Certamente você conhece uma mãe que trata o filho já adulto como um eterno bebê, satisfazendo todas suas vontades e o mantendo perto do aconchego materno. É natural que os pais se sintam apreensivos diante da independência dos filhos. Entretanto, quando a ideia do afastamento é intolerável, negando a necessidade do filho de exercer outros papéis que demandem autonomia e emancipação, ocorre uma disfunção, fruto da ligação simbiótica entre pais e filhos e fonte de muitos desajustes.

Embora os homens também superprotejam os filhos, esse comportamento é mais observado em mulheres, originando termos como “Complexo de Jocasta” que se refere aos comportamentos disfuncionais de determinadas mães em relação aos seus filhos, abrangendo a simbiose e a superproteção.

Outro termo tem sido usado para retratar as mães superprotetoras: o Complexo de Wendy, inspirado na história de Peter Pan, a eterna criança zelada por Wendy que renuncia sua própria vida para se dedicar ao garoto. A satisfação das mães Wendy se dá quase que exclusivamente por meio de seus filhos, os quais procuram proteger integralmente.

A mãe superprotetora defende o filho até mesmo quando este comete atos incorretos ou impróprios; se esforça ao extremo em prol da satisfação dele, suprindo todas suas necessidades, físicas e materiais. Ela costuma assumir as responsabilidades que deveriam ser delegadas a ele.

Essas mães não transmitem tarefas aos filhos, se encarregam de fazer tudo sozinhas, demonstrando satisfação. Elas se empenham em não causar frustração, se certificando de que os filhos possuam tudo o que desejam.

E quando temos essas mulheres como sogras? As mães superprotetoras têm dificuldades de aceitar o parceiro dos filhos, os consideram ingênuos e incapazes de fazer boas escolhas, precisando ser protegidos por elas. É bom saber que, para elas e os filhos, ninguém poderá substituir uma mãe tão zelosa e haverá uma competição com o forte vínculo entre mãe e filho. Os benefícios que a mãe oferece são muito sedutores.

Além disso, o parceiro pode parecer cruel, pois fará com que o filho protegido entre em contato com aspectos da realidade que podem ser frustrantes e assim, ele experimentará uma dolorosa frustração da qual estava resguardado sob os cuidados maternos. Filhos de mães superprotetoras têm baixa tolerância à frustração, pois não são expostas a ela.

Quando bebês, choramos ao menor desconforto e somos atendidos o mais rápido possível. Tendo as necessidades básicas atendidas, somos invadidos por uma sensação de prazer que desejaremos por toda a vida. Entretanto, este prazer pleno não pode comandar nossa vida, uma vez que precisamos estar submetidos aos princípios da realidade ao nosso redor. A frustração em não termos todos os desejos atendidos deve ser introduzida pelas figuras materna e paterna. Falhas nesse processo comprometem o desenvolvimento saudável do sujeito.

O zelo pelos filhos é necessário e benéfico, porém quando mal dosado afeta a imagem que a criança constrói de si mesma, se percebendo incapaz ou esperando que todos lhe satisfaçam, uma vez que se manteve em uma bolha segura provedora de prazer. Filhos de mães superprotetoras se tornam adultos infantilizados, presunçosos e narcisistas. Eles têm dificuldades de sustentar compromissos, de serem empáticos e de desenvolver noções de responsabilidade.

A necessidade de se fusionar com os filhos decorre do desejo de ser amada e ser exclusiva para alguém, condição muitas vezes não encontrada no cônjuge e, assim, depositada nos filhos. Há a expectativa de que a criança represente a felicidade, na qual a mãe possa se identificar e ali amar a si mesma. Isso tudo deve ser compreendido como um sintoma familiar, pois o excesso de mãe denota a falta de pai. Inseguras e com medo da rejeição, superprotegem e satisfazem os filhos com o intuito inconsciente de serem imprescindíveis na vida deles, garantindo que não serão abandonadas, sendo sempre aceitas e amadas por alguém.

A superproteção também é prejudicial para as mães, que abdicam de suas vidas para estarem plenamente disponíveis para os filhos. Pais e mães necessitam desempenhar diversos papéis envolvendo a vida profissional, amorosa, familiar e social. Dessa forma, possibilitam que os filhos também circulem por esses universos. Impulsionado e autorizado a ir para o mundo, o jovem vai se experimentando aos poucos, adquirindo competências para construir sua própria trajetória sem se sentir em dívida com uma mãe que se sacrificou por ele.

A mãe suficientemente boa é capaz de frustrar o filho na medida em que permanece acessível em caso de necessidade, mas se revela dispensável, permitindo que a criança desenvolva estratégias criativas e habilidades de resolução de problemas e conflitos, aspectos essenciais para um adulto autônomo e continente de suas emoções. A mãe suficientemente boa se afasta do idealismo e romantismo da maternidade e percebe as imperfeições do filho sem deixar de amá-lo. Não se sentindo menos importante ao passo que o filho adquire autonomia, essa mãe valoriza os espaços de independência da criança, capacitando-a e fortalecendo sua autoconfiança.

Imagem de capa: Shutterstock/Photographee.eu

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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Marciane Sossmeier

Psicóloga clínica com enorme interesse nos processos e mecanismos envolvidos nas interações e comportamentos humanos. Com orientação psicanalítica, mantém uma abordagem integral do ser humano e sua subjetividade.
Graduada pela Universidade de Passo Fundo (UPF) e pós-graduanda em Dinâmicas das Relações Conjugais e Familiares pela Faculdade Meridional (IMED). .


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