Ao nascermos, carecemos de alguém que nos ampare e exerça a função materna, garantindo nossa sobrevivência com os cuidados básicos. Contudo, as necessidades ultrapassam o biológico e abrangem o psíquico. Necessitamos que os olhares ao nosso redor nos reconheçam. São olhares nos quais buscamos encontrar e confirmar nossa identidade, o nosso lugar no contexto em que vivemos. Esse olhar nos valida como pessoa, mas à medida que comprova nossa existência no mundo, também pode nos prender em uma busca constante por olhares, que nem sempre nos validam.

Como em um espelho, nos identificamos e nos conhecemos por meio do olhar do outro. O olhar antecede a palavra. Antes mesmo de alcançarmos a linguagem, percebemos um outro que nos olha e investe em nós. Esse olhar é primordial na forma como nos constituímos.
É pelo afeto e olhar materno que a criança deve ir se sentindo desejada, validada, reconhecida e amada, construindo uma autoimagem suficientemente saudável. Falhas nesse processo comprometem o desenvolvimento de uma boa autoestima.

Desde cedo sentimos inúmeros medos, enraizados no temor de sermos rejeitados e abandonados. Os medos não permitem que nos sintamos seguros. Inseguros, buscamos tanto que nos esquecemos de oferecer, sobretudo na cultura atual. Não nos ocorre que, assim como buscamos, todos ao nosso redor também estão sedentos por esse olhar que conforta ao dizer “você existe, você é importante, te aceito assim”. É fundamental que também olhemos o outro. As habilidades sociais não são inatas e, dessa forma, o hábito de fornecer feedbacks assertivos deve ser praticado, reconhecendo as qualidades e os potenciais do outro.

Precisamos ser reconhecidos por quem somos, porém a necessidade excessiva de reconhecimento se relaciona com uma autoimagem prejudicada. O psicanalista Joel Birman enfatiza que a procura por reconhecimento no outro acontece devido à fome de amor, havendo aqueles mais vulneráveis que necessitam de mais reconhecimento.

As relações pessoais submergiram no mundo tecnológico que fez emergir com mais intensidade a urgência de ser visto e validado por meio de curtidas nas redes sociais e mensagens visualizadas e prontamente respondidas no Whatsapp. Nesse contexto, o olhar do outro é buscado ainda mais como recurso de validação e reconhecimento. Entretanto, essa busca desenfreada tende a ressaltar aquilo que nos falta, instigando nossas inseguranças e desestimulando nossos potenciais.

Nem todos nos darão o olhar afetivo que nos recobre de valor e segurança que tivemos, ou deveríamos ter tido, na tenra idade. Ao procurarmos a esmo em pessoas aleatórias um olhar de reconhecimento, podemos nos ressentir com a ausência dele.

Muitas vezes, nos expomos ao olhar do outro para verificar o quão bons somos. Outras vezes, por narcisismo ou necessidade de obter mais reconhecimento, nos afastamos de relações que nos conferem valor e acabamos nos ferindo em olhares incapazes de oferecer investimento e segurança. Compete a nós, nos expormos somente àqueles olhares que nos fortalecem e que inspirem a nossa melhor versão.

Imagem de capa: Shutterstock/Alexander Image

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