O que é um pai para Psicanálise?

Por André Nascimento

O QUE FAZ ALGUÉM BUSCAR UMA ANÁLISE?: A busca por uma análise pode se dar de diferentes maneiras mas, grande parte dessas buscas trazem um ponto em comum. Mas, antes de dizê-lo, e para dar base a esta discussão, quero apresentar a cada um de vocês duas breves histórias.

Na atualidade, há uma ‘precariedade’ (por ausência de palavra melhor) no exercício da função paterna, que nada mais é que uma ‘deslegitimação’ das figuras que representam a autoridade/alteridade, tanto na esfera social quanto na esfera privada.

Esta ‘deslegitimação’ está articulada a alguns eventos, movimentos e transformações que ocorreram ao longo da nossa história social, e que acentuaram-se no decorrer da Modernidade.

O Movimento Renascentista, por exemplo, propiciou ao homem se ver como ‘centro do universo’, um ‘indivíduo separado de Deus’. Já o Movimento Iluminista, trouxe um anseio por ‘Liberdade’ e pela ‘Felicidade’.

Eventos como a Revolução Francesa, a Primeira e a Segunda Revolução Industrial, os avanços da Ciência, da Tecnologia e do Mercado globalizado também produzirem efeitos significativos neste período, que perduram até hoje.

Em resumo, estes múltiplos eventos e suas transformações alteraram, no decorrer da modernidade, toda a esfera social da época, e seus efeitos ainda ressoam tanto na sociedade, quanto no homem pós-moderno. O que nos permite dizer que, no fim da  modernidade, nada resistiu a esse modo de vida ‘conquistador’, fadado a destruir todos os antigos valores ‘fixos’, ritos e hábitos das sociedades unicentradas.

No plano subjetivo, o homem pós-moderno encontra-se ‘desreferenciado’, tendo que ‘autofundar-se’, ‘autoreferenciar-se’, já que as instâncias terceiras (externas), tão fortemente marcadas na Modernidade – Deus, o Estado-Nação, a Família… – que serviam de referência, que representavam a alteridade, que organizavam a vida psíquica e social do homem, encontram-se deslegitimadas na atualidade, dificultando a transmissão da Lei (interdito) e, consequentemente, da falta, do “Tudo não é Possível!”.


O QUE É UM PAI PARA A PSICANÁLISE?

É preciso esclarecer o que é um Pai para a psicanálise, e sua importância naestruturação psíquica.

Em psicanálise, falamos de função materna e função paterna.

A função materna diz respeito a uma ‘maternagem’.

A mãe, para a psicanálise, é aquele/aquela que se encarrega dos cuidados inicias do bebê, quem o acolhe, e que o retira de sua condição desamparo no qual veio ao mundo, que interpreta/traduz seus choros, que lhe dá um lugar e que banha o bebê com seudiscurso, impregnado de significantes que, também foram transmitidos a esta mãetransgeracionalmente: “Você é isto!“, diz a mãe.

É graças a esse acolhimento que o bebê humano sobrevive! Entretanto, chega um momento que está ‘mãe’ precisa, pouco a pouco, retornar as suas atividades e afazeres diários, voltar-se novamente para o seu parceir@ amoroso. Assim, será preciso que esta mãe suporte separar-se de seu bebê.

Mas, onde entra o pai nesta história?

O pai, é aquele que representa uma instância terceira, é aquele que introduz um cortena relação mãe e filho, marcando uma impossibilidade, trata-se de uma proibição de uma relação incestuosa.

O pai funciona como uma Lei que vem dizer, simultaneamente, à mãe: “não reintegrarás o teu produto!” e, ao filho: “não retornarás ao ventre materno!”.

Entretanto, essa operação paterna só é possível quando a mãe dá um lugar, em seudesejo, a este ‘homem’, quando ela dá importância a sua palavra, a sua alteridade.

Vemos assim, que é a mãe quem funda o pai, reconhece-o, inaugura-o, pois é o desejo da mãe que o legitima para seus filhos, é ‘ela’ quem dá as primeiras cartas no sentido de transmitir ou não a palavra do pai.

O pai só passa a existir quando a mãe diz: “este é teu filho!” ou “você vai ser pai!”.

Vale dizer: um pai é, ao mesmo tempo, odiado como interditor, desmancha prazeres, e amado como garantidor da existência.

Nunca é demais enfatizar que não é necessário que o pai esteja vivo, em carne e osso, presente na realidade, no dia a dia da criança, tampouco que seja um homem, para que exerça sua função, pois este deve estar presente, antes de tudo, no desejo e no discurso materno. O que importa é a fala de quem está na posição materna, que esta mãe direcione seu desejo alhures da criança, ou seja, que o pai esteja presente mesmo quando não está (Lacan, citado por Jesus, 2009).

A Lei paterna escuta o que a lei materna diz: “Você é isto!”, e vem dizer “Não, ela [a criança] não é tudo que você diz dela!”, ou “Sim, mas, será que ela [a criança] também não pode ser…!?”, ou seja, um pai vem dar à criança as ‘armas’ que lhe permitem fazer de modo a que não haja adequação entre o que sua mãe diz e o que a criança é como Sujeito (Lebrun, 2004).

A Lei paterna equivoca, interroga e substitui a lei da mãe, barrando-a, colocando-a em questão, remetendo o sujeito a um outro lugar, a um outro plano da existência habitado também pela dúvida e não apenas pela certeza. A operação dessa Lei faz do sujeito um sujeito dividido, com interrogações, introduzindo em sua vida, em sua maneira de pensar sobre si mesmo no mundo, uma dialética, uma oposição, uma reflexão (Carleti, 2007).

Uma mãe pode até por um filho no mundo, mas é o pai quem lhe dá a vida pois, é ele quem tira a criança do lugar de objeto materno, permitindo a criança humanizar-se!

O pai, em psicanálise, é aquele que tem o encargo de fornecer à criança o que lhe permite pôr obstáculo à devoração pela mãe. Esta é função de um pai.

Como bem disse Lacan: “o desejo da mãe não é algo que se possa aguentar, este acarreta todos os estragos”. Metaforicamente, podemos dizer que a mãe é um grande crocodilo em cuja boca os filhos estão. É isso o desejo da mãe. Um pai seria um rolo, de pedra, que é colocada na boca da mãe, que protege os filhos, que tem a função de impedi-la de fechar totalmente a boca.

Em poucas palavras: a função paterna é importantíssima para a constituição psíquica do homem, na medida em que é por meio da operação da função paterna que a criança poderá separar-se da mãe e voltar-se para o mundo, possibilitando sua inscrição na cultura e no laço social.

Somente a partir da operação da função paterna é que o filho poderá re-construir a sua própria vida, lançar-se ao mundo! Esta ‘perda da origem’, este ‘des-prendimento’, este ‘deixar-ser’, só é possível graças a pais que, em razão de sua conjugalidade, puderam compreender que “pôr no mundo” é saber retirar-se. Trata-se aí de uma negação criadora e libertadora dirigida ao filho, “Não és o objeto de nosso gozo”; mediante o que ele poderá virar-se para outro lugar, em direção a sua própria geração e de acordo com ela (Julien, 2000), sendo possível fazer vigorar a frase: “honrar os pais é quase sempre virar-lhes as costas e ir-se embora mostrando ter-se tornado um ser humano capaz de se assumir…”(Dolto, citado por Julien, 2000, p.36).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Angelo, D. V. G. (2007). Adolescência, violência e a lei. Do horror e miséria ao bom e belo. Companhia de Freud: Vitória. pp. 25-38.

Carleti, P. C. (2007). Adolescência, violência e a lei. A lei paterna como tratamento possível do adolescente em conflito com a lei. Companhia de Freud: Vitória. pp.243-56.

Cotrim, G. (2002). História Global: Brasil e Geral. Vol. Único, 6ª ed., Saraiva: São Paulo.

Dufour, D-R. (2005). A arte de reduzir as cabeças: a nova servidão da sociedade ultraliberal. Companhia de Freud: Rio de Janeiro.

Julien, P. (2000). Abandonarás teu pai e tua mãe. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Jesus, L. F. M. (2009). A psicanálise quando fala da função paterna se refere ao pai da realidade? pp.01-16.

Lebrun, J-P. (2004). Um mundo sem limite: ensaio para uma clínica psicanalítica do social. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

Oliveira, M. C. (2007). Adolescência, violência e a lei. A lei do pai na atualidade. Companhia de Freud: Vitória. pp. 203-09.

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André Nascimento
Psicólogo. CRP 16/4290. Consultório Particular: Praia do Suá, Vitória, Espírito Santo (ES). Autor, editor e idealizador do Blog Eu Tava Aqui Pensando e Escritos Psicanalíticos. Contato: (27) 999617815 (Vivo). Correio Eletrônico: dreebn@gmail.com ou dreebn@yahoo.com.br



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