Por Tayna Leite

Então que em algum dos vários grupos de mulheres dos quais faço parte me deparo com um texto sobre a maternidade que tinha algo próximo de 40 mil curtidas e 30 mil compartilhamentos. Resolvi conferir. Meu coração que já estava apertado por conta da votação da maioridade penal em andamento ficou em frangalhos. Sei que esse tema é polêmico pacas e que podem chover comentários dizendo que “só vou entender quando eu for mãe” mas não posso deixar passar a oportunidade de alertar como textos (e pensamentos) como os deste tipo de texto são parte importante dos duros grilhões que aprisionam a todas nós mulheres (mães ou não). Algemas que nos colocam em um ciclo enorme de frustração, culpa e depressão. Certamente o texto foi escrito na melhor das emoções e intenções e evidentemente tocou o coração de milhares de mulheres, mas, como diria o poeta: “de boas intenções…”

Meu primeiro instinto foi uma vontade enorme de dizer: “miga, que raio de ser alienado você era antes de ser mãe?” Sério, quem é que anda por aí tranquila, sem cobranças e sem preocupações, passando horas na frente do guarda roupa e depois mais horas na frente do espelho se maquiando e combinando sombras? Oi? Tem conta para pagar não? Mãe doente, briga com o marido, demissões, trabalho pressionando? Nada? Sem falar que me desculpe mas não precisamos ser mães para não dormir, tá? Insônia por aqui bate ponto desde 2001 PELO MENOS!

Mas enfim, eu poderia estar me apegando às generalizações bobas do texto ou gastando caracteres com tudo que eu achei bizarro no texto (tipo tudo!) mas vou apenas alertar para o que realmente me preocupou neste texto e para como duas frases ao final que podem parecer lindas e emocionantes escondem perigos seríssimos.

“Antes de ser mãe eu não tinha um motivo para viver… 💖 …. Agora eu tenho…

A maternidade não te mudou! A maternidade te mostrou como você verdadeiramente é!

A mulher nasce para ser MÃE… A maternidade existe para revelar a sua essência…”

A maternidade não te mudou! A maternidade te mostrou como você verdadeiramente é! A mulher nasce para ser MÃE… A maternidade existe para revelar a sua essência…”

Acreditar que um filho é a nossa razão de viver anula por completo o ser humano MULHER que está ali e também tem necessidades e desejos e ainda faz com que tamanhas expectativas sejam colocadas sobre um pequeno ser que quase nunca irá corresponde-las à altura. Esse tipo de crença provavelmente seja a razão de 9 de 10 mães apelarem para o discurso: “depois de tudo que eu fiz por você…”

E o que tudo isso gera? Culpa! Culpa! Culpa! Culpa nas mães que não se sentem tão plenas quanto esse tipo de texto prega! Culpa naquelas que, por acharem que assim deveriam sentir-se e para isso deveriam dedicar-se, abandonam suas carreiras e tudo que lhes dê prazer e não seja focado na maternidade! Culpa nas crianças que não atendem as expectativas e se tornam adultos frustrados! Culpa nas mulheres que não conseguem ser mães e acreditam que não estão cumprindo seu papel no mundo. Não preciso nem dizer quem é que está andando por aí assobiando com a mão no bolso bem feliz e livre de culpa né?!

Mas porque isso é tão importante? Porque a culpa e a frustração são os sentimentos que mais assolam as mulheres nos dias de hoje! Minhas clientes e as mulheres com quem converso estão sempre se sentindo “menos”. Estão sempre culpadas por algo! Inúmeras delas são corroídas pela crença de não estarem atendendo o que se espera delas nesse “papel tão nobre” e passam a vida tentando se justificar com discursos chatíssimos #nãosoumenasmain em grupos de mulheres como esse em que este texto foi postado!

E como a minha vida anda cheia de sincronicidades interessantes, não pode ser por acaso eu me deparar com essa reflexão toda logo enquanto me preparo para co-facilitar um programa de coaching e autoconhecimento para mães com o objetivo justamente de aliviar a culpa e resgatar a individualidade!

Mães, mulheres, irmãs, vocês são SERES DOTADOS DE INDIVIDUALIDADE! Ter filhos é um papel lindo e nobre e certamente é maravilhoso mas não é o único e não é a razão da sua vida e nem deveria ser. A razão da sua vida está ligada a você e ao seu propósito. Ser mãe pode sim ser o SEU propósito mas pode não ser e está tudo bem. Em uma sociedade que adora nos relegar ao status de mera reprodutoras precisamos defender com unhas e dentes a maternidade eletiva e não a imposta!

Você pode e deve ser feliz com ou sem filhos e ir em busca da realização dos seus sonhos e desejos independente do que imposições sociais nos coloquem. Você não precisa ser perfeita e você não precisa ser a Mulher Maravilha!

Eu quero muito ser mãe e isso não é segredo para ninguém mas eu NÃO NASCI para ser MÃE e eu tenho INÚMEROS motivos para viver! Eu quero ser mãe para que eu some a el@ e el@ a mim! Eu quero ser mãe para repassar valores que acredito serem importantes! Eu quero ser mãe por “n” razões e nenhuma delas é para me sentir plena ou mais completa. E tudo isso que escrevo aqui reflete o fato de eu também já ter sido vítima dessa cobrança, desse julgamento, dessa imposição!

Afirmar que ser mãe é o maior e melhor papel que uma mulher irá desempenhar e o único que irá “revelar sua essência” coloca aonde mulheres como Madre Teresa? E nem precisa ir tão longe… tantas outras mulheres maravilhosas e que optaram ou não puderam ter filhos deveriam então entregarem-se ao desconsolo e sentirem-se inúteis para o resto da vida como muitos sugerem? Estaria a autora sugerindo o meu suicídio? #contémironia

Textos como esse me dão ainda mais vontade de trabalhar em prol do empoderamento feminino e do autoconhecimento de mulheres para que resgatem sua essência, para que sejam mães e mulheres felizes e realizadas e não olhem para seus filhos com a cobrança imensa que leva tantos e tantas aos consultórios psiquiátricos e de psicólogos!

Imagem de capa: Shutterstock/kikovic

TEXTO ORIGINAL DE BRASILPOST

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


Compartilhar

RECOMENDAMOS


Psicologias do Brasil
Informações e dicas sobre Psicologia nos seus vários campos de atuação.

COMENTÁRIOS