É amargo o desgosto quando o entorpecimento da paixão se dissipa e revela que atrás daquele sorriso encantador há muitos desencantos, nenhuma princesa ou príncipe. O torpor fascinante que impede de observar os aspectos não tão atraentes – e até desprezíveis – do parceiro é provocado pela idealização do par romântico. A idealização cria ilusões que não sobrevivem ao contato com a realidade, abrindo portas para as desilusões.

Mas como a idealização amorosa se instala em nós e bagunça o amor? Ela se enraíza muito cedo e é parte do processo natural e fundamental do desenvolvimento. Ainda bebês, psiquicamente incompletos e longe do conforto intrauterino, precisamos lidar com a sensação de desamparo. Para isso, a criança percebe os pais como onipotentes, se identifica e se fusiona a eles, criando a ilusão de ser autossuficiente e completa. Mais tarde, a realidade confronta essa onipotência, quebrando a ilusão e possibilitando o ingresso nas relações intersubjetivas.
Contudo, esse processo infantil pode se repetir na vida amorosa adulta, sendo que o parceiro toma o lugar antes ocupado pelos pais onipotentes. As idealizações são projetadas no companheiro com o desejo de que, como na tenra infância, todas as suas necessidades sejam supridas. É daí que surge a ilusão de que o outro seria capaz de nos completar, preenchendo o que nos falta – para assim voltarmos a ser ilusoriamente plenos como fantasiávamos ser enquanto bebês.

A ilusão funciona como uma defesa contra a realidade que nos mostra quão incompletos somos. A união amorosa é uma tentativa de resgatar o estado inicial de completude, de eliminar o vazio e o desamparo.

Se temos a ilusão de que o outro preencherá o que nos falta, depositamos nele virtudes ilusórias – as responsáveis pela tão conhecida “cegueira da paixão”. E se a chave para a felicidade está no outro, logo, nos posicionamos como dependentes dele. Inconscientemente, esperamos do amor – leia-se: do outro – coisas que não fazem parte dele, mas de nós mesmos.
A idealização dificulta a identificação das reais formas pelas quais o outro expressa seu afeto, uma vez que elas podem não corresponder com as expectativas. Com isso, é comum pensarmos que não somos valorizados pelo parceiro, julgando-o de acordo com nosso imaginário. A bagagem que carregamos, com nossas necessidades, influências e vivências acaba sendo mais relevante do que as qualidades reais do parceiro.
Maravilhoso e feliz é quando nos libertamos das amarras da idealização e percebemos que o outro tem muito a oferecer além de nossas expectativas mais infantis. Compreender que a falta nos constitui naturalmente, e que não podemos delegar nossa satisfação ao parceiro, diminui a busca pela plenitude ilusória. A magia é compartilhar momentos no conforto da certeza de ser compreendido na forma de ser e deixar o outro livre de exigências.

Imagem de capa: Shutterstock/CHOATphotographer

*O conteúdo do texto acima é de responsabilidade do autor e não necessariamente retrata a opinião da página e seus editores.


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Marciane Sossmeier

Psicóloga clínica com enorme interesse nos processos e mecanismos envolvidos nas interações e comportamentos humanos. Com orientação psicanalítica, mantém uma abordagem integral do ser humano e sua subjetividade.
Graduada pela Universidade de Passo Fundo (UPF) e pós-graduanda em Dinâmicas das Relações Conjugais e Familiares pela Faculdade Meridional (IMED). .


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