Por Amanda Mont’Alvão Veloso

Um garoto de oito anos vê uma foto de pessoas presas em uma cela. “Papai, o que é isso?” O pai responde que era um lugar para loucos. “Mas não entendi, por que prendiam os loucos?”. O pai também não entende.

Dentre todas as violências possíveis, a omissão talvez seja a forma mais perturbadora, porque é silenciosa e permite que os estragos perdurem por anos. Só a omissão foi capaz de permitir que 60 mil brasileiros morressem dentro do Hospital Colônia, em Barbacena (MG). Um genocídio no maior hospício do Brasil. A História transformada em memória mostra os horrores de experiências recentes de segregação, como o Apartheid e o Holocausto. Um ser humano definindo o direito de vida de outro ser humano. Milhões de vítimas e um legado de perplexidade permanente: Do que somos capazes de fazer quando temos poder?

Na tragédia brasileira de Barbacena, os pacientes internados à força foram submetidos ao frio, à fome e a doenças. Foram torturados, violentados e mortos. Seus cadáveres foram vendidos para faculdades de medicina, e as ossadas comercializadas. Amontoados em um trem, chegavam Marias, Josés, Silvios, Antônios, Elzas. Eram pessoas tristes, pessoas tímidas, epilépticos, alcóolatras, homossexuais, prostitutas, meninas grávidas pelos patrões, mulheres trancadas pelos maridos, moças que perderam a virgindade antes do casamento, crianças rejeitadas pelos pais por não serem perfeitas.

Estavam ali porque alguém os tinha declarado “loucos”.

“Você pode ser meu pai?”, pergunta um garotinho, chorando, para o fotógrafo Napoleão Xavier, que visitava a Colônia. Uma criança louca ou uma criança abandonada? A comovente lembrança, assim como o diálogo no começo deste texto, é trazida no documentário Holocausto Brasileiro, produzido pela HBO e com estreia na televisão marcada no dia 20, no canal MAX.

O roteiro e a direção são da jornalista Daniela Arbex, autora de Holocausto Brasileiro (Geração Editorial, 2013), livro que inspira o filme. Armando Mendz também assina a direção.

É um livro de desassossego, e o documentário segue o mesmo caminho, de nomear o desagradável. Arbex reúne mortes tidas como “casuais” entre as décadas de 1930 e 1980 e lhes devolve o real sentido: no Colônia, as pessoas internadas eram condenadas à morte. Enquanto vivas, eram expostas às mais variadas indignidades, como comer ratos, beber água de esgoto ou tomar eletrochoques constantes. Um holocausto praticado pelo Estado, com a conivência de médicos, funcionários e da população. “Todos falharam com as 60 mil vítimas do Colônia”, ela lamenta.

Mas em vez de procurar culpados e pretender julgá-los, Arbex traz à tona o que estava à margem da imagem, e dá voz a quem precisou se calar por ser inconveniente à sociedade que define quem pode ser ouvido ou não.

Ao falarem, os sobreviventes sentem saudades, tristezas e revoltas, e têm a possibilidade de se reconhecer na própria história. Há uma conquista ali, de lugar no mundo, de se tornar alguém com passado e futuro. Parece algo simples e imediato, mas essas eram pessoas impedidas de viver e de fazer escolhas.

Fruto da premissa jornalística de apurar e relatar os fatos, o documentário também traz os depoimentos de quem esteve do outro lado da história, em uma posição ativa. Gente que aplicou eletrochoques, distribuiu injeções, vendeu corpos.

Em momento algum estes testemunhos são “demonizados” ou recebidos com agressividade. São apresentados com objetividade e contextualizados com documentos. Como Arbex disse após a exibição do filme para a imprensa, “o processo de reconhecimento da participação nesta tragédia é doloroso”.

Neste sentido, o filme transmite uma poderosa – e necessária – mensagem por meio da linguagem: Ao ouvir vítimas e “algozes” com a mesma atenção, não perpetua a segregação que define quem merece ser ouvido e quem merece ser calado.

O silêncio de décadas vai dando espaço à difícil tarefa de se lidar com os gritos da realidade. Uma realidade que torna normal o tratamento indigno dos “anormais”. Segrega aquilo que não reconhece em si, e transfere a carga para o outro.

Chama de louco aquele que se arrasta pelo hospício, com olhar vago e sons irreconhecíveis. Declara sãos aqueles que impõem sofrimento.

Por muitos anos a doença mental veio acompanhada da palavra “perigo”, e este foi o argumento para que milhares de pessoas fossem trancafiadas. Ainda hoje esta equivocada noção leva a reações despreparadas da polícia diante de pessoas com problemas mentais e ao estigma de que uma pessoa com problema de saúde mental é violenta e perigosa.

Ao procurar os motivos pelos quais o filho Dylan, de 17 anos, matou colegas na Escola Columbine, nos Estados Unidos, a mãe, Sue Klebold, acabou se tornando uma ativista da saúde mental quando descobriu que o filho escondeu uma depressão e um incontornável desejo de morrer, conectado com planos de violência. Os assassinatos cometidos pelo garoto foram o caminho dele para o suicídio.

Quando estava escrevendo o livro O Acerto de Contas de uma Mãe – A Vida Após a Tragédia de Columbine, Sue se perguntava como falar de doenças mentais e violência sem contribuir para o estigma. O neurocientista Kent Kiehl lhe deu uma sugestão: “A melhor maneira de eliminar a crença de que pessoas com problemas de doença mental são violentas é ajudá-las para que não sejam violentas.”

Em lugares como o Colônia, não há qualquer possibilidade de se integrar uma pessoa à sociedade. Os horrores do hospício já tinham sido denunciados em 1961 pelos impactantes registros do fotógrafo Luiz Afredo na revista O Cruzeiro. Em 1979, o jornal Estado de Minas publicou a reportagem “Os porões da loucura”. No mesmo ano foi filmado o documentário Em nome da razão, de Helvécio Ratton. Ao visitar o hospício de Barbacena, o psiquiatra italiano Franco Basaglia, referência na luta pelo fim dos manicômios, declarou em uma coletiva de imprensa que havia estado em um “campo de concentração nazista”.

Mas foi só na década de 1980 que a história de terror do Colônia teve um ponto final. Mais tarde veio a reforma psiquiátrica, em 2001, e foi estabelecido um novo modelo de assistência na saúde mental, baseado em uma rede de serviços e com os pacientes sendo tratados em residências terapêuticas. A luta antimanicomial teve muitas conquistas no Brasil, mas ainda falta municípios, estados e governo federal darem vida à legislação e desenvolverem estruturas de atendimento para as pessoas que não mais podem ficar internados em instituições.

O Colônia foi fundado em 1903, e por oito décadas levou adiante um tratamento desumanizador. É tentador pensar que o Mal tinha um rosto naquele lugar, ou que seria fácil reconhecer os vilões. Mas o trabalho de Daniela Arbex, de trazer à História do Brasil uma revelação tão dolorosa quanto importante, mostrou que o horror é tão humano quanto a iluminação. E essa história recente instala uma advertência pra vida toda: É no silêncio que a intolerância se transforma em ordem. E normalidade.

TEXTO ORIGINAL DE BRASILPOST

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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