Por Cristina Madeira

“Não existe nada tão raro como um homem inteiramente mau, a não ser talvez um homem inteiramente bom.” Denis Diderot

Salvo raras exceções do foro da saúde mental que podem envolver doença ou perversão, em que uma pessoa não é capaz de sentir ou expressar qualquer remorso, arrependimento ou compreensão por um mal ou dano infligido ao outro, no fundo não ser capaz de qualquer processo de identificação com outra pessoa: aquilo a que chamamos Empatia, nem tão pouco ter consciência e compreensão para ajuizar os seus atos e os seus comportamentos, sendo por exemplo, indiferente ao sofrimento ou sentimento do outro, parece ser unânime que ninguém é só bom ou só mau. Assim, podemos pensar que o mal e o bem coexistem em praticamente todas as pessoas, em menor ou maior grau. No entanto, felizmente, a maior parte destas consegue viver em sociedade de forma estável e adaptada ao meio envolvente sem provocar dano no(s) outro(s), como se de certa forma o seu lado bom prevalecesse.

De uma forma geral, culturalmente a ideia do mal relaciona-se com tudo aquilo que não é desejável ou que deve ser destruído mas o mal, a dor e a violência aplicados ao outro existe e as suas “expressões” podem ser diversas, umas mais explícitas, outras mais subtis mas sempre com consequências nefastas para quem por elas é atingido.

Quando falamos em violência falamos numa diversidade de problemas e realidades, como por exemplo:

  • Violência Emocional ou Psicológica;
  • Violência Verbal;
  • Violência Física;
  • Violência Social;
  • Violência Sexual;
  • Negligência.

Sabemos hoje que a violência psicológica ou emocional é uma agressão tão ou mais prejudicial que a violência física, sendo considerada a mais silenciosa de todas as formas de violência. Por poder ser tão subtil faz com que muitas vezes não seja corretamente identifica, nem a própria pessoa que é violentada tem a real noção de que está a ser alvo deste tipo de agressão.

A violência psicológica não deixa marcas “visíveis”, uma vez que o mal que provoca ao outro é por “dentro” mas a nível emocional e psicológico pode deixar “cicatrizes” para o resto da vida.

Pode assumir a forma de:

  • Rejeição
  • Depreciação
  • Discriminação
  • Humilhação
  • Desrespeito
  • Punições ou castigos exagerados
  • Isolamento relacional
  • Intimidação
  • Domínio económico
  • Ameaça de morte

Frequentemente a “estratégia” utilizada pelo agressor passa pela mobilização emocional e psicológica da pessoa vitimizada para satisfazer todas as suas necessidades de atenção, de carinho e de importância. De forma dissimulada o agressor tenta inferiorizar a pessoa, tornando-a dependente e com sentimentos de culpa.

Mas é bom ter em mente que ninguém está verdadeiramente só e que existem “redes de apoios” e serviços que podem proteger e apoiar pessoas que são vítimas de algum tipo de agressão! Também é bom recordar que a lei portuguesa penaliza as situações de agressão identificadas e que por isso pode ser vital assinalar uma situação de violência. Seja a nível psicológico, físico, social, sexual ou de outro tipo e seja infligida a uma criança, a um adolescente, a um adulto, a uma pessoa idosa ou a uma pessoa portadora de deficiência física ou mental.

A desinformação e o medo por parte das pessoas pode dar força ao agressor, pelo que é urgente inverter isso e sensibilizar as pessoas para o compromisso da não violência e da não discriminação.

Atualmente o art.º 152 do Código Penal referindo-se a violência doméstica, refere que existe crime de violência quando existem “maus tratos físicos e psíquicos, incluindo castigos corporais, privações da liberdade e ofensas sexuais (…) a pessoa de outro ou do mesmo sexo” com quem o agressor “mantenha ou tenha mantido uma relação análoga à dos cônjuges, ainda que sem habitação”.

Danos da Violência Psicológica na Saúde

A Organização Mundial da Saúde – OMS define saúde como “o completo estado de bem-estar físico, mental e social, e não simplesmente a ausência de enfermidade”. Desta forma podemos considerar que a saúde depende de um equilíbrio e de um bem-estar relacionados com as questões do corpo, onde se inclui a mente, a componente física e emocional (nível celular) e as questões relacionais e macro (nível social).

Os efeitos da violência psicológica são vastos e sensíveis e podem permanecer durante muito tempo silenciosos.

Podem incluir:

  • Desenvolvimento desequilibrado da personalidade (no caso das crianças)
  • Falta de esperança
  • Dificuldade em confiar
  • Dificuldade em criar laços e em construir relações
  • Influência negativa na vida sexual da pessoa vitimada
  • A pessoa vitimizada, consoante a gravidade das agressões emocionais e psicológicas, pode mais tarde passar a ter o papel de agressor em vez do de vítima.

Os sintomas apresentados pelas pessoas que sofrem de violência psicológica refletem muitas vezes, o stress de lidar repetidamente com as agressões verbais, humilhações e isolamento social. Estes sintomas podem potenciar em algumas pessoas o consumo de substâncias e a automedicação, traduzindo-se num consequente aumento de riscos para a saúde. Outra dimensão importante no que se refere às raparigas e às mulheres é o impacto que a violência psicológica pode ter na saúde reprodutiva, direta ou indiretamente e onde se pode incluir: a gravidez não desejada, o acesso restrito ao planeamento familiar, o recurso a abortos ilegais, as complicações resultantes de gravidezes de alto risco e da falta de assistência médica, as infeções sexualmente transmissíveis, os problemas psicológicos, incluindo o medo de contacto e perda de interesse ou prazer sexual.

Algumas Consequências de Ordem Psicológica:

  • Ansiedade
  • Angústia
  • Baixa autoestima
  • Irritabilidade
  • Depressão
  • Sentimento de incapacidade
  • Sentimento de culpa
  • Perda de memória
  • Abuso de álcool e drogas
  • Diagnóstico de pânico
  • Diagnóstico de fobias
  • Comportamentos destrutivos
  • Sensação de vazio
  • Tentativa de suicídio

Algumas Consequências de Ordem Física:

  • Nódoas negras
  • Hemorragias
  • Fraturas
  • Dores de cabeça
  • Aborto espontâneo
  • Problemas ginecológicos

 
Alguns Contatos e Apoios Úteis:

Imagem de capa: Shutterstock/wavebreakmedia

TEXTO ORIGINAL DE REVISTA PROGREDIR

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