Mundial, contra a Holanda (para não dizer que nunca vestira antes a camisa amarela, pouco antes da Copa havia entrado por alguns minutos num amistoso extra-oficial contra o Atlético de Bilbao).

Nos dias que antecederam o jogo, era evidente o nervosismo de Zé Carlos, diante do súbito assédio da imprensa – afinal, até ali ele era o mais obscuro dos 22 jogadores do Brasil na Copa. Zé Carlos jogou mal, demonstrando insegurança a cada investida do atacante holandês Zenden. O Brasil passou para a final, mas Zé Carlos nunca mais foi convocado. Sua carreira retrocedeu. Hoje, ele tenta dar a volta por cima no Joinville, de Santa Catarina. Até hoje diz que jogou tranqüilo naquele dia e atribui a má atuação à falta de ritmo de jogo. Mas reconhece que estava apreensivo antes da partida. “Tinha a preocupação de entrar e procurar corresponder, qualquer um sentiria isso. Era uma responsabilidade muito forte, você sabe que o mundo todo está te vendo.”

A falta de experiência em jogos da Seleção, adicionada à importância do jogo, são fatores que podem ter contribuído para a má atuação. Para Kátia Rubio, o maior problema era Zé Carlos não ter tido a oportunidade de adquirir a mesma experiência que os outros jogadores. “Presume-se que no trajeto até a Seleção o atleta vá adquirindo a maturidade para suportar o peso da responsabilidade.” Kátia acredita que o reforço da auto-estima de um jogador na mesma situação de Zé Carlos seria a melhor maneira de prepará-lo. Mas ressalva que talvez não haja como livrá-lo totalmente das pressões. “O atleta brasileiro carrega quatro títulos mundiais nas costas. É como o filho que tem o sobrenome famoso do pai.”

Zé Carlos teria se saído melhor se a Comissão Técnica tivesse um psicólogo? Naquela Copa havia uma pessoa com função parecida, Evandro Mota. Mas, como diz Kátia Rubio, “na verdade, era apenas um motivador que deu palestras para o grupo, nem psicólogo ele era.”

No entanto, a Seleção tem tradição no assunto. Foi a primeira a incluir um psicólogo na delegação, na Copa do Mundo da Suécia, em 1958. Depois da tragédia de 1950 no Maracanã e da vexaminosa briga com os húngaros no Mundial seguinte, em 1954, acreditou-se que o que faltava aos jogadores brasileiros era controle emocional. Em outras palavras, eles tremiam.

Mas, apesar da conquista da Copa em 1958, a idéia da psicologia no futebol saiu desacreditada. Isso porque o psicólogo da Seleção, João Carvalhaes, tirou conclusões que acabariam desmentidas na prática. O psicólogo reprovou Garrincha e Pelé nos testes psicotécnicos antes do Mundial. “Ele disse que o Garrincha tinha QI muito baixo para jogar futebol e que o Pelé era muito agressivo e perigoso”, lembra Mário Trigo, 90 anos, que era o dentista daquela Seleção e acompanhou de perto o trabalho de Carvalhaes. Apesar das derrapagens de 1958, a psicologia voltou à Seleção em 1962 e em 1966, com o psicólogo Athayde Ribeiro da Silva. Depois disso, nunca mais foi usada pelo Brasil em Copas do Mundo.

E LÁ FORA?

Fora do Brasil, a psicologia vem ganhando terreno. Clubes como o Milan, da Itália, e o Manchester United, da Inglaterra, têm psicólogos na Comissão Técnica. Alemanha e Inglaterra são exemplos de seleções adeptas da psicologia no esporte. O atual técnico da seleção inglesa, o sueco Sven Goran Erikson, disse numa entrevista recente que “a psicologia é o futuro do futebol”.

Apesar da crescente presença da psicologia nesse esporte, ainda são muitos os céticos. O problema é que quando o time perde… A última experiência com psicólogos na Seleção, nas Olimpíadas de 2000 (Suzy Fleury foi levada pelo técnico Vanderlei Luxemburgo), naufragou junto com o time. Derrotas como aquela só aumentam o preconceito contra psicólogos dando palpite no trabalho dos boleiros. Quem convive de perto com os jogadores, porém, sabe que há espaço. “A psicologia no futebol é válida. O problema é que o futebol brasileiro é muito resistente à novidade,” diz o comentarista de TV da ESPN Brasil Paulo César Vasconcellos.

TEXTO ORIGINAL DE SUPERINTERESSANTE

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