Maromba fundamentalista: o que CrossFit e a religião têm em comum

Por Ana Carolina Leonardi

A onda fitness está por todo lado – seja no Instagram ou nas 23.398 academias espalhadas pelo Brasil, quantidade equivalente a 50% de toda América Latina. Mesmo entre os esportistas, o CrossFit e os clubes de exercícios especializados se destacam. Aderir se torna uma filosofia de vida, só que como a inversão da regra do Clube da Luta: um crossfitter sempre fala sobre o seu grupo de CrossFit.

Não é para menos. Segundo um relatório da Associação Internacional de Saúde e Clubes Esportivos, esse movimento continua crescendo porque consegue motivar as pessoas muito mais que outros exercícios. Para começar, o CrossFit e outros clubes, como os de spinning “tipo boutique”, em geral custam mais caro que as mensalidades de pequenas academias. Só por isso, o estilo de vida já se torna mais exclusivo. Mas a verdadeira motivação geradas por esses clubes é mais visceral.

Eles se apoiam na nossa necessidade inerente de pertencimento. Queremos fazer parte de um conjunto de iguais que trabalha por algo maior. Para ter essa sensação é que muita gente está disposta a pagar caro para virar pneu de caminhão e puxar peso todo dia (além, é óbvio, dos resultados que os exercícios têm no corpo). Ao contrário de uma academia comum, em que os vários tipos de aulas e equipamento atraem vários tipos de faixa etária e objetivos, no CrossFit todo mundo tem um perfil parecido.

Esse tipo de clube também trabalha com a nossa autoestima. No CrossFit, todos os alunos são chamados de atletas. O instrutor é o treinador. E o ambiente extremamente coletivo faz com que qualquer membro mais ou menos regular seja percebido quando falta. É impossível se esconder atrás de um livro ou na bicicleta ao fundo da sala, como em uma academia comum.

Não é só o relatório da Associação que percebeu que as motivações dos crossfitters têm muito a ver com a necessidade de pertencimento e de apreciação individual. A socióloga Marcelle Dawson, da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, estudou o CrossFit para responder uma pergunta: será que dá para considerá-lo um culto?

E ela descobriu, sim algumas semelhanças entre os clubes de CrossFit e as comunidades religiosas. Existe uma certa devoção ao treinador, a percepção de que os membros têm um status superior (afinal, o slogan da modalidade é “forjar fitness de elite”), uma determinação quase infinita de atingir os objetivos propostos pela comunidade e o desejo de recrutar mais membros. Há também os termos técnicos, que acabam compondo uma linguagem própria e a recomendação de uma dieta especial.

Além disso, pouco a pouco, a pessoa que se envolve intensamente vai tendo cada vez mais dificuldade de se identificar com gente fora daquela comunidade. É como um amigo de bar que se converte a uma religião que proíbe o álcool: a relação se torna difícil de manter.

Mesmo assim, a conclusão da socióloga é que o CrossFit se encaixa mais no conceito Instituição Reinventiva, da socióloga Susie Scott. Seria uma estrutura simbólica ou material através da qual os membros procuram voluntariamente uma nova identidade ou status social. Ou seja, ainda que parte do que prende as pessoas no CrossFit seja a coletividade do clube, a motivação enraizada é profundamente individual.

Essa tal reinvenção da identidade pode ser interpretada de jeitos diferentes dentro da sociologia. Tem quem diga que ela é positiva: um processo de transformação e autoaperfeiçoamento. Mas a própria criadora do termo afirma que essas instituições acabam criando novas identidades genéricas, que querem se adequar ao “normal” do grupo com tanta intensidade que acabam apagando a individualidade.

Se você tem um amigo que está entrando de cabeça na vida da marombagem, fica um alerta: as suas visitas à praça de alimentação do shopping nunca mais serão as mesmas.

TEXTO ORIGINAL DE SUPERINTERESSANTE

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