O processo de “autistização” da medicina atual

Nas minhas diuturnas caminhadas pelas veredas das práticas de saúde – em Pronto Socorros, UBS, CAPS e até mesmo na função docente junto a Residentes Médicos – um fenômeno tem me alarmado: a transformação do ato médico de encontro humano em acontecimento burocrático.

Algo assim como quando você vai em alguma repartição para carimbar um documento, ou passa pelo caixa do supermercado para pagar a compra. O médico, hoje, não olha para o paciente. Durante a consulta, passa dados para um computador enquanto o “cliente” se queixa. No final do processo, aperta a tecla de imprimir e entrega uma receita e um pedido de exame.

Tenho ouvido colegas (da minha idade e mais novos) afirmarem que preferem trabalhar em Medicina de Urgência porque “não têm que ouvir história, não têm que aguentar família”. Ou então que “no Pronto Socorro é ‘pápum’, tem que entubar, desfibrilar, é tudo procedimento que vem em algoritmos, é sim ou não”.

Será? Recentemente me pediram para avaliar um paciente que vinha dado entrada no PS há quatro dias com dor precordial. Os exames “não davam nada”. Então, foi proposta a hipótese de que se tratava de um dependente de opióides (sedativos potentes da dor) que simulava os quadros para receber dolantina (um tipo de analgésico). Simulação ou exames que não dão nada ou paciente chato = chame o psiquiatra.

Conversando com o paciente, vi que ele era alcoolista, que estava no início de uma síndrome de abstinência, que nunca tinha tido contato com opióides até entrar no PS. Sugeri ao colega, portanto, a pesquisa de pancreatite ou doença dispéptica.

Por que o colega não tinha pensado nisso? Não coloco em dúvida sua competência. No entanto, mesmo para a apreensão do quadro clínico na sala de emergência, não há como prescindir do contato humano, no mínimo para saber o que aconteceu com aquela pessoa até chegar àquela situação, ainda que por meio de um familiar.

Imaginemos então a situação de um paciente que busca o atendimento médico na procura de ajuda para diminuir um sentimento de angústia. Ele chega e é atendido por um profissional que fica de costas para ele, faz algumas perguntas enquanto digita num teclado e lhe responde com uma receita que nem ao menos foi escrita por sua mão, mas impressa pelo computador. Desesperador, não?

Mas o quadro é grave não só na falta de contato humano com os pacientes: o médico está perdendo também o contato consigo mesmo, com seu corpo, com sua saúde, com seus afetos.

Exemplo disso está na reação dos vários colegas de profissão ao perceberem um problema de saúde já avançado: “achei que não era nada, a vida da gente é tão corrida, não quis fazer o exame, vai que dá alguma coisa, né?”

Sem falar na ausência – que abarca a época em curso em todos os setores, mas, neste momento, tendo a área médica como foco – de contato interpessoal: os dormitórios médicos são silenciosos, ninguém conversa, cada um com seu smartphone, seu tablet, seu notebook…

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Maurício Silveira Garrote
Médico especialista em Psiquiatria Clínica pelo HC FMUSP (1985) e Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, com a tese "De Pompéia aos Sertões de Rosa: um percurso ao longo da Clínica Psicanalítica de pacientes com diagnóstico de Esquizofrenia" (1999).



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