Medo, angústia, estresse, ansiedade: o que você está sentindo? Os termos não são sinônimos!

As pessoas dizem:  “tenho medo de ficar sozinho” ou “fiquei estressado com meu chefe no trabalho” ou então “estou ansioso com uma prova que vou ter na faculdade” ou ainda “estou angustiado com meu relacionamento”, como se todas essas expressões fossem equivalentes. Mas será que esses termos querem dizer a mesma coisa? Isto é, são todos indicativos de um mal-estar emocional que acompanham uma mesma situação difícil?

A Psicopatologia, a disciplina que objetiva estudar os estados psíquicos relacionados ao sofrimento emocional e corporal, estando eles ligadas a um quadro clínico ou não, valoriza a riqueza semântica dessas palavras, ou seja, os seus diferentes significados. O acompanhamento de milhares de pessoas portadoras de diversas formas de sofrimento psíquico ao longo de séculos permitiu aos estudiosos deste campo – o da experiência subjetiva do humano (médicos, psicólogos, neurologistas, filósofos e educadores) – reconhecer diferentes estados da alma, que correspondem a cada uma destas expressões (medo, estresse, ansiedade e angústia), e tantas outras.

Assim, iniciaremos neste artigo uma primeira tentativa de aclaramento do sentido de alguns termos trabalhados na psicopatologia, buscando com isto facilitar para aquele que sofre uma identificação mais sensível e discriminada do que está lhe afetando.

Medo

Comecemos, então, pelo medo. O medo é uma emoção que se instala de repente e que é ligada a situações de ameaça eminentemente à vida biopsíquica do sujeito. Por exemplo:

  • Um carro avança em nossa direção enquanto atravessamos na faixa – sentimos medo.
  • Recebemos um telefonema informando que um ente querido está no hospital – sentimos medo.
  • Olhamos para uma avaliação escolar e percebemos que não entendemos nada daquilo – medo.
  • Nossa mãe nos ameaça dizendo que se não nos comportarmos não falará nunca mais conosco – medo.
  • Há um monstro no armário quando meus pais me deixam no escuro – medo.
  • A pessoa amada se afasta sem explicação – medo.

A apresentação instantânea do medo, com manifestações corporais tais como tremor, mãos úmidas, batedeira no peito e pernas bambas, é clinicamente chamada de susto. O susto, quando atinge proporções nas quais o indivíduo sente que “vai morrer agora”, mesmo sabendo (de modo consciente) que não há justificativa plausível para isto, é o que denominamos pânico.

Estresse

O termo estresse é derivado da biologia e é usado para denominar situações nas quais um organismo vivo – ou parte dele – é submetido a uma sobrecarga de esforço inusual, eventualmente superior àquele que se pode suportar. Por exemplo:

  • O uso contínuo e excessivo de álcool estressa o fígado, na medida em que é este o órgão que processa a metabolização de tal substância de modo que não haja prejuízo de outros componentes do organismo (como o sistema nervoso central);
  • Levantar pesos em excesso estressa a coluna vertebral;
  • Dormir tempo insuficiente estressa o sistema nervoso central, etc.

Assim, de forma análoga, podemos falar de estresse emocional quando uma situação em nossa vida nos sobrecarrega, emocionalmente, com uma carga de apreensão, ou sofrimento, ou trabalho psíquico que vai além do que podemos lidar – tal como pode acontecer em um novo emprego, na maternidade, na perda de uma pessoa querida, em um desfalque financeiro, etc.

Ansiedade

Chamamos de ansiedade a experiência de apreensão ou medo de algum acontecimento que acreditamos que pode sobrevir em breve – mesmo que saibamos por experiência própria que não há motivo razoável para tamanho desconforto. O exemplo clássico é a paralisação que alguns de nós experimenta ao ter que utilizar um elevador/ metrô/ avião, ou dirigir um carro, ou permanecer em lugares fechados de modo geral. Diferente do medo, que necessariamente se resolve em minutos, pois instintivamente saímos correndo ou lutamos contra a ameaça, a ansiedade pode durar meses, anos, tornando-se uma expectativa permanente de que alguma coisa vai dar muito errado nas próximas horas. O pensamento é constante: um ente querido vai ser atropelado, a pessoa que amo vai descobrir que sou insuportável e me abandonar, aquela indisposição gástrica vai se revelar um câncer de estômago, etc.

A ansiedade pode ser uma companheira tão fiel e cotidiana que nos esquecemos da sua presença. Isto acontece porque já sofremos tanto com sua companhia, que nem percebemos mais seus efeitos. Deste modo, um colega comenta:

  • “Nossa, mas como você come rápido! Para que isso?”;
  • “Puxa, você trabalha com isso há tanto tempo! Por quê ainda fica achando que não vai dar conta das suas tarefas até o fim do mês?”;
  • “Você continua com a pressão alta, mesmo tomando tanto remédio para pressão! O que acontece?”

Angústia

Por fim, a angústia: esta é sempre uma experiência estranha – não existe nenhuma preocupação e nem nenhum pesar que estejam ligados à angústia: ela simplesmente está aí, constringindo, apertando nosso peito, nossa garganta, pesando sobre nossos ombros ou nuca, criando um buraco no nosso estômago, e sempre acompanhada da terrível sensação de que ela nunca mais irá embora. A perspectiva de que não há saída, de que o tempo parou nesse inferno opressivo – eis a angústia.

Depois dessas explicações, agora provavelmente vai ficar mais fácil para você nomear e assim conhecer um pouco melhor as experiências que constituem sua vida psíquica.

Sugestões de temas, dúvidas sobre algum conceito de nossos artigos? Participe da nossa nova coluna “Pergunte ao Psiquiatra”! Envie um e-mail para: mauricio.psicologiasdobrasil@gmail.com, que nosso colunista Dr. Maurício Silveira Garrote terá o prazer de respondê-lo!

 

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Maurício Silveira Garrote
Médico especialista em Psiquiatria Clínica pelo HC FMUSP (1985) e Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, com a tese "De Pompéia aos Sertões de Rosa: um percurso ao longo da Clínica Psicanalítica de pacientes com diagnóstico de Esquizofrenia" (1999).



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