Por João Luiz

Somos seres sexuais, sentimos desejo, nos atraímos. Nós, a maioria. Mas para 1% da população mundial não existe nenhum interesse sexual por qualquer pessoa, homem ou mulher. Eles são os assexuais, pouco mais de 2 milhões de brasileiros. Pressionados em um mundo que cultua o hedonismo, eles montam grupos para desabafar virtualmente, em comunidades fechadas na internet. Elisabete Oliveira, doutora em educação pela Universidade de São Paulo, furou o bloqueio e conversou com 40 deles, de adolescentes a idosos, para a tese de doutorado intitulada Minha vida de ameba. Ameba é a forma como alguns assexuais se identificam em seus fóruns. Nesta entrevista, Elisabete – paulista de 52 anos, divorciada – explica quem são, como vivem e como se relacionam aqueles que não querem saber de sexo.

ÉPOCA – Assexuais, que não sentem interesse sexual, acreditam que há uma pressão social para que as pessoas tenham interesse sexual por alguém?
Elisabete Oliveira –
A assexualidade é uma forma de viver a sexualidade caracterizada pelo desinteresse pelo sexo e/ou por relacionamentos amorosos. Numa sociedade que dá tanta importância ao sexo, se você não tem interesse há algum problema com você. A falta de vontade de fazer sexo é sempre “patologizada”. Ela foi criada e construída socialmente pela medicina, psicologia, sexologia – entre outras áreas do conhecimento – como uma patologia. Essa construção é constantemente reforçada pelos diversos meios de comunicação ao longo da história e faz parte da cultura. As ciências costumam abordar a sexualidade de uma forma essencialista, ou seja, como se o desejo sexual fosse universal, inerente apenas ao corpo biológico e todo mundo tivesse que sentir. Conforme essa abordagem, se todo mundo tem que sentir atração sexual, quem não sente carrega um problema que precisa ser descoberto, investigado e tratado. A assexualidade surge para desestabilizar essas certezas.

ÉPOCA – A assexualidade está catalogada como doença mental no DSM (The Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, uma espécie de Bíblia para psiquiatras produzida nos Estados Unidos, mas que serve de guia em todo o mundo)?
Elisabete –
A palavra assexualidade não aparece no documento. O que está catalogado é o transtorno do desejo sexual hipoativo, cujas características são semelhantes à assexualidade. De acordo com o documento, os portadores desse transtorno são pessoas que não têm fantasias sexuais, não têm vontade de fazer sexo e devem ser tratadas caso a pessoa não se sinta bem daquela forma. A militância assexual norte-americana tenta mudar isso junto a associações médicas, uma vez que a atual descrição patologiza as pessoas assexuais, apesar de não mencioná-las. Existem casos de desinteresse sexual que devem ser investigados, pois podem ser sintoma de algum problema fisiológico ou psicológico, mas isso não significa que todo desinteresse por sexo seja uma patologia. No caso dos assexuais, o desinteresse sexual pode ser uma característica vivida ao longo de toda a vida.

ÉPOCA – Um mundo cada vez mais hedonista e sexualmente verborrágico não inviabiliza a vida de uma pessoa assexuada?
Elisabete –
De forma alguma. Eles estão aí para mostrar que essa ênfase que se coloca no sexo também é construída, não é universal, há interesses por trás dessa construção de sexualidade compulsória. Existe uma indústria de tratamentos, terapias e medicamentos para assegurar que a atividade sexual não seja interrompida longo da vida. Costumo chamar de “sexo-normatividade” a esse conjunto de regras que estabelece as expectativas sociais em relações ao sexo e aos relacionamentos amorosos. Essas regras não são para todo mundo, mas a gente se deixa levar por esse discurso.

ÉPOCA – Deve ser especialmente difícil em países de origem latina ou isso não tem nada a ver?
Elisabete –
Tem um pouco. Aqui no Brasil, por exemplo, alguns homens que eu entrevistei me disseram que sentiam a expectativa social de que todo brasileiro tem que ter atividade sexual frequente, tem que ser bom de cama. Há uma ideia em torno do homem brasileiro que faz com que seja difícil admitir publicamente que é assexual. Automaticamente vão pensar que ele é gay. Ninguém vai pensar que não existe o desejo, mas, sim, que o desejo dele está escondido, ele está ocultando aquilo e aquela energia vai para algum lugar que ele não quer assumir para a sociedade.

ÉPOCA – A sociedade pressiona para que a gente sempre ame alguém e a vida só se justifica a partir disso?
Elisabete –
Há pressão para que os relacionamentos amorosos estejam no centro da nossa vida. Para muitos assexuais, o que interessa são as relações com a família e com os amigos, muito mais importantes e mais sólidas. Se a gente parar para pensar, a relação amorosa é instável demais para ser base de qualquer coisa. Mas isso não é consenso. Muitos assexuais estão em relações amorosas e estas acabam sendo o centro de sua vida social, como para qualquer outra pessoa. Conforme a classificação mais comum discutida nas comunidades virtuais, os assexuais podem ser românticos – que desejam relacionamentos amorosos, preferencialmente sem sexo – e os arromânticos, que não desejam parcerias amorosas.

ÉPOCA – Esses últimos podem nunca se envolver afetivamente?
Elisabete –
Podem se envolver afetivamente com a família, amigos, colegas, mas não de forma amorosa, do modo que a sociedade espera. Uma das minhas entrevistadas, hoje tem 30 anos, se diz arromântica, nunca teve nenhum tipo de interesse romântico, nem sabe o que é isso e, evidentemente, não se preocupa com virgindade. Quando ela vai a uma balada com os amigos, por exemplo, diz que só consegue se divertir quando fecha os olhos na pista de dança, ignorando os olhares masculinos para ela. Ela não tem interesse nesse tipo de envolvimento e é feliz assim.

ÉPOCA – A escolha da vestimenta é uma maneira de se sexualizar, então eles tendem a neutralizar isso?
Elisabete –
Algumas mulheres entrevistadas me falaram isso. Nenhum homem falou sobre roupa. Mas quando eu perguntava para as mulheres como elas lidavam com o assédio masculino durante a adolescência, na escola, algumas me disseram que andavam com roupas mais largas ou que cobrissem mais o corpo, ou então, adotavam um visual andrógino. Alguns meninos disseram que preferiam andar com grupos de amigas, porque os amigos eram muito “atacados”, só falavam de sexo, então eles preferiam andar com as colegas, consideradas por eles como mais contidas.

ÉPOCA – Elas acreditam que de alguma maneira um assédio mais incisivo configuraria uma forma de estupro?
Elisabete –
Não necessariamente estupro, mas violência. Relatos das mulheres assexuais sobre o assédio masculino são comuns, principalmente lendo as experiências nos fóruns da Aven (Asexual Visibility and Education Network), comunidade virtual criada em 2001 pelo norte-americano David Jay para agrupar assexuais de todo o mundo. Tenho para mim que, no âmbito da cultura masculina, pode ser que desperte o desejo de um homem saber que uma mulher é assexual. É a mesma coisa da lésbica: “Não é que ela seja lésbica, é que não achou o homem certo, e o homem certo sou eu, claro”. Nessa cultura, o pênis seria uma varinha mágica com o poder de mudar a essência de uma mulher. É assim que eles veem. Tem aquilo também: a mulher fácil sai com vários, mas a difícil é a que eu quero, porque ela não sai com ninguém. Creio que essa cultura machista possa se traduzir em assédio sexual indesejado às mulheres assexuais. Algumas entrevistadas mencionaram esse tipo de assédio.

ÉPOCA – Há chance de dois assexuais se apaixonarem?
Elisabete –
Não temos uma estatística exata do percentual de assexuais na população mundial, mas dois estudos sugerem uma estimativa de 1%. Se você pensar que eles representam só 1% da população, e que essa população está espalhada no mundo todo, é pouco provável que duas pessoas assexuais se conheçam na vida real sem a mediação de alguma comunidade assexual na internet. E ainda se conheçam, não basta que o outro seja assexual para que haja paixão. Se esta estatística incipiente estiver correta, no Brasil seriam mais de 2 milhões de pessoas. É gente para caramba, mas as comunidades continuam virtuais no Brasil, poucos são os grupos que se encontram regularmente fora da internet para discutir a assexualidade ou para promover algum tipo de mobilização.  Como pesquisadora, de vez em quando recebo mensagens de pessoas assexuais se descrevendo e me pedindo contatos de pessoas interessadas em relacionamentos. De modo geral, a pessoa assexual que deseja relacionamentos amorosos com outra pessoa assexual é aquela que não abre mão do direito de não fazer sexo. Mas também existem aquelas dispostas a fazer sexo para estar em um relacionamento amoroso.

ÉPOCA – Eles são tímidos? Ou não tem nada a ver com timidez?
Elisabete –
A maioria dos meus entrevistados começou a perceber a diferença de sua sexualidade em relação aos colegas já no início da adolescência. Nessa fase, começam a formular hipóteses para essa diferença, em geral, atribuindo seu desinteresse sexual à timidez, doença, religiosidade ou moralismo. Uma das hipóteses mais frequentes é a da homossexualidade. Se ela seria explicação para a diferença. Há muita busca por se entender melhor, principalmente na internet, porque a escola não está preparada para acolher toda a diversidade, não dá conta de atender a demanda desses jovens.

TEXTO COMPLETO EM ÉPOCA

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