Me vi grávida, mas não me vi feliz

Muitas vezes colorida de cor de rosa por algumas mães, a gravidez assume um tom acinzentado para outras. A ideia de que há um bebê se desenvolvendo dentro de si nem sempre é sinônimo de felicidade instantânea, muitas gestantes experimentam sensações incompatíveis com as esperadas pela sociedade, o que aumenta ainda mais o nervosismo. É fato que até mesmo as mulheres que tanto planejaram e sonharam com a maternidade, se encontram em um estranho, porém natural, estado de desespero no início da gravidez.

Há algum tempo atrás, uma amiga me contou que estava grávida. Naquele momento, fiquei muito feliz com a notícia, mas notei que ela não demonstrava muita felicidade, não aquela que estamos acostumados a ver nessas ocasiões. Embora o bebê fosse programado, percebi que o medo e a angústia estavam ocupando os papéis de protagonistas no palco dos sentimentos para ela e, em meio a tantas reflexões que este momento me proporcionou, algo me ocorreu: o que estava acontecendo é que minha amiga estava vivenciando intensamente a porção, muitas vezes, velada de uma gravidez.

E por que isto acontece? Uma turbilhão de sentimentos e pensamentos assolam a mente das futuras mamães: Será que meu bebê vai ser saudável? Será que vou dar conta? Como vai ficar meu relacionamento? E minha carreira? Será que vou ter dinheiro suficiente para educá-lo? E se eu não amá-lo? Se for o caso de uma segunda gravidez, o medo se intensifica por cobranças do tipo: Vou dar conta de duas crianças? Meu filho mais velho vai ter ciúmes do mais novo? E nada mais natural do que se sentir ansiosa frente a tantas mudanças e incertezas. O que acontece em alguns casos  é que dependendo da condição mental em que a gestante se encontra, dos recursos internos que disponibiliza e do suporte externo que possui, os sentimentos “negativos” são vivenciados com maior intensidade e em muitos casos, tais sensações são guardadas a sete chaves por medo do julgamento dos outros.

Tornar-se mãe é a mais profunda transformação que uma mulher pode vivenciar.  “A mulher se sente obrigada a ficar feliz, como se a demonstração de medo, angústia e ansiedade fosse fazer dela uma péssima mãe”, diz Ricardo Monezi, especialista em medicina comportamental do Instituto de Medicina Comportamental da Universidade Federal de São Paulo.

Neste momento de vida, sensações de melancolia, tristeza  e solidão são completamente normais. Além disso, na gravidez, a mulher passa do papel de filha para o de mãe e essa mudança sempre gera ansiedade. Saber lidar com todas estas transformações no corpo e na mente é uma tarefa muito difícil.  

Desta maneira, é importante que a família ofereça o suporte e a compreensão de que a futura mamãe tanto precisa para lidar com os sentimentos inesperados e a culpa de não estar sentindo a sensação de plenitude idealizada e difundida pela sociedade. É essencial que a gestante possua  abertura para falar sobre suas angústias e seus temores, pois nessa fase, ela se sente totalmente sozinha e incompreendida. “Ela normalmente faz projeções baseadas na relação que teve ou tem com sua própria mãe. Quer ser melhor ou, no mínimo, igual. É uma autocobrança enorme.” Afirma Monezi.

 

Mantenha a calma:

  • Não hesite em procurar ajuda de um psicólogo se achar que o apoio da família e do seu médico não estão sendo suficientes. Somente este tipo de profissional é capaz de perceber e ajudar a resolver alguns conflitos.
  • Tudo bem se bater aquela saudade de “você de antes”, ou da sua vida de antes. Não se sinta mal por isso.
  • Defina prioridades e assuma compromissos que não exijam esforço emocional. É hora de colocar em prática tudo o que facilite a sua vida e lhe dê prazer.
  • Informe-se. Leia sobre o desenvolvimento do bebê e converse com outras grávidas. Você irá perceber que as dúvidas e as inquietações são muito semelhantes.
  • Não dê muita importância para os traumas de outras mães. Retenha apenas o que for bom. Cada gestação tem suas particularidades.
  • Vá arrumando o quarto do bebê com calma e curta cada detalhe. Divida este momento com os mais próximos. Este “ritual de espera” é importantíssimo para que o novo papel de mãe seja incorporado.
  • Peça ajuda, você não precisa dar conta de tudo sozinha.
  • Fique calma, sua vida irá voltar a normalidade, dentro agora do contexto de mãe.

 

Tornar-se mãe é um processo delicioso, porém concomitantemente doloroso, é preciso muita coragem para se permitir vivenciar os sentimentos negativos que assombram a mente. E se a alegria não vier de mãos dadas com o “positivo”, tudo bem!  Tudo tem seu tempo. Se dê este tempo. E seja feliz!

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Thaisa Fér Scandiuzzi
Psicóloga de crianças e adolescentes em Ribeirão Preto/São Carlos - SP. Formada pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Pós Graduanda em Psicopedagogia Clínica e Institucional, com ênfase em desenvolvimento infantil.



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