Sinais de que a criança deve fazer terapia

Na sala de aula do 4º e do 5º ano do ensino fundamental, a professora pergunta: “Quem faz terapia?”. Metade dos alunos, por volta dos 10 anos, levanta a mão. A cena, ocorrida na semana passada no Colégio Nossa Senhora do Morumbi, ilustra o recente aumento na procura por atendimento psicológico infantil na capital. Segundo levantamento de VEJA SÃO PAULO realizado em dez dos consultórios que mais atendem pessoas dessa faixa de idade, o número de pacientes abaixo dos 13 anos dobrou nos últimos dez anos. Entre os menores, até 3 anos, o índice triplicou. Pipocam até casais grávidos: quando o rebento vem ao mundo, é incluído nas sessões.

A corrida em busca do tratamento, que custa a partir de 120 reais por sessão, aumenta nesta época do ano, devido à divulgação do boletim do primeiro trimestre. Pais e professores queimam neurônios em reuniões, e o psicólogo entra na pauta. Em alguns casos, nem é preciso ir ao consultório, ele vai à casa da criança. “Observo sutilezas da relação familiar e sirvo de modelo para os pais”, diz a terapeuta Ana Beatriz Chamati, do Núcleo Paradigma, centro de análise de comportamento, que realiza esse trabalho meio Supernanny em visitas de três horas, duas vezes por semana. Em alguns casos, o serviço estende-se ao colégio. Apresentado como professor auxiliar, o profissional “espiona” um aluno específico por até uma semana.

Vários motivos contribuíram para o fenômeno. Um deles é positivo: procurar ajuda para resolver questões da mente deixou de ser tabu. Os demais, no entanto, sugerem exagero dos pais na dose. “Eles estão atrapalhados. Reclamam até que o filho não quer tomar banho, quando isso é normal!”, afirma a psicopedagoga Ana Cássia Maturano. As escolas também carregam culpa. “O tipo clássico encaminhado pelo colégio é o do bagunceiro inteligente, que atrapalha a aula”, diz a psicanalista Miriam Ribeiro Silveira, vice-presidente do Departamento de Saúde Mental da Sociedade Paulista de Pediatria. Até a sociedade contemporânea entra na conta. “Hoje, timidez é tratada como fobia social, tristeza virou depressão e bagunça é hiperatividade”, critica Yves de La Taille, educador aposentado da USP. O incrível é que há motivações ainda mais prosaicas.”Virou sinal de status: tenho paciente de 9 anos que só vem à terapia porque as amigas fazem”, conta Anderson Mariano, formado em psicomotricidade, especialidade que ajuda pessoas com dificuldade de movimento e locomoção. Ao longo da reportagem, confira os temas que mais movimentam os consultórios.

+ SEPARAÇÃO DOS PAIS

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Os três irmãos, Bárbara, Arthur e Beatriz, começaram a terapia antes mesmo de saber do divórcio dos pais (Foto: Lucas Lima)

Há trinta anos, a criança com pais separados era a diferente entre os colegas. Hoje, quem tem os dois em casa talvez seja o alienígena. É fato que a popularização colaborou para que o assunto seja tratado com mais leveza. O curioso é que existam crianças que não só toleram, como aprovam a prática. “Algumas sugerem aos amiguinhos que é até bom forçar o divórcio, porque os pais passaram a pegar menos no pé”, conta a terapeuta Ana Beatriz Chamati. Os especialistas costumam concordar que, por si só, a separação nem sempre traz danos. “O que precisa haver é o contato constante dos filhos com a figura materna e a paterna”, explica Maria Thereza de Barros França, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Mas é ilusão pensar que os problemas se extinguiram. “Na nova configuração familiar que surgiu, todo mundo parece bem. Mas, durante as sessões, o bonequinho que apanha é o do meio-irmão”, exemplifica a psicanalista Miriam Ribeiro Silveira. Como medida preventiva, a engenheira Andreza Mazzieri decidiu pôr os três filhos na terapia antes mesmo de contar que iria se divorciar do pai deles. Cinco anos depois, continua levando Beatriz, de 10 anos, Arthur, de 9, e Bárbara, de 7, ao consultório. “O acompanhamento me ajudou a fazer com que diminuíssem as brigas e competições em casa”, conta.

+ HIPERATIVIDADE

O transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) é um problema neurobiológico, de causas genéticas, que se manifesta na infância. Crianças com os sintomas da doença enfrentam dificuldade para acompanhar o ritmo dos colegas na escola, entre outros problemas. Pelos números oficiais das entidades médicas, o déficit atinge uma parcela mínima da população (3%). Apesar disso, vem sendo diagnosticado com frequência cada vez maior. “Os próprios pais fazem pressão. Se uma criança não aprende, sofre menos preconceito ao ser tachada de hiperativa”, afirma Nívea Fabrício, presidente da Associação Nacional de Dificuldades de Ensino e Aprendizagem e diretora do Colégio Graphein. “Geralmente é só agitação.”

A falta de contato físico dentro de casa (os pais muitas vezes chegam quando os filhos estão dormindo) contribuiria para isso. “Certa vez, promovi uma oficina de histórias para uma pesquisa. Os pais não conseguiam contá-las por falta de hábito e pediam ajuda aos avós”, diz a professora Ivonise Fernandes da Motta, coordenadora do Laboratório em Criatividade e Desenvolvimento Psíquico da USP. A hiperatividade também viria da falta de uso do corpo. “Hoje as crianças não gastam energia e ficam mais ansiosas. Ou seja, trata-se mais de ansiedade física que psicológica”, diz o psicomotricista Anderson Mariano.

+ VIDA DIGITAL

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Camilla, de 13 anos: ajuda para superar a timidez (Foto: Fernando Moraes)

Camilla Duarte, de 13 anos, sempre foi tímida. Quase sem amigos, pouco participava das atividades no colégio. Para compensar, acabou se isolando na frente do computador, onde ficava a maior parte do tempo. No ano passado, a mãe, a coordenadora pedagógica Elisabete, ligou o sinal de alerta. “Vi conversas dela com desconhecidos e não gostei.Tentei proibir, mas não deu certo”,diz. Acabou levando a menina à terapia, e ela obteve resultados positivos. “Eu tinha muita vergonha na hora de conhecer uma pessoa, hoje me sinto mais à vontade”, conta Camilla. No entanto, mais do que servirem de rota de fuga para quem já apresenta dificuldade, as novas tecnologias estão entre as causas do aumento dos problemas de interação social. “As crianças pouco escrevem, só trocam fotos. Elas estão perdendo o dom da conversa, como se fossem autistas”, afirma a psicanalista Miriam Ribeiro Silveira.

Nesse cenário, os videogames costumam ser associados à obtenção rápida de prazer. No mundo real, objetivos demoram a ser atingidos, seja aprender álgebra, seja se tornar um craque de futebol. “Joguinhos trazem retorno imediato”, diz a psicóloga Giovana del Prette, especialista em terapia comportamental. A chamada geração multitarefa também não anda dando conta de tantos afazeres. Com isso, é comum ocorrer queda no desempenho escolar. “Tenho uma paciente de 12 anos que ri por fazer a lição da escola de qualquer jeito enquanto conversa no WhatsApp e acessa o Facebook”, conta a psiquiatra Suzana Grünspun. Os pais se queixam do excesso de tempo que o filho permanece plugado, mas o controle deveria ser deles mesmos. A receita dos profissionais é estabelecer horários específicos para os jogos durante o dia e tirar os equipamentos de circulação nos momentos de estudo.

+ MEDOS

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Matheus, de 7 anos: tratamento para se livrar da fobia de comer alguns alimentos, como frutas da cor vermelha (Foto: Fernando Moraes)

Coitado do bicho-papão. O monstro que povoou os pesadelos de gerações passadas foi substituído por aflições mais realistas pela turma de hoje. O mundo está menos seguro e o medo paterno da violência urbana acabou transmitido aos filhos. Crianças de 10 anos falam nos consultórios sobre a possibilidade de ser sequestradas e, por vezes, apresentam crises de pânico. “Elas andam de carro blindado, veem a preocupação da família e estão sendo afetadas”, diz a psicóloga Daniella Freixo de Faria. Com esse quadro, arriscam-se cada vez menos. Décadas atrás, a rebeldia pré-adolescente costumava ser acompanhada pelas clássicas fugas da residência. Agora, ninguém mais ousa pôr o pé para fora do portão. “Um paciente de 12 anos me disse: ‘Qual criança vai querer sair de casa? Lá fora é muito pior'”, conta a terapeuta Giovana del Prette.

Não é só o estresse dos adultos que está replicado: suas doenças também. “Atendi um menino de 9 anos com úlcera nervosa”, diz Quézia Bombonatto, diretora da Associação Brasileira de Psicopedagogia. É comum ainda que os profissionais tratem de fobias específicas e inusitadas. Matheus Ramos, por exemplo, começou a sentir medo de ingerir alimentos vermelhos por volta dos 4 anos. Diagnosticado com transtorno alimentar, foi levado a uma psicóloga. Hoje, aos 7, sua fruta favorita é maçã.

+ ADAPTAÇÃO ESCOLAR

Um estereótipo comum nos colégios é o aluno quieto e isolado, com dificuldade de integrar-se aos colegas. Em outros tempos, esse tipo de comportamento era associado a questões da própria criança, como timidez, ou à rejeição do grupo, pelos mais variados motivos. Pois essa figura tornou- se mais frequente no pátio durante o recreio. Por diversos fatores — como a interação com menos pessoas hoje do que em outras épocas —, os pequenos estão mais calados.”Trato crianças de 5 anos que não conseguem se comunicar nem fazer amizade porque não aprenderam o repertório verbal necessário ao contato social”, diz a neuropsicóloga Anne Tarine.

As escolas não colaboram muito para melhorar o panorama. “Colégios não ensinam mais a conviver, só se preocupam em julgar e cobrar conteúdo”, comenta Rosely Sayão, consultora de educação. Mesmo em questões pedagógicas, existe descompasso entre as demandas infantis e a percepção dos mestres. “Atendi uma menina de 8 anos classificada como ‘pouco inteligente’. Fizemos um teste, e ela era superdotada”, diz a terapeuta Maria Thereza de Barros França. Claro que a dificuldade das instituições de ensino em lidar com casos que fujam do padrão é histórica. A novidade é a solução sugerida. “Quem é diferente acaba encaminhado para terapia”, afirma o psicólogo Victor Mangabeira.

+ FRUSTRAÇÕES

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Erika Angeli e a filha, Lorena, de 8 anos: acompanhamento psicólogico ajudou a menina a lidar com divórcio dos pais e a mudança de colégio (Foto: Lucas Lima)

Esse tema é praticamente unânime entre psicólogos, psicanalistas, psiquiatras e terapeutas, seja qual for a linha de atuação. As crianças de hoje são mais mimadas. Os pais passam menos tempo ao lado dos filhos — porque não moram juntos ou trabalham demais — e tentam compensar essa “deficiência” da pior forma possível, esquecendo-se de dizer a palavrinha mágica “não”. Os consultórios estão abarrotados de “reizinhos da casa” que não conseguem lidar com as frustrações naturais da vida. “Impor limites é mostrar cuidado. A criança se sente mais confiante e protegida”, afirma a professora Ivonise Fernandes da Motta. “Como isso é chato, trabalhoso e demorado, muitos adultos preferem a saída mais fácil: deixar as crianças soltas para fazer o que quiserem”, completa.

Segundo especialistas, a facilidade está criando uma geração com tédio existencial. Como batalham pouco, não valorizam o que ganham. “Elas estão recebendo tudo de mão beijada, e é importante cultivar desejos”, diz a psicanalista Miriam Ribeiro Silveira. Durante os primeiros anos de sua vida, Lorena, de 8, passava a maior parte do dia ao lado da babá, enquanto os pais trabalhavam em tempo integral. A mãe, Erika Angeli, procurava equilibrar a distância exagerando ao chegar em casa. “Ela dormia todo dia na minha cama, eu a mimei demais”, admite. Em 2013, surgiram mais dificuldades: um divórcio em casa e a mudança de colégio. Lorena começou a tentar chamar a atenção dos professores na aula e terminava frustrada e emburrada por não conseguir seu intento. No fim das contas, isolou-se e teve problemasde relacionamento com os colegas. Após um ano e meio de acompanhamento psicológico, tornou-se mais sociável e consegue controlar melhor as emoções.

10 SINAIS DE QUE A CRIANÇA DEVE FAZER TERAPIA

Segundo especialistas, os pais precisam aguardar por mudanças significativas de comportamento

1. Agitação — Mostra alto grau de ansiedade ou tem atitudescomo quebrar objetos de propósito

2. Agressividade — Grita, esperneia, bate e protagoniza birras, tanto em casa como no colégio

3. Alimentação — Passa a comer mais, ou menos, que o usual; em alguns casos, pode deixar de se alimentar

4. Aprendizado — Tira muitas notas baixas nas provas e tem queda geral no rendimento escolar

5. Comunicação — Não consegue contar uma história do começo ao fim ou explicar como foi seu dia

6. Depressão — Chora mais e fica de mau humor; a irritação também é um traço comum na depressão infantil

7. Desligamento — Não presta nenhuma atenção no que lhe dizem ou no que está ocorrendo à sua volta

8. Medo — Começa a apresentar fobias exageradas e repentinas, sem motivação aparente

9. Socialização — Não faz mais amigos, ou se distancia dos antigos, e tem dificuldade para brincar em conjunto

10. Sono — Faz xixi na cama (fora da idade em que é natural), range os dentes ou começa a ter pesadelos frequentes

QUE TIPO DE PAI VOCÊ É?

Os estilos de educação mais praticados dentro de casa

BONS

› Ensino moral: os pais transmitem valores sobre o que é certo e o que é errado

› Monitoria positiva: ficam atentos à criança e oferecem afeto sem vinculá-lo a um prêmio por bom comportamento

RUINS

› Abuso físico: os pais exageram nas broncas agressivas e chegam a utilizar a palmada

› Disciplina relaxada: não apresentam coerência – uma regra que vale hoje pode passar a não valer amanhã

› Monitoria negativa: trancam o filho em uma bolha para protegê-lo do mundo

› Negligência: não prestam atenção na criança e desconhecem seus gostos pessoais

› Punição inconsistente: ameaçam retirar regalias, a exemplo do celular, como forma de tentar controlar seu comportamento.

TEXTO ORIGINAL DE VEJASP

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