O que dizer da sexualidade hoje?

A seguinte indagação “você está sexualmente satisfeito?”, parece necessariamente gerar desconforto e evocar respostas que oscilam entre as de “bom tom” (tais como “sim, claro” ou “não, por enquanto estou solteiro”) e as mal-humoradas (do tipo “o que você tem a ver com isso?”). E é justamente por gerar respostas tão estereotipadas que o questionamento merece toda nossa atenção.

Em geral, quando se fala de vida sexual, a tendência em nossa cultura é pensar imediatamente em relações heterossexuais que incluam penetração. A mídia veicula imagens desta suposta atividade “comum” usando como símbolos pessoas jovens, felizes, bem-dispostas e portadores de maravilhosas musculaturas torneadas e bronzeadas, representadas preferencialmente por miríades de “bumbuns”, “peitões”, “brações musculosos”, “peitorais sarados”, e, claro, as “barrigas-tanquinho”.

Mas será que tais imagens e padrões de comportamento resumem o que seria a atividade sexual humana? Definitiva (e felizmente) não.

A sexualidade humana, ou seja, o infinito campo de experiências prazerosas com o corpo de um outro (ou o próprio), destaca-se da sexualidade animal por sua independência e imprevisibilidade.

Em primeiro lugar, em nossa espécie, a atividade sexual desvinculou-se da necessidade de procriação, isto é, seres humanos não têm relação sexual somente quando “alguém está no cio”.

Em segundo lugar, as chamadas “zonas erógenas” (áreas especialmente sensíveis, ligadas diretamente à atividade sexual e, em geral, estimuladas pela sensibilidade tátil) desencadeiam uma reação de excitação bem mais ampla nos seres humanos: qualquer área do corpo pode gerar estímulo sexual, qualquer campo da sensibilidade, seja ele tátil, visual, auditivo, olfativo, gustativo e/ou despertado pela atividade imaginativa.

Em terceiro lugar, livres dos imperativos biológicos da reprodução e da manutenção da coesão dos grupos, os seres humanos são passíveis de desenvolver práticas sexuais que prescindem de um parceiro, o que inaugura o riquíssimo campo da masturbação (um conjunto de atividades com o próprio corpo mediado por uma experiência corporal e, ao mesmo tempo, imaginativa).

Por último, mas não de menor importância, a sexualidade pode diversificar as possibilidades de prazer em experiências homoeróticas, e, assim, validar outras formas de subjetivação erótica, tais como ocorre nos grupos homoeróticos femininos, masculinos e transexuais. Portanto, a experiência humana da sexualidade e seus campos potenciais de prazer, se olhados mais de perto (e com menos moralismo e preconceito), inauguram uma infinidade de fontes de fantasias e descobertas.

De volta ao questionamento inicial, esperamos que esta breve reflexão de uma das mais humanas faces de nossa vida possibilite que você possa, a partir de agora, responder de forma menos categórica – e que ao mesmo tempo passe a contar com novos territórios de experiência corporal, midiática, imaginativa e virtual – na procura desta fonte tão humana da felicidade.

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Maurício Silveira Garrote
Médico especialista em Psiquiatria Clínica pelo HC FMUSP (1985) e Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, com a tese "De Pompéia aos Sertões de Rosa: um percurso ao longo da Clínica Psicanalítica de pacientes com diagnóstico de Esquizofrenia" (1999).



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